Opinião

Ponto de vista: O lobo, a ovelha e a couve

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Tamanho da fonte: A- A+ 06/11/2013

Um lobo, uma ovelha e um maço de couve estão na margem esquerda de um rio. O barqueiro deve transferi-los para a margem direita, mas como seu barco é pequeno só pode transportar um deles por vez. Além disso, todos sabem que lobo, ovelhas e couve costumam não se dar bem quando juntas. O grande problema do barqueiro é encontrar um plano de viagem tal que, dadas as restrições, ovelha, lobo e couve passem – sãos e salvos – para a outra margem. E agora?

Tanto pensou, o barqueiro “sacou” com a seguinte solução: 1) primeiro, ele transportou a ovelha para a margem direita; 2) daí, retornou sozinho para a margem esquerda. 3) Em seguida, o barqueiro transportou o lobo para a margem direita, 4) e retornou para a margem esquerda trazendo a ovelha. 5) No passo seguinte, levou a couve para a margem direita, 6) e retornou sozinho para a margem esquerda. 7) Finalmente, transportou a ovelha para a margem direita. E todos viveram felizes.

Quando ouvi essa história, pensei: esse barqueiro sou eu! Cuido de ovelhas e couves, e as protejo do lobo e de si mesmas.

O interessante dessa história é a preocupação que o barqueiro tem de ter para que lobo, ovelha e couve jamais fiquem sozinhos em qualquer margem. Isso fala diretamente do que seja, talvez, o maior de nossos problemas modernos: o individualismo. O ideal cultural do mundo industrializado ocidental é o indivíduo autossuficiente e autônomo, que se vale a si próprio, sem precisar de ninguém. Poderá consultar um médico, um advogado, um psicólogo, mas como esses serviços são pagos, o indivíduo continuará a considerar-se autônomo. “Tenha seu próprio dinheiro”, é o que ensinamos a nossos filhos. Isso não é ruim. Mas isso pode sugerir que o individualismo, o carreirismo e o estilo de vida frenético são os caminhos diretos a se chegar ao ideal.

Esse parece ser o ideal em prol do qual as pessoas vivem e trabalham, o seu objetivo de vida, e elas costumam sacrificar o que quer que seja para alcançá-lo. Mas será esse o caminho de uma vida para si próprio? Será esse o jeito para descobrir a própria identidade? No atual estado de coisas, liberdade e felicidade são equacionadas com independência e autossuficiência. E eu não estou dizendo que sejam más, mas... Onde parar? Onde determinar o sadio limite, que funcione como um corrimão de escada que proporcione segurança?

O mais interessante é constatar que o próprio individualismo está em crise. Como na história do começo, descobriu-se que o individualismo devora-se a si mesmo. Deixado sozinho, por conta própria, ele destrói aquilo que ele mesmo construiu. Percebem? Não só o lobo devora a ovelha, mas também a ovelha devora a couve. Uma vez individualistas, todos, significamos perigo para os outros e para nós mesmos, não importa a margem do rio em que estejamos nem quem sejamos.

 

Dom José Francisco Rezende Dias, Arcebispo Metropolitano de Niterói

 

06-11-2013


O FLUMINENSE


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