Assine o fluminense

A arte de saber narrar o mito

Dirigida por Amir Haddad, Andréa Beltrão apresenta no Teatro Poeira ‘Antígona’, tragédia grega de 2,5 mil anos atrás

A atriz interpreta a personagem-título, uma jovem princesa que trava um embate com o Estado para defender a memória de seu irmão morto

Foto: Divulgação/Fernando Young

Andréa Beltrão parte de uma história antiquíssima, patrimônio cultural, com origem há cerca de 2500 anos, em Tebas, na Grécia – escrita por Sófocles posteriormente à existência do mito –, para abordar assuntos atuais. Estamos falando de “Antígona”. Para tal desafio, a atriz conta com a ajuda e direção de Amir Haddad. A estreia acaba de acontecer no Teatro Poeira, em Botafogo, no Rio, e a peça fica em cartaz até o dia 28 de julho. 

“Sempre fui apaixonada por este texto. E, quando tomei coragem para encarar essa história, pensei imediatamente no Amir Haddad, um bruxo do teatro, que desnuda o truque. É teatro com magia, mas sem mistérios, sem máscaras. É narrativa horizontal. É conversa direta e franca. Reinvenção”, pontua a atriz. 

Sobre o poder que o teatro tem de recontextualizar os fatos e do texto se manter tão contemporâneo, Andréa diz que é realmente impressionante que um texto escrito há milênios ainda ecoe de maneira tão forte em todos nós. 

“Sófocles partiu do mito e chegou ao teatro. Como é impossível superar a obra desse escritor genial, decidimos tentar o caminho inverso: do teatro ao mito. O teatro nasce e renasce a cada interpretação, a cada desempenho. As Antígonas que povoam a nossa imaginação exercem uma força única sobre nós. Dão dimensão viva da força dos nossos dilemas, que não são solucionados pela inovação racional ou tecnológica, mas que vêm da nossa tendência permanente de desumanidade e destruição. São muitas as Antígonas de hoje. Agora mesmo, neste instante, estão nascendo outras”, ressalta. 

Plural e completa como atriz, interpretando majestosamente bem papéis de humor e de drama, o que encenar Antígona poderia ensiná-la? A personagem-título da trama é uma jovem princesa que enfrenta a ordem do rei Creonte de deixar seu irmão, que lutou na guerra, sem sepultura. Ao desobedecer a determinação real, ela paga com a própria vida. É estabelecido, então, o confronto entre o Estado e o cidadão. No palco, Andréa utiliza de recursos mínimos, como uma echarpe vermelha ou um casaco.

“Aprendo com todos os trabalhos, com todas as personagens. Aprendi também a emprestar, no palco ou na tela, a minha experiência humana, e, quanto mais me aproximo disso, maior é a minha compreensão do que estou fazendo. Espero que Antígona rode o Brasil afora. É uma maravilha ter o que dizer nesses tempos tão duros, onde a intolerância massacra a vida”, reitera. 

Para Amir, todas as tragédias gregas são de absoluta atualidade, e o narrador é uma figura em extinção da vida pública. Ele tem um papel essencial.

“Trabalho muito na evolução do ator para essa condição de narrador. É o que tem a opinião, o dono da história, o que domina o acontecimento, e ele sabe contar aquela história. Ele não é aquela história. Os narradores antecedem os atores. Antes de virar peça de teatro, ‘Antígona’ era uma história contada em tudo quanto é praça na Grécia. Isso Andréa sabe muito bem, ela entendeu o que proponho. Ela é uma narradora especial. É um valor, para mim, absoluto. Tem gente que diz: ‘É uma atriz que sabe viver uma história’. Odeio ator que vive uma história. O realismo prático de uma sociedade burguesa capitalista objetiva foi o que transformou o ator nessa coisa”, argumenta.  

O Teatro Poeira fica na Rua São João Batista, 104 – Botafogo, no Rio. Até dia 28 de julho, quinta a sábado, às 21h, domingo, às 19h. Duração: 60 minutos. Classificação: 14 anos. Telefone: 2537-8053.

Faça seu login ou cadastre-se para enviar seus comentários

Comments

Veja também

Scroll To Top