Assine o fluminense

A espera enfim acabou

Chega nesta sexta ao CCBB-Rio a exposição ‘Jean-Michel Basquiat – Obras da Coleção Mugrabi’, com mais de 80 peças

A mostra ainda contém uma sala interativa que representa o ateliê do artista neoexpressionista

Foto: Divulgação

São três os principais mitos que rodeiam a vida de Jean-Michel Basquiat (1960-1988), considerado um dos mais importantes artistas e um dos mais caros do mundo (no ano passado, sua obra “Untitled” foi vendida pelo preço recorde de US$ 110,5 milhões). Muitos acreditam que ele era de origem humilde, quando, na verdade, era de classe média e teve acesso a boa educação, além de sempre ter sido estimulado pela mãe às artes e à liberdade criativa.

Dizem também que o artista autodidata e rebelde morou nas ruas, mas ele só saiu de casa aos 15 anos, dormiu numa praça e voltou, para só sair da casa dos pais definitivamente aos 17, quando passou a morar na casa de amigos e conhecidos, além de uma namorada, até ter sido descoberto por um galerista. E também há o boato de que Basquiat teria sido grafiteiro, sendo que, dos 15 aos 16, ele só escreveu algumas frases polêmicas em poucos muros de Nova Iorque e sempre em locais estratégicos, como em frente a galerias. Isso e muito mais sobre a vida do artista neoexpressionista está reunido na mostra que estreia hoje no Centro Cultural Banco do Brasil, no Centro do Rio, comemorando 29 anos do espaço.

“Essa exposição acontece para eu me redimir com Basquiat depois de 30 anos, quando vi o trabalho dele de perto pela primeira vez em um museu da Holanda. Na ocasião, fui ver a arte do século 17 e me deparei com uma sala com suas obras. Não entendi o que aquilo estava fazendo ali. Anos mais tarde, estive em Paris, o vi pintando uma parede em um espaço de arte, mas continuei não tendo apreço pelo que ele fazia. Possivelmente, ele saiu com a turma em que eu estava para beber naquela noite. Quisera eu ter enxergado esse valor antes e comprado um quadro pequeno que fosse”, comenta, bem-humorado, o curador Pieter Tjabbes, fundador da Art Unlimited, responsável pela exposição “Jean-Michel Basquiat – Obras da Coleção Mugrabi”.

O artista nasceu no Brooklyn, é filho de pai haitiano, e sua mãe era filha de porto-riquenhos, ambos filhos de escravos. Um dos temas abordados na exposição é a questão racial (ou étnica), já que Basquiat era negro ativista e tinha percepção de ser uma exceção à regra por ter conseguido penetrar no universo da arte e ter tido uma carreira tão expressiva e meteórica. O sucesso veio à tona, principalmente, após ter estampado a capa da revista New York Times Magazine, em 1985. Para a exposição, Pieter e sua equipe trabalharam em uma leitura cronológica da obra de Basquiat, com mais de 80 quadros, todos da coleção particular, além de desenhos e gravuras. 

Obra Bracco di Ferro” (1983)

Foto: Divulgação

“Situamos as obras em ambientes com fotos de Nova Iorque dos anos 70 e 80, para o visitante entender como era a cidade naquela época e tirar selfies. Usamos elementos luminosos de néon como decoração, mas também com efeito informativo. Fizemos um ateliê com obras de artistas brasileiros que serve para situar o público na atmosfera de Basquiat; temos também um mapa de NY que mostra os lugares que o artista frequentava. Os textos da exposição também são didáticos, curtos e precisos. São textos acessíveis a todos os públicos”, adianta Pieter.

De acordo com o curador, Jean-Michel Basquiat, que morreu aos 27 anos de overdose, ainda deixou essa lição para os jovens sobre o uso excessivo de drogas, que pode ser fatal.

“Muitos amigos alertavam ele. Um, inclusive, deixou um bilhete para ele dizendo: ‘Não vou ficar aqui para ver você morrer’, e, nessa noite, ele morreu”, conta.

“Basquiat foi único. Com muita energia, velocidade e agressividade, fez mais de 1,5 mil obras em oito anos. Misturava desenhos, frases, palavras e histórias em quadrinhos. Tinha a capacidade de armazenar informações e, na hora de criar uma obra, as soltava na tela. No cérebro dele, tudo tem uma conexão, basta nós desvendarmos as referências. Ele vivia numa NY perigosa, violenta, escolas fechando, discriminação forte, cidades sem manutenção dos espaços públicos, bairros abandonados. Se assemelha um pouco ao Brasil de hoje e nos dá esperança de um futuro próximo também. Os jovens daquela época queriam criar um novo mundo a partir da cultura. A obra dele é muito atual”, analisa o curador.

“Coelho Vermelho” (1982) e “Bracco di Ferro” (1983) são duas obras privilegiadas na expografia, que é tão valiosa e única que foi disputada por outros países, como Rússia, Japão, Coreia do Sul e Alemanha, mas foi o Brasil que ficou com a estreia. Um privilégio, ainda mais porque a visitação é gratuita, como toda programação do CCBB. Uma das novidades da mostra é que, agora, as legendas dos quadros são grandes, ficam abaixo, no chão, e compõem uma barreira que faz com que o público mantenha a distância das obras. Se não o fizer, um sensor sonoro de aproximação emite um som avisando o vigia da sala. 

“Ao longo desses 29 anos, o CCBB oferece uma programação plural, regular, acessível e de qualidade. Em 2018, quisemos abordar o protagonismo do negro nas artes, através da exposição ‘Ex Africa’, da peça ‘Preto’, da mostra de cinema de Jonh Akomfrah e, agora, com Basquiat, esse grande artista nova-iorquino, negro, jovem, um ícone ainda hoje”, constata o diretor do CCBB-Rio Marcelo Fernandes.

O Centro Cultural Banco do Brasil fica na Rua Primeiro de Março, 66, no Centro do Rio. De quarta a segunda, das 9h às 21h. Abrirá, excepcionalmente, às 12h, no dia de votação 28/10. Entrada franca. Confira a programação completa dos 29 anos no site bb.com.br/cultura

Faça seu login ou cadastre-se para enviar seus comentários

Comments

Veja também

Scroll To Top