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Memória, identidade e crítica

Sônia Gomes – a primeira mulher negra a ter uma individual no MAC – e Jaime Lauriano abrem mostras neste sábado

A exposição de Sônia tem cunho retrospectivo e antológico, trazendo trabalhos que a artista mineira realizou nas últimas duas décadas, desde colares e joias até esculturas

Foto: Divulgação

Neste sábado (11), às 14h, duas importantes exposições vão ser inauguradas no MAC, com curadoria de Pablo Leon de la Barra e Raphael Fonseca. “A vida renasce, sempre”, da artista Sônia Gomes, e “Brinquedo de furar moletom”, do artista Jaime Lauriano.

A exposição “A vida renasce, sempre”, que ocupará o salão principal do museu, vai apresentar ao público cerca de 40 trabalhos, realizados nos últimos 20 anos por Sônia Gomes, indicada ao Prêmio Pipa em 2012 e 2016. Desenhos sobre papel, tecido e madeira, intervenções em livros, objetos domésticos e de trabalho, assim como exemplos das diferentes séries de trabalho que a artista desenvolveu ao longo da carreira, como panos, torções e pendentes, estarão entre as obras selecionadas para a exposição no MAC Niterói.

“A Sônia é a primeira mulher negra a ter uma exposição individual no museu. Essa exposição tem um cunho mais retrospectivo e antológico. São trabalhos que ela realizou nas últimas duas décadas, desde colares e joias até esculturas que ela apresentou recentemente numa bienal em Porto Alegre”, conta Raphael Fonseca.

Suas esculturas são construídas a partir de tecidos e outros objetos encontrados, torcidos, amarrados e manipulados até se transformarem em tramas espaciais complexas. Tem como procedimento a desconstrução das técnicas de manufatura de tecidos, eliminando qualquer finalidade de uso desses materiais.

Suas obras remetem, pelas cores, estamparias e até técnicas empregadas, a um universo íntimo ligado à memória familiar e à identidade racial e cultural da artista, além de estarem relacionadas à sua cidade natal, Caetanópolis, importante centro mineiro da indústria têxtil. Entre o popular e o erudito, o mundo da artista mineira liga o espectador a uma poderosa tradição brasileira, que transforma materiais instáveis e difíceis em arte permanente e contemporânea na trama extremamente inventiva de suas colagens e construções.

“Ela também foi a única brasileira na mostra principal da 56ª Bienal de Veneza, em 2015.

Suas esculturas são construídas a partir de tecidos e outros objetos encontrados, torcidos, amarrados e manipulados até se transformarem em tramas espaciais complexas

Foto: Divulgação

Aos 70 anos, trabalha todos os dias. Uma grande oportunidade de o público conhecer o trabalho desta grande artista, que através do tecido e de sua obra, também escreve, estrutura, dá forma e reivindica as vozes e presenças das minorias silenciadas, em especial aquela das mulheres negras no Brasil”, revela Raphael.

A mostra “Brinquedo de furar moletom” ficará na varanda do MAC, com vista privilegiada para a Baía de Guanabara. 

Tendo em mente suas pesquisas sobre mapas coloniais e sobre a história da violência no Brasil, o artista Jaime Lauriano propõe, por meio de tijolos portugueses, uma espécie de barricada ou torre de observação da paisagem.

Acima desse longo muro que ocupa três galerias do espaço, miniaturas de transportes relacionados ao militarismo, à defesa e à violência. Três caravelas, um tanque de guerra, um avião de guerra e 27 miniaturas de carros da Polícia Militar ficam sobre os tijolos como se estivesse a defender o espaço interno do museu. 

As miniaturas desses carros representam as vinte e sete capitais do Brasil e tiveram seus modelos tirados de modelos de automóveis utilizados pela instituição: o caveirão, no Rio de Janeiro, a base móvel da Polícia Militar de São Paulo e quatro modelos populares: Palio, Gol, Fiat Uno e picape. As miniaturas são feitas do ferro das balas usadas pela Polícia Militar do Rio de Janeiro.

“Quando eu recebi o convite tanto do Pablo quanto do Raphael, eu pensei em fazer tridimencionalmente esses veículos. Eu já tinha feito um trabalho parecido em 2016, sobre genocídio nas grandes cidades, onde eu utilizei cartuchos que foram usados pela polícia”, admite Jaime Lauriano, que ainda fala sobre o título da exposição.

“O nome da exposição foi retirado da música ‘Vida loka parte 1’, do álbum ‘Nada como um dia após o outro dia’, do grupo paulistano de rap Racionais MCs. Se trata de um verso que joga justamente com um dos elementos essenciais da minha proposta: Os limites entre violência e infância, entre miniaturas de brinquedos e munição militar. Onde começa um e termina o outro? Tento perceber como essa frase e as imagens criadas por mim são lidas pelo público”, completa. 

O MAC Niterói fica no Mirante da Boa Viagem, S/n. Até 25 de novembro; De terça a domingo, às 10h. Preço: R$ 10 (inteira). Classificação: livre. Telefone: 2620-2400. 

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