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Um mestre atualizado

O pianista niteroiense Luís Rabello traz para o Municipal concerto só com versões de Beethoven

"Tenho alunos em diferentes etapas da formação musical, desde iniciantes até vencedores de concursos e pianistas com carreira internacional" Conta Luís

Foto: Divulgação

Em Niterói, um garoto de apenas cinco anos procurava pela casa os LPs de música clássica do pai e encontrava vez ou outra uma vasta coleção de discos com as sinfonias de Beethoven. Colocava para tocar na vitrola, pondo em prática sua imaginação infantil ao reger uma orquestra invisível enquanto os clássicos do compositor alemão tomavam conta da casa. Os anos se passam, o menino cresce, forma-se na Escola de Música da UFRJ, estuda no Conservatório Tchaikovsky de Moscou e, após concluir o mestrado em performance no Conservatório de Roterdã, na Holanda, onde hoje é professor, se torna um dos concertistas brasileiros mais reconhecidos internacionalmente. Esta é apenas uma maneira resumida de narrar a trajetória do concertista Luís Rabello, que apresenta nesta quarta-feira (22), às 19h, no Teatro Municipal de Niterói, o repertório de seu mais novo álbum, “Beethoven Sessions”, que traz versões de alguns clássicos do aclamado compositor alemão, entre elas as sonatas “Ao Luar” e “Apassionata”.

O recital do pianista foi recentemente apresentado no Concertgebouw de Amsterdã – uma das três melhores salas de concerto do mundo, ao lado do Symphony Hall de Boston e o Musikverein de Viena – com venda esgotada de ingressos e elogios da crítica especializada. A intimidade de Luís Rabello com a obra de Beethoven ajuda a explicar a sucesso do recital.

“Beethoven é um dos colossos da música universal. Sua música sempre esteve presente na minha vida. Suas sonatas para piano são como membros da nossa família, invariavelmente nos encontramos. Há períodos em que o contato é mais intenso, em outros mais distante, mas a gente sempre sabe que vai se encontrar em breve”, brinca o músico, que teve a ideia de gravar o álbum em 2014, após ser convidado a tocar um recital de Beethoven na Holanda, onde o pianista trabalha como professor de música desde 2007.

Apesar da responsabilidade, Rabello não foge da proposta de trazer novidades ao seu recital, buscando um diferencial a tudo o que foi feito até hoje.

 “Há, logicamente, um grande desafio neste processo, que é o de trazer algo novo a este repertório que já foi tocado e gravado pelos maiores e mais sensacionais pianistas da história”, explica.

Esta é a segunda vez que Luís se dedica a gravar um CD inteiro em homenagem a um grande compositor da música clássica. A primeira foi um tributo a um compositor tão importante para a música de concerto brasileira quanto Beethoven é para a música mundial: Radamés Gnattali. As semelhanças, porém, param por aí, pois Luís revela que, como muitas composições do brasileiro não foram gravadas, o trabalho se iniciou praticamente do zero em termos de referências musicais, o que, por outro lado, permitiu a ele maiores possibilidades de experimentação.

“Com o Gnattali, o grande desafio foi trazer ao público obras complexas, que nunca haviam sido gravadas anteriormente, como a ‘Sonata nº 1’. Não tinha nenhuma referência para me apoiar. O Beethoven foi justamente o contrário: todas as referências do mundo, todas as grandes gravações na memória. Como trazer algo novo, com uma leitura interessante dessas obras?”, indaga o músico.

O trabalho como professor no Conservatório de Roterdã, exercido por Rabello desde 2007, é extremamente gratificante na avaliação do músico, por exigir dele um aprimoramento técnico ainda maior. A missão, porém, não é vista pelo pianista como um peso, mas como uma oportunidade de aprendizado.

“Tenho alunos em diferentes etapas da formação musical, desde iniciantes até vencedores de concursos e pianistas com carreira internacional. Perceber o progresso no aluno é, com certeza, muito recompensador para o professor. Dar aula é também um grande processo de aprendizagem. Posso dizer, sem sombra de dúvida, que o período que mais evoluí musicalmente na minha vida foi quando deixei de ter professor para virar um. Você se vê obrigado a refletir muito mais sobre música e esta reflexão também vira combustível para sua própria dinâmica musical”, enfatiza.

 

Foto: Divulgação

Em relação à própria formação musical, com passagens pelas escolas brasileira, russa e holandesa, Rabello faz questão de valorizar todas as fases de aprendizado que fizeram dele um músico reconhecido por público e crítica. Ele destaca a alta exigência da escola russa de piano e enaltece tudo o que aprendeu desde criança no Brasil, em tom de agradecimento a alguns de seus professores.

“Fala-se muito em escolas pianísticas, escola russa, francesa, alemã. O fato é que existe muitíssima diversidade dentro de cada uma delas, tornando-se difícil rotular como e o que cada uma prega. Eu me considero uma pessoa de muita sorte, pois, desde muito cedo, tive grandes professores aqui no Brasil.

Estudei com a Sônia Goulart desde os 11 anos e também na UFRJ. Estudei também com o Mordehai Simoni, que foi uma grande referência na minha formação. Cheguei na Rússia com 17 anos e esse período foi importantíssimo para mim. Entrei em contato com a mais forte escola pianística do mundo e fui exigido como tal. Foi um período de duro crescimento, mas que valeu muito a pena”, recorda.

O professor concertista, em sua trajetória na música clássica, pode se orgulhar também de uma alcunha que recebeu em 2010 do Diário Levante, periódico espanhol da cidade de Valência. Após apresentar um recital de música brasileira, Rabello recebeu do jornal o título de Embaixador da Música Brasileira. O concertista comenta que, tanto na Espanha quanto nos demais países da Europa, a música clássica é, de fato, mais presente do que no Brasil, mas que, mesmo no continente, esse público tem diminuído. Ele pondera, no entanto, que faltam iniciativas voltadas para a descoberta de novos talentos no Brasil, mesmo com o País tendo um terreno fértil – pouco explorado – para a música de concerto.

“Há um fenômeno mundial de diminuição do público de música clássica, seja na Europa, no Brasil, EUA ou Ásia. O Brasil é, por outro lado, um grande celeiro de talentos que, a meu ver, carece de incentivos à altura dos seus talentos nativos”, critica.

A volta para casa, que ainda contará com apresentações em São Paulo e Brasília, é a segunda de Luís Rabello no intervalo de um ano. Em 2014, após 10 anos longe de sua cidade natal, ele trouxe ao próprio Teatro Municipal o concerto em homenagem a Radamés Gnattali. O show com o repertório do ‘Beethoven Sessions’ é encarado pelo pianista com entusiasmo e um leve nervosismo, mas nada que chegue a atrapalhar.

“É, com certeza, uma grande alegria poder voltar, ver os rostos amigos na plateia e sentir o acolhimento e calor do público da cidade onde a gente cresceu. Por outro lado, não é nada fácil tocar em casa. A expectativa é sempre grande em dar o seu melhor, o que traz sempre um friozinho extra na barriga. O público pode esperar um programa Beethoven com uma seleção de suas sonatas mais sublimes.”, encerra Rabello, em tom bastante animado.

O Teatro Municipal de Niterói fica na Rua XV de Novembro, 35, no Centro. Às 19h. Preço: R$ 30 (inteira). Telefone: 2620-1624

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