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Publicado em 21/10/2007

Indumentária

Alice Cordeiro
 
Samuel Abrantes, coordenador do curso da UFRJ e figurinista há 25 anos, diz que o mercado está em ex - Foto: Darlei Marinho
   

No mês em que se comemoram 28 anos de criação do curso de Artes Cênicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a habilitação em Indumentária ainda é uma incógnita para grande parte da população, até mesmo para a minoria que presta vestibular para a área.

O coordenador do curso, Samuel Abrantes, que trabalha há aproximadamente 25 anos como figurinista, diz que a maior dificuldade das pessoas é entender o significado da palavra indumentária.

"Nada mais é do que o estudo da roupa através do tempo. No curso formamos profissionais capazes de criar figurinos e adereços para diversos espetáculos", explica.

Para seguir a carreira,  os interessados devem prestar vestibular para Artes Cênicas e no ato da inscrição, escolher entre Cenografia e Indumentária. Além das provas não-específicas e específicas, eles fazem o Teste de Habilidade Específica (THE), no qual serão avaliadas a percepção visual, a capacidade de composição, habilidade quanto aos meios de representação,  lógica de raciocínio, clareza e concisão de solução e o raciocínio espacial.

As duas habilitações, que duram quatro anos, caminham juntas até o sexto período. A partir daí, cada uma adota matérias específicas para a área de atuação. Para conquistarem o diploma, os estudantes devem elaborar um trabalho prático no final da graduação.

No curso, que é composto majoritariamente por mulheres, são poucos os que se formam. Para Abrantes um dos fatores que colaboram para a desistência é o fato de que muitos alunos chegam à universidade com uma visão errada da profissão.

"A cada semestre oferecemos 25 vagas, no entanto, apenas dez concluem a formação. Alguns acham que vão se tornar atores fazendo o curso. Quando percebem que estão errados, acabam desistindo da carreira. Na UFRJ não existe um curso que forme atores, mas sim de direção teatral", esclarece Abrantes.

Segundo Samuel Abrantes, os dois primeiros anos do curso são dedicados basicamente ao desenho. Nos demais, os alunos aprendem sobre tipos de tecido, história da literatura dramática, estética, dentre outros assuntos relacionados à carreira.

Mercado de Trabalho – De acordo com o coordenador, o mercado está em expansão, mas privilegia os pequenos núcleos que já estão atuando. Segundo ele, além dos destinos tradicionais, como novelas, teatros e cinema, as escolas de samba estão aparecendo como um novo destino para os figurinistas.

"Hoje, o Carnaval é um dos ramos em franca expansão para os figurinistas. Muitos alunos saem da universidade e vão trabalhar em escolas renomadas e com grandes carnavalescos. Lá, eles fazem de tudo, desde desenhar fantasias e adereços até ajudar na elaboração dos carros alegóricos", revela o figurinista da peça "As centenárias", estrelada por Marieta Severo e Andréia Beltrão.

Disciplinas são apaixonantes

Para a aluna do sexto período Daniella Lima, de 22 anos, as ''disciplinas são encantadoras e o curso apaixonante". No entanto, ela acredita que um dos pontos fracos é o horário integral, que muitas vezes os impe- de de atuar como estagiários.

"Estudamos no período da manhã e à tarde. Como a dedicação é praticamente exclusiva, é difícil encontrar tempo para trabalhar e praticar o que aprendemos", reclama a aluna, que apesar da falta de tempo já participou de duas montagens da universidade e atua como bolsista.

Daniella afirma que, após a formatura, vai investir em pós-graduação em Moda.

"Acho que com o curso de figurinista tenho uma base maior para investir no mundo da Moda. As duas carreiras estão muito próximas e por isso é muito comum encontrarmos alunos que já cursaram moda ou vão cursar. Além disso, a moda é um mercado que está em expansão e com isso temos mais uma opção de trabalho", ressalta.

Ao contrário do que muitos pensam, no curso os alunos não aprendem a costurar. Danielle esclarece que o que eles fazem são desenhos de possíveis figurinos.

"Nas aulas aprendemos um pouco sobre os tipos de tecidos e qual a melhor forma de usá-los e fazemos diferentes texturas com eles mas não temos aulas de costura", explica apontando para a única máquina de costura da sala, usada para pequenos trabalhos.

Alunos buscam colocação. Um assistente de cenografia no cinema ganha R$ 900 por semana. No teatro, montagem rende R$ 1,5 mil

Com a aproximação da formatura, o medo de não conseguir atuar no mercado aumenta. O coordenador Abrantes afirma que, para o aluno sair da universidade com um emprego garantido, é necessário que durante os anos da faculdade ele se esforce para participar de projetos,  pensando sempre que vai aprender cada vez mais.

"Com isso, os alunos passam a conhecer os profissionais da área, fazem contatos e se tornam conhecidos no meio. Assim, será sempre lembrado quando aparecer uma oferta", enfatiza.

Atenta aos conselhos do professor, a aluna do sétimo período Miriam Miranda, de 45 anos, participa de projetos na universidade e sabe que a graduação é apenas um começo.

"Sei que aqui é uma passagem para o mercado. Temos que batalhar muito para sermos reconhecidas como boas profissionais. Na faculdade, temos a possibilidade de conhecer pessoas e fazer contatos para que possamos ser lembradas pelo trabalho que já fizemos e um dia sermos chamadas para atuar novamente", acredita Miriam, que é formada em Cenografia.

Com o diploma em mãos, ainda é necessário que o figurinista apresente três trabalhos no Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões (Sated), para que consiga o registro profissional. Entretanto, não existe a obrigatoriedade do diploma, aumentando, assim, a disputa por um emprego. Abrantes é um exemplo disso. Formado em Letras, ele se encantou pela profissão e passou a atuar na área. Após alguns anos, decidiu fazer o registro no sindicato.

Por essas características, alunas e professor concordam que esta não é uma profissão segura. O coordenador frisa que não é possível estabelecer uma faixa salarial.

"Um assistente de cenografia pode receber por montagem ou por semana trabalhada. Uma semana no cinema  rende cerca de R$ 900. Já no teatro, uma montagem custa aproximadamente R$ 1,5 mil. Mas isso tudo é variável. Depende do tamanho e de outros fatores", salienta.

O coordenador ressalta que o figurinista está sujeito às variações do mercado, já que são poucos os que trabalham com carteira assinada.

"Um mês pode ser de vacas gordas e outro de vacas magras. Nos meses fartos é aconselhável poupar uma parte", aconselha.

"No início é necessário ter boas condições financeiras para poder bancar a carreira. Durante o curso, participamos de montagens, mas na maioria das vezes elas não são remuneradas. É uma ilusão pensar que o artista ganha dinheiro com a profissão. Até que isso aconteça é necessário percorrer um caminho muito longo", constata Miriam, que apesar de gostar da função de figurinista pretende seguir a carreira de cenógrafa. Ela espera atuar na área de indumentária para conseguir um ganho extra.

"A pessoa que tem o dom e o domínio da arte não consegue fazer outra atividade, que não seja a de criação. Quando gostamos do que fazemos sempre damos um jeito de encontrar uma oportunidade", conclui Miriam.


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