Um incêndio no estoque das Lojas Americanas, no Plaza Shopping, no Centro de Niterói, impediu que o principal ponto de comércio da cidade, que conta com 229 lojas, abrisse ontem as portas, a dois dias do Natal. Moradores de um prédio vizinho ao Plaza perceberam a fumaça que vinha do estacionamento do shopping, por volta das 6 horas e acionaram o Corpo de Bombeiros. Ninguém ficou ferido e ainda não se sabe o que provocou o incêndio. A assessoria do shopping não divulgou o prejuízo estimado com o acidente, mas todas as lojas reabrem hoje, das 10 às 18 horas. A C&A chegou a funcionar ontem, por volta das 21 horas, abrindo pela entrada lateral do shopping, bem abaixo de onde houve o incêndio. Mas fechou em seguida.
De acordo com os moradores do número 571, da Rua São Sebastião, a fumaça começou a chegar aos apartamentos por volta das 6 horas. O prédio fica próximo ao estacionamento do Plaza. Orientados pelos bombeiros, rapidamente, os moradores das 105 unidades deixaram o edifício. Com a chegada do Corpo de Bombeiros, o edifício foi isolado por medida de segurança.
Apoio – Até o final da manhã, os bombeiros ainda trabalhavam para tentar controlar as chamas, que ameaçavam os apartamentos do prédio vizinho. De acordo com o comandante do 3º Grupamento de Bombeiros Militares (3º GBM), coronel Alves Souza, o incêndio que atingiu o depósito das Lojas Americanas destruiu todos os produtos, como eletrodomésticos e brinquedos.
Para conter as chamas, 25 bombeiros do quartel de Niterói foram acionados, e a operação contou com ajuda da brigada de incêndio do Plaza. Uma viatura, uma plataforma e material operacional foram enviados pelo Comando Geral dos Bombeiros para dar apoio à ação do grupamento de Niterói.
Ainda de acordo com o comandante, durante o incêndio, uma parte da estrutura metálica do depósito cedeu devido ao calor, por- isso a dificuldade em conter o incêndio.
Dois apartamentos do prédio vizinho, um do 9º andar e outro do 10º, precisaram ser invadidos para que os bombeiros realizassem o resfriamento das paredes próximas ao foco do incêndio e evitar o risco que o fogo se alastrasse.
Moradores de prédio vão para hotel
Moradores do prédio afetado pelo incêndio ficaram na rua à espera de informações e do fim dos trabalhos dos bombeiros. Por volta das 11 horas, os idosos foram encaminhados ao saguão do Niterói Palace Hotel para aguardar a conclusão da operação com mais conforto. Pouco depois, a assessoria do Plaza passou a orientar os demais moradores para irem ao mesmo hotel, onde receberiam refeição. Todos estavam apreensivos com o isolamento do edifício.
O médico Rodrigo Furtado, de 26 anos, contou que os moradores perceberam a fumaça, sem saber a origem do fogo e começaram a deixar o prédio por conta própria. Da rua, eles acionaram os bombeiros.
"Todo mundo desceu correndo pelas escadas. Só depois os elevadores foram desligados", informou.
A professora Kátia Rodrigues Confort, de 39 anos, também moradora do prédio, contou que percebeu o incêndio quando começou a sentir cheiro de queimado no corredor do prédio e ouviu um barulho dos vizinhos.
"Peguei meu filho de 4 anos e desci o mais rápido possível. Quero algum lugar para ficar, já que todos os apartamentos ficaram sem luz", disse Kátia Rodrigues.
A pensionista Suely Salomé Trotta, de 68 anos, moradora do 4º andar, do edifício de 14 andares, localizado ao lado do Plaza Shopping, pegou uma cadeira de plástico, colocou na rua, em frente ao prédio, e colocou o papo em dia com uma vizinha.
"Não aguento ficar em pé. Por isso coloquei uma cadeira para sentar. Aqui está bom para descontrair", disse a pensionista, que recebeu com bom humor a notícia de que seu prédio havia sido interditado.
O Plaza Shopping transferiu os moradores do edifício, que ficou isolado, para o Palace Hotel, na mesma rua. Eles foram acomodados em suítes e receberam almoço. As despesas foram pagas pelo shopping. Duas idosas, que moram no prédio, foram levadas em cadeiras de rodas para o hotel.
Prejuízo ainda será calculado
Entidades como a Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL) e o Sindicato dos Lojistas (Sindilojas) acreditam que o prejuízo seja muito grande e difícil de ser quantificado. As expectativas eram de que esse ano se firmasse como o melhor dos últimos cinco anos para o comércio local. Para os bens de consumo duráveis, como móveis e eletrodomésticos, a tendência de aumento de vendas era de 5%. Dos bens não-duráveis, como artigos de vestuário, a estimativa era de crescimento de até 10% em relação ao mesmo período do ano passado.
Para o presidente da CDL, Fabiano Gonçalves, a população também saiu perdendo com o incêndio, uma vez que o shopping reúne os principais estabelecimentos da cidade. Ele também acredita que quem mais vá sentir a perda sejam os comerciantes que tenham negócios apenas no Plaza. Já para as lojas de rede, as perdas seriam pontuais, pois os consumidores encontram esses estabelecimentos em outros locais.
"Acredito que haja aumento em outros pontos de venda da cidade. Mas, de uma maneira geral, o não-funcionamento do Plaza vai representar uma grande queda nas vendas", acredita.
O presidente do Sindilojas, José Luiz Pascoal, também acredita que ainda seja muito cedo para estimar o prejuízo. Além da perda de estoque, seria necessário calcular a expectativa real de vendas dos estabelecimentos. Esse levantamento precisaria ser mais apurado. Mesmo assim, os associados ao Sindilojas devem se reunir na próxima semana.
"Estamos programando uma reunião entre os associados, para definir que atitude os lojistas podem tomar", afirmou Pascoal.
Lojistas - Entre lojistas e vendedores, a preocupação era grande. De acordo com eles, a expectativa das entidades comerciais de crescimento de vendas de até 10% em relação ao ano passado vinha se confirmando. Para o empresário Bruno Pena, de 32 anos, proprietário de duas lojas de varejo no shopping, a expectativa era grande para ontem.
"Segunda e terça-feira foram dias ótimos de vendas. Mas achei que hoje (ontem) fosse ser o melhor dia do ano", comentou.
Para a gerente de loja Elizabeth Rolim, 37, a expectativa também era grande. Segundo ela, as informações não estavam sendo divulgadas aos funcionários das lojas, o que causava apreensão.
"Trabalhamos o ano inteiro esperando o Natal e hoje (ontem) seria o melhor dia de vendas do ano", afirmou.
Icaraí - Sem o Plaza Shopping como opção para as últimas compras de Natal, muitos consumidores recorreram a outros centros comerciais, como a Rua Coronel Moreira César, em Icaraí, e outras vias de grande concentração de lojas.
A estudante Ana Paula Paiva, de 26 anos, preferiu fazer as compras em Icaraí.
"Até pensei em ir ao Plaza, mas acabei comprando em Icaraí mesmo", contou.
A professora Tereza Teles, de 45, também optou pelas compras em Icaraí. Ela afirmou que preferiu ir mais cedo às compras, pois acreditava que os consumidores do Plaza fossem lotar as demais lojas da cidade.
"Estou garantindo mais cedo, porque acho que Icaraí vai lotar ao longo do dia", declarou.
Pagode em vez de trabalho
Pelo menos 500 vendedores, que esperavam entrar nas lojas às 9h30, foram informados pelos seguranças que o shopping não tinha previsão para abrir as portas. As reações dos lojistas foram diversas, no dia mais disputado de vendas, antes do Natal. Indignados com a notícia de que iram perder as vendas, já que o shopping não abriria as portas, alguns choraram. Mas a maioria não quis saber de lamentar o dia de faturamento perdido e entrou na dança.
Quem passava pela Rua XV de Novembro e não tomou conhecimento do incêndio pode ter imaginado que estava acontecendo uma micareta na cidade. Alguns comerciários aproveitaram uma loja de instrumentos musicais na via e não pensaram duas vezes. Compraram um aparelho de percussão e caíram no samba. Pouco depois, PMs dos 12 ºBPM (Niterói) acabaram com a festa dos vendedores.
Chorando, a vendedora de uma loja de calçados, Tatiana Costa, de 29 anos, disse que deixaria de ganhar cerca de R$ 200 com as comissões e que a loja teria um prejuízo de cerca de R$ 40 mil, no mínimo.
"Esse valor perdido não terá como a gente recuperar. Nem em outras vendas de outros dias", disse.
Assim que o laudo pericial do caso ficar pronto, a 76ªDP (Centro) vai investigar se o incêndio, que tomou conta do estoque das Lojas Americanas, foi criminoso, acidental ou provocado por alguma falha no sistema elétrico do shopping.