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Niterói 433 anos
Publicado em 23/11/2006

Espaços de criação

Júlio Honaiser
 
 Beatriz Cunha
   
O cenário não poderia ser mais deslumbrante: morro, muito verde e praias paradisíacas. O que isso tem a ver com arte? Tudo. Um local tão belo como a Região Oceânica só poderia favorecer a inspiração dos artistas que lá vivem ou trabalham. A região possui cerca de 22 ateliês onde a criação rola solta em técnicas e trabalhos cheios de originalidade e conceito.
 
Prova da pré-disposição da região para o desenvolvimento da criação artística é o Rota das Artes, evento organizado pela Secretaria de Cultura de Niterói, quando os artistas da Região Oceânica abrem as portas de seus ateliês para visitação durante um fim de semana, geralmente no mês de julho. A última edição do "Rotas", por exemplo, contribuiu para o contato do público com 165 artistas locais.
 
Do lixo ao luxo - Do lixo à arte. Partindo dessa premissa, a designer e artista plástica Ana Viola, do Ateliê A e Z – Manufatura de Idéias, é dona de um trabalho que confere novos olhares a materiais supostamente inúteis, como pedaços de madeira, vidros de carro e mármores rachados.
 
"É como se o material encontrado mostrasse, de certa forma, a sua potencialidade artística, o seu valor de arte em potencial", argumenta Ana, que também é autora de trabalho em tela, que tem como chamariz a escolha pela mistura de materiais e o trabalho de sobreposição dos mesmos, sem, entretanto, comprometer a visualidade final da obra.
 
Dividindo o espaço no ateliê, o artista Zeka Viola parte para a exploração das possibilidades artísticas do bambu, em um trabalho que envolve a seleção rigorosa da matéria- prima, com fornecedores específicos, e a transformação do bambu em peças meticulosamente trabalhadas, como, por exemplo, um caleidoscópio. Fora as peças mais artísticas, Zeka é responsável pela criação de objetos como anéis, colares e mandalas.
 
Arte em caderno - Tudo começou como um hobby para a arte finalista e programadora visual Andréia Dias. Bastou um curso de encadernação e restauração de livros com a mestra Maria Goldring para a artista cair de amores por esta técnica, apurada e sofisticada por Andréia, que lhe deu ares de arte.
 
Hoje, ela produz capa e encadernação que são verdadeiras obras de arte. A base de seu trabalho vem do que a natureza tem a oferecer.
 
"Quando me mudei para Piratininga, onde tenho meu ateliê, entrei em contato com a rica vegetação. Foi quando percebi que poderia utilizá-la em minhas capas de caderno", conta Andréia, que utiliza sementes, galhos secos, folhas, fibras, palha de coco e palha da costa como elementos decoradores. O resultado é um trabalho orgânico e cheio de sensibilidade, vendido, todo domingo, na feirinha de Ipanema, na Praça General Osório.
 
"As peças são únicas. Cada caderno é singular e exige pesquisa de material e elaboração de uma estética própria", explica.
 
Transformando o vidro - Mais de cem fôrmas de cerâmica, um fogão que chega a 790 °C, tintas de todos os tons e muitas placas de vidro. Com este material, a artista Chris Seabra transforma pedaços de vidro sem atrativo visual em belas peças de decoração, cheias de formas, cores e texturas.
 
"O tempo foi crucial para o amadurecimento da minha arte. Hoje, trabalho com tinta pulverizada, tinta líquida especial para vidro e outros matérias mais sofisticados. No momento, estou usando estruturas de cobre revestidos com vidro fundido e pigmentos.
 
Além disso, gosto de fundir vidro e cerâmica na hora de criar uma peça", explica Chris, que trabalha a pedido de arquitetos e decoradores. "Eles pedem o tom e o formato. Dentro dessas exigências eu crio minhas peças", conta.
 
O grande barato do trabalho de fusão do vidro, segundo a artista, está no fato de que você nunca sabe exatamente qual será o resultado final quando a peça for retirada do forno.
 
"O artista dá as diretrizes de cores e formato, mas não sabe como será o produto final com exatidão. Esse é o barato. O elemento surpresa é uma constante no trabalho", argumenta.
 
Mestra da cerâmica - Com mais de 20 anos dedicados à arte da cerâmica, Keiko Mayama é uma referência na arte da cidade. Formada em cursos especializados na Inglaterra, a japonesa de berço e niteroiense de coração aposta na diversidade de sua obra, que transmite para alunos em aulas em seu ateliê, em Itaipu, palestras e oficinas no Sesc, em Icaraí.
 
"Faço tudo de acordo com o desejo do aluno. Nas minhas aulas e oficinas, por exemplo, dou total liberdade de criação. Eles aprendem a fazer a arte em cerâmica mais utilitária, como vasos e utensílios, mas também, podem partir para o lado mais conceitual, que eu adoro", explica a artista, que trabalha basicamente com materiais como cerâmica e barro, cozidos ou não.
 
Para Keiko, a cerâmica é uma arte que propicia a liberdade de criação. A artista é conhecida pelas instalações que interferem diretamente no espaço. De seu ateliê tem saído muita gente de expressão como Liriane Porto, Silvia Branco, Wilson da Costa, Vera Gomes, entre outros.
 
"Gosto da arte expansiva, que dialoga com o local onde está inserida", argumenta ela, que fará uma exposição de cerâmica, reunindo outros artistas da cidade, até o fim do mês de novembro, na sobreloja do Shopping Icaraí.
 
Uma mistura de estilos - Inaugurado em julho do ano passado, o Ateliê do Poeta tornou-se, em pouco tempo, um espaço para o encontro das artes. Na casa em Itaipu, arte fotográfica, música e poesia se misturam nos projetos Um Brinde à Poesia e Luzes do Som. O primeiro projeto tem como objetivo reunir poetas e aspirantes à poesia.
 
Mensalmente, cerca de 80 pessoas freqüentam o Ateliê do Poeta para declamarem seus poemas. A própria dona do estabelecimento, a poeta, jornalista, atriz e fotógrafa Lucíllia Dowslley se auto-intitula uma viciada em escrever e declamar poesia.
 
"Um Brinde à Poesia é a confirmação de que há público em Niterói e de que existe dentro de cada pessoa que vem pra cá um poeta escondido, que só precisa de espaço e estímulo para criar coragem, tirar uma folha do bolso e apresentar suas idéias", explica Lucíllia.
 
Já no projeto  Luzes do Som, a proposta é outra: uma exposição fotográfica de shows registrados pela fotógrafa geraram o material para a montagem do ambiente. Além disso, o espaço recebe a visita de um cantor ou músico a cada edição.
 
"Fazemos uma mistura de música e fotografia, som e imagem, que conquista os visitantes", resume.
 
Espaço para o inusitado - Entrar em contato direto com as técnicas, materiais e produções artísticas contemporâneas, incorporando-as e consumindo-as. Esta é a proposta do Ateliê Degustarte, da artista plástica Clayse Cunha. Localizado no bucólico bairro de Jurujuba, o agradável espaço é o refúgio que a artista escolheu para por a mão na massa. Ou melhor, na argila.
 
Seu trabalho tem como base a mistura deste material com saco de cimento reciclado. O resultado é uma arte contemporânea, não figurativa, que brinca com as texturas e formas inusitadas desta combinação.
 
Além disso, Clayse desenvolve um trabalho baseado nos princípios da Física Quântica. A "Quanta", nome dado por causa desta inspiração, reúne peças feitas de arame, saco de cimento e resina, que inovam na estrutura e no conceito.
 
"Minha arte pode estar voltada tanto para o trabalho utilitário, que acabo vendendo para compradores, como também para a elaboração de uma linguagem própria, no sentido de uma arte mais conceitual, menos comercial. Quero educar o olhar dos indivíduos, questionar o conceito de real", avalia Clayse, que ministra também grupos de estudos com professores de arte e alunos, nos quais a noção de arte contemporânea é debatida com textos e filmes.
 
"Quero fazer deste espaço um foco de produção e pensamento da arte. No futuro, a intenção é reunir um grupo aqui dentro para passar uma tarde, com arte e comidas feitas por mim", adianta a artista, que anuncia, para o dia 29 de novembro uma exposição da aluna Marly Valadares, que reunirá, no Ateliê Degustarte, seis telas e uma instalação, num trabalho que envolve o uso de resina, catalisador, peças desmontadas de navio, fibra de vidro desfiada e pigmentos de navios e barcos.

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