A região que promete se desenvolver nos próximos anos com a chegada do Complexo Petroquímico do estado do Rio de Janeiro (Comperj) já sofre com o problema que mais assusta as grandes cidades: a violência. Nos últimos meses, casos chocantes deixaram preocupados moradores de Itaboraí e cidades vizinhas e, segundo as polícias Civil e Militar, a tendência é que os índices de criminalidade aumentem cada vez mais.
Só na semana passada, dois crimes bárbaros foram registrados na região: em Itaboraí, o menino D., de nove anos, foi torturado e estrangulado e, em Rio Bonito, o milionário Rennê Senna, oriundo de Tanguá, foi morto com três tiros no rosto na porta de um bar. Em agosto do ano passado, o prefeito de Rio Bonito, José Luiz Alves Antunes, o "Mandiocão", sofreu um atentado e foi baleado no ombro e na barriga.
Com aproximadamente 210 mil habitantes e um território de 429,32 quilômetros quadrados – área maior do que a de Niterói e São Gonçalo juntas –, Itaboraí conta apenas com uma delegacia, cujo efetivo é de 42 pessoas e um batalhão, com 333 policiais militares, que cobre, ainda, Tanguá, Rio Bonito e Silva Jardim – totalizando cerca de 379 mil habitantes. Do total de PMs, apenas 250 atuam nas ruas.
"A partir deste ano, com o início da instalação do Comperj, é provável que cresça o número de criminosos. Atrás dos trabalhadores sempre seguem os bandidos que vêem na riqueza e no desenvolvimento a galinha dos ovos de ouro", analisa o delegado da 71ª DP (Itaboraí), Oscar Alves, que classifica o tráfico de drogas como o crime de maior incidência na região.
O comandante do 35º BPM (Itaboraí), tenente-coronel Júlio César Ramos, reforça a informação, confirmando o crescimento das estatísticas.
"Alguns bandidos já estão vindo para cá se estabelecer porque sabem que a localidade vai se expandir", observa o oficial da PM.
Segundo o comandante, a proximidade com o Rio de Janeiro (que fica a 45 quilômetros de distância) e com a BR-101, onde acontecem constantes "arrastões", facilita a ação dos bandidos, que usam a estrada como rota de fuga. Há 18 anos na 71ª DP, um inspetor, de 40 anos, conta que a vida em Itaboraí era bem mais tranqüila.
"Quando comecei a trabalhar, não era registrado nenhum crime grave. As ocorrências mais sérias eram desentendimentos entre moradores, muitas vezes por causa de bebida. Naquela época, a delegacia fechava às 22 horas. Hoje, Itaboraí tem problemas de cidade grande", lamenta.
O aumento da violência também é sentido pela população. Morador da cidade há 50 anos, o aposentado Rodolpho Pereira dos Santos, de 68 anos, diz que, quando chegou à região, não se ouvia falar em criminalidade.
"Aqui era uma espécie de paraíso. Todos se conheciam. Atualmente está horrível. Nos últimos quatro meses, fui furtado três vezes em ônibus. Isso não acontecia antigamente. Hoje acontece de tudo. É assalto, bomba... O terrorismo está se aproximando", frisou ele, referindo-se aos atentados ocorridos em dezembro, contra uma grande loja, um restaurante popular e uma agência bancária, na cidade que sediará o Comperj.
Já o aposentado Edalmir de Souza, de 69, concorda com o aumento nos índices, mas acredita que a região ainda é tranqüila para se viver. Para tentar conter a onda de crimes, representantes da Secretaria Estadual de Segurança Pública, do batalhão e da delegacia têm se reunido para traçar medidas preventivas. Um dos pontos mais discutidos é o aumento dos efetivos.
"Como não temos gente suficiente, deslocamos os policiais de acordo com a mancha criminal", explica Ramos.
Roubos de automóveis
Três quadrilhas especializadas em roubo de automóveis foram detectadas e estão sendo investigadas. Uma delas, que atuaria no Centro de Itaboraí, foi parcialmente desarticulada. Dos seis supostos ladrões, cinco foram presos – entre eles dois menores – e um está com mandado de prisão expedido pela Justiça: Herivelton de Carvalho Brito. Do outro grupo, que praticaria assaltos na área de Murundu, dois foram detidos e três estão sendo procurados. Uma terceira quadrilha, segundo o delegado da 71ª DP (Itaboraí), além de roubar veículos em pontos diferentes, também assalta residências.
"Os criminosos atacam, principalmente, quando as pessoas chegam em casa ou estacionam", destaca Alves.
Segundo o delegado, a Polícia não tem informações de que existam locais de desmanches de carro na cidade. De acordo com o comandante do 35º BPM, em novembro foram registrados 29 casos de roubos de automóveis, enquanto em dezembro foram 17.
Motoristas de lotada são vítimas de extorsões
Quem passa pelas ruas da comunidade da Reta Velha não tem dificuldade para perceber a escassez de ônibus e vans. Enquanto grande parte das lotadas se concentra na parte de fora da comunidade, poucos topiqueiros se arriscam nas vias do bairro. Uma das explicações para a falta de transporte é dada pela PM. De acordo com informações do Serviço reservado (P-2) do 35º BPM, os bandidos praticariam extorsões contra os donos de lotadas. Os traficantes da região, segundo a polícia, só autorizariam a circulação dos veículos mediante pagamentos de propinas.
"Recebemos muitas denúncias de crimes como esse. Os bandidos sempre extorquem dinheiro de comerciantes e de donos de vans. No entanto, os moradores têm muito medo. Quando vamos checar uma informação desse tipo, a população não ajuda por temer represálias", contou o policial militar.
Pedestres e residências
Assaltos a pedestres, principalmente na Rua 22 de Maio e adjacências, no Centro, e roubos a residências, geralmente em áreas afastadas como os bairros Gabriela I e II e Sambaetiba, também estão na lista dos crimes que mais atormentam a população de Itaboraí. Levantamento do 35º BPM mostra que em novembro e dezembro de 2006 foram registrados 69 casos de assaltos a pedestres nas vias públicas de Itaboraí, Tanguá, Rio Bonito e Silva Jardim. De acordo com o comandante do batalhão de Itaboraí, os ladrões atacam à mão armada.
"Não chega a ter violência física, mas o porte de arma já é uma agressão. Eles atuam, principalmente, nos dez primeiros dias do mês, quando as pessoas sacam os salários", revela.
Os índices da PM indicam, ainda, que foram contabilizados, em dezembro do ano passado, quatro assaltos a residências na região, o que significa uma ocorrência por semana. Em novembro não houve registro desse crime.
Os supostos traficantes
O tráfico de drogas em Itaboraí, segundo a polícia, teria como pontos principais de venda as comunidades da Reta Velha e Rua Cem. Na primeira localidade, o suposto chefão seria Wellington Machado, o "Átila". O braço direito dele seria Moacir da Silva, o "Cyclone". Já na região chamada de Rua Cem, Renato Gonçalves, o "Renatinho" ou "Enock" e Ricardo Couto, o "Ricardo Paiol", disputariam o controle das bocas-de-fumo, que, além de maconha e cocaína, já estariam vendendo haxixe e crack.