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Por outro lado

Ozéas Lopes Filho é doutor em Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF)

É a minha opinião

Tenho mantido maior reserva sobre o que penso e escrevo ao público, diante do surto fundamentalista que assola o país e já há algum tempo se espalha mundo afora, venho preferindo observar mais e falar menos, em autocensura, optando por não dialogar com pessoas que somente por terem voz, crenças e conexões na internet se acham detentoras de conhecimentos universais, muitos dos quais exigem décadas de dedicação para que alguém se atreva a enfrentar, porém, em tempos de redes sociais parece que tudo no final é traduzido num direito e afirmação: “é a minha opinião”, que a mim me parece, em vigoroso pleonasmo, mais próximo do que Umberto Eco um ano antes de sua morte testificou: "Normalmente, eles [os imbecis] eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel".

Longe de uma honraria da Academia Sueca, todavia, valorando minha condição acadêmica – se assim não fizermos, poucos farão –, venho me restringindo ao básico, a cordialidade social e mantendo reservas no trato público, evitando enfrentamentos embora necessários, no entanto, inoportunos para ocasião, escrevendo pouco para o público em rede e deixando o tempo que sobra em traçar linhas menos comuns, porém, defensivamente corretas às condições atuais do país, inclusive aqui na coluna.

Diante de tantas “convicções”, forjadas em “experiências de vida” e abrigadas sob o manto da “liberdade de expressão”, valor democrático supremo diminuído no seu uso, não há como enfrentar as diversas confusões conceituais e teóricas, que no final das contas transforma tudo numa massa cinzenta, que se amolda conforme a ocasião e o propósito de quem queira usá-la; dito de outra maneira, encontramos pelas redes sociais alguns portadores da verdade revelada, que desprezam anos e anos de estudos e construções com um lacônico “é a minha opinião”, sendo  desse ponto em diante impossível se argumentar racionalmente.

Exemplificando, no campo do Direito são interpretes que desprezam as leis, os sistemas jurídicos e a história das civilizações; estudantes obtusos que fundam razões conforme fragmentos de sentenças publicadas em jornais que se apertam com as ofertas de supermercados; e, para quem acha que são práticas de um rotulado segundo andar, tecnicamente despreparado, dias desses li na imprensa sobre um magistrado que exibe a Bíblia como principal livro de sua Vara, inclusive, seus versos servem de fundamentação às suas sentenças, naquele momento pensei em silêncio: quantas igrejas e templos iniciam seus ofícios com a leitura da Constituição e nela firmam os discursos de seus preletores?

Em todos os campos do saber os opinadores e fundamentalistas têm a certeza do que dizem e muitas vezes agem com truculência para impor suas afirmações, por exemplo, discutem gênero sem o menor rigor; falam de assassinatos como opção de segurança pública; descredenciam e desacatam seus opositores sem apontar onde possa estar o erro dos argumentos, para eles seus adversos são “bichas” ou “comunistas”, ou seja, tudo não vai além da burra “opinião”; da mesma forma, quando o tema é economia, “claro que é importante privatizar”, assim como “as contribuições devem aumentar” e “o mercado é quem deve regular”, afinal, “é a minha opinião”.

A lista de “achismos” é quase infinita, educação, saúde, polícia, cinema, transportes, perícia técnica, política, arte..., não há tema protegido da liberdade de opinião, seja ela abalizada por certa racionalidade ou por mero querer emocional, opina-se levianamente sobre tudo, ao mesmo tempo que ninguém é responsável pelos resultados de suas crenças. 

Destarte é tempo de observar onde tudo isso vai dar, por enquanto é momento de se cuidar, tomar folego, resistir, sobreviver a ignorância, a inquisição e insistir para tudo isso passar, guardando energias e se preparando para reconstruir o que agora se destrói.  

Sobre Umberto Eco e suas considerações Sakamoto já escreveu em seu Blog, parágrafo que agora compartilho em considerações finais: “Creio que Umberto Eco não morreu. Ele simplesmente se cansou e se foi. Este mundo de possibilidades infinitas que vão se desdobrando à nossa frente também guarda uma série de desgostos para alguém que confiava no papel central do conhecimento, e não da opinião sem fundamento, no desenvolvimento da humanidade”.

Afinal, essa também é a minha opinião.

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