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Por outro lado

Ozéas Lopes Filho é doutor em Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF)

Devemos reagir



No último sábado, 12 de agosto, o mundo pode acompanhar as imagens da marcha pela supremacia branca na cidade de Charlottesville, Virgínia, Estados Unidos da América. Usurpando princípios democráticos, em especial o da liberdade de expressão, o grupo “União da Direita”, entidade formada por ultranacionalistas e neonazistas estadunidenses, foi às ruas demonstrar seus ódios e fanatismos, contra negros, imigrantes latinos, mulçumanos, gays, judeus e todos que de alguma maneira não se amoldam aos ideais de um Estado branco e com nítidas separações étnicas e sexuais.

Apesar das duas eleições de Barack Obama e da candidatura feminina de Hillary Clinton, a manifestação mais uma vez expôs as fendas profundas que dividem aquela sociedade, persistentes desde o término da guerra civil em 1865, especialmente, quando o tema está relacionado ao preconceito de cor, direitos civis e igualdades entre as pessoas.

Não de todo surpreendente, a marcha em certo ponto cobrava do atual presidente, algumas de suas promessas de campanha, ainda que num primeiro momento Donald Trump tenha desaprovado a violência, em seguida passou a atribuir responsabilidades à radicais de esquerda, em explícita defesa aos extremista de direita. A passeata teve como trágico balanço três mortos e trinta feridos num atropelamento, causado por um ativista branco.

A propósito, o xenofobismo, o sexismo, a intolerância religiosa, a discriminação de cor, identidade de gênero, ideológica e tantas outras formas de intransigências, não são exclusividades dos norte-americanos, já há bom tempo se observa essa guinada antidemocrática e conservadora, que assolou o planeta e vem se espalhando ao longo da última década.

Não fora do contexto, o Brasil também padece de todo esse sectarismo, ao ponto de comprometer com certa irreversibilidade alguns ideais democráticos que se achavam em construção a partir do pacto constitucional de 1988, veja-se, como ponta do iceberg, o ataque ao refugiado sírio, Mohamed Ali, em Copacabana, no Rio de Janeiro, também na semana passada, fato amplamente divulgado pela imprensa, que para alento comum gerou um desagravo humanitário nesse último final de semana na forma de um “esfirraço”.

Sobre a importância de reagir ao avanço dessas exteriorizações neofascistas, avessas a liberdade, não fossem por outras consequências de sua ausência, seria indispensável ao menos como condição da própria identidade do que somos ou imaginamos ser, dito de outra maneira, não tendo o ser humano nenhum desígnio, sina ou destino previamente traçado, sua substância e fortuna se molda conforme as escolhas que faz, destarte, é ele que desenha seu futuro através do pleno exercício de sua liberdade.

Contribuindo com a tese, Anthony Giddens, em compasso discursivo, dissertou sobre a autonomia e as liberdades que devem existir à construção dessa mesma identidade, ou como se referiu, na esteira de David Held, sobre as aspirações individuais e construção de identidades, indicando que: “autonomia significa a capacidade de autorreflexão e autodeterminação dos indivíduos: ‘deliberar, julgar, escolher e agir diante de diferentes cursos de ação possível’”.

Desta forma, se por um lado construir uma identidade demanda oportunidades de escolhas, sem as quais o que resta são vontades que se impõem ao indivíduo, por outro lado, há de haver condições objetivas para que essas escolhas possam ser exercidas, ou seja, a plena liberdade ganha status de condição de possibilidade para que o ser humano possa se fazer, escolhendo seus caminhos e sortes, portanto, o modelo democrático é a plataforma política que mais atende a essa expectativa, de maneira que as escolhas possam ser exercidas.

No entanto, vingando os ideais autoritários que vêm sendo disseminados mundo afora, em preocupante espiral de opressão, além da humanidade retroceder a um passado muito próximo, revivendo tempo julgado derrotado, assim como a guerra que o identifica e atemoriza por lembranças de suas atrocidades, de outra parte, também afasta dos indivíduos suas condições de esclarecimento e determinação do porvir, mantendo-os aprisionados num tempo de intermináveis repetições. 

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