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Manual para esconder abusos sexuais



Padres seguiam esquema para abafar os casos, afirma Justiça nos EUA, revelando que mais de mil pessoas foram vítimas

A Justiça nos Estados Unidos informou nesta quarta-feira (15), que padres teriam se utilizado de uma espécie de manual para esconder os casos de abusos sexuais nas igrejas. “Evite o escândalo. Use eufemismos. Faça perguntas inadequadas. Tranque as denúncias em um arquivo secreto. E, acima de tudo, não conte à polícia”, teriam sido algumas das orientações seguidas por líderes da Igreja Católica na Pensilvânia para que os casos de abuso sexual contra crianças não viessem à tona. 

Ao longo de 70 anos, mais de mil pessoas teriam sido vítimas dos sacerdotes, aponta o relatório do Grande do Júri, que fez com que fossem transformadas em processos judiciais as acusações formais contra vários acusados em seis dioceses católicas.

Apesar de cada distrito ter sua característica, o padrão para esconder os crimes era praticamente o mesmo, aponta o relatório, ressaltando que o principal objetivo dos religiosos teria sido evitar o escândalo, ao invés de amparar as vítimas.  

Nos documentos das dioceses, eufemismos teriam sido usados para se referir aos casos. A palavra estupro, por exemplo, poderia ser substituída por “contato inadequado” ou “problemas de limite”. Além disso, ainda segundo o relatório, as investigações não eram conduzidas por pessoas devidamente qualificadas, mas por outros membros do clero que eram facilmente desacreditados. 

Além disso, para dar uma aparência de integridade, padres eram enviados para avaliação nos centros de tratamento psiquiátrico administrados pela Igreja. Em casos em que o padre precisava ser afastado, o motivo real não era revelado aos fiéis. Aos paroquianos era informado que ele estava de licença médica ou que estava sofrendo de esgotamento nervoso. Muitas vezes, nenhuma explicação era dada.

Os padres, mesmo que estivessem estuprando crianças, continuavam recebendo moradia e tendo suas despesas pagas pela Igreja, mesmo que os recursos pudessem ser usados para atrair novas vítimas, revela o documento.

Além disso, quando a atitude do padre se tornava conhecida da comunidade, ele não era removido do sacerdócio para garantir que não houvesse mais crianças vitimadas. Acabava apenas sendo transferido para um novo local, onde ninguém o identificasse como abusador de criancinhas, denuncia o relatório.

Mas o mais importante era mesmo abafar os casos, deixando de informá-los à polícia, ressalta o documento. Embora o abuso sexual de crianças seja considerado um crime, não estaria sendo tratado desta forma dentro das igrejas, que optavam por resolver as questões como se fossem casos pessoais.

Relatório – O documento de 1,4 mil páginas sobre o abuso sexual de menores em todas as dioceses do estado de Pensilvânia, exceto duas, revela que a maioria das vítimas teria sido de meninos, mas havia meninas. Muitos estavam na pré-puberdade. Muitas vítimas teriam sido aliciadas com uso de álcool e pornografia. Algumas teriam sido tocadas e até violentadas. O relatório, resultado de um trabalho exaustivo, revela nomes e detalhes dos abusos.

Algumas vítimas teriam sido forçadas a masturbar os padres ou a se deixarem tocar por eles. Outras teriam sido violentadas. Em um dos casos, um sacerdote é acusado de estuprar uma menina de sete anos em um hospital após a criança ser submetida a uma cirurgia para a retirada das amígdalas. Em outro, o padre teria colocado uma substância no suco e oferecido a um menino para dopá-lo. O garoto teria acordado no dia seguinte com o ânus sangrando, sem lembrar do que havia acontecido.

A investigação, que durou 18 meses, revelou, segundo o relatório, um corporativismo extremo com objetivo de abafar os casos, por parte de funcionários eclesiásticos na Pensilvânia e até no Vaticano. O relatório destaca ainda que as denúncias não param por aí e que poderão ocorrer outras no futuro. Para o Grande Júri, apenas a ponta do iceberg foi revelada com a apresentação do documento.

Diante da situação, o Grande Júri informou que vai propor várias medidas, como a alteração da lei para estender o prazo de prescrição dos crimes sexuais contra menores, dando mais tempo às vítimas para apresentar processos civis. Também vai pedir o endurecimento da legislação contra quem for pego tentando encobrir algum caso de abuso. 

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