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Por outro lado

Ozéas Lopes Filho é doutor em Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF)

Maracanaço



Em 1950, pela primeira vez o Brasil sediou os jogos da Copa do Mundo de Futebol, oportunidade, que ao contrário de sua última participação em 2014, a seleção nacional chegou a final contra o Uruguai. Tida como favorita a erguer a Taça Jules Rimet, fosse pelo escrete que ostentava estrelas como Barboza, Zizinho, Ademir “Queixada”, Jair da Rosa Pinto, ou pelo fato de “jogar em casa”, no maior estádio do mundo, o Maracanã, construído como palco para vitória tão esperada, o fato é que o primeiro título mundial era tido como certo no país.

Assim, no dia 16 de julho, o Maracanã recebeu estimados 200.000 torcedores, 10% da população do Rio de Janeiro na época, prontos a vibrar com o time comandado por Flávio Costa. Em tempos mais românticos do futebol, quando a pátria calçava chuteiras e acompanhava seus jogadores em profundo ato de admiração e devoção, não havia quem admitisse desfecho daquela partida, senão o Brasil campeão.

Com o fim da peleja nasceu uma rivalidade particular com nossos vizinhos uruguaios, misto de mágoa, frustração e inveja, alimentada por décadas pela imprensa futebolista, que ainda não permite o esquecimento da humilhação passada em casa, o resultado foi um verdadeiro 7 x 1 na ocasião.

A propósito dessa disputa, conforme lei aprovada no governo do ex-presidente José Mujica, em 2013, e regulamentado pelo do Instituto de Regulação e Controle da Canabis – IRCCA, o Uruguai autoriza a partir desta quarta-feira, 19 de julho, a venda de maconha recreativa. Através de várias farmácias credenciadas no país, compradores uruguaios – até agora foram cadastrados aproximados 5.000 usuários –, poderão optar em adquirir o produto legalmente, sem receitas ou embaraços, no volume mensal de até 40 gramas, pelo preço unitário de US$ 1,30, podendo ainda o cidadão optar pelo cultivo doméstico ou cooperado para uso de seus membros.

Não é a primeira vez que o Uruguai abre o placar legislativo quando o assunto são direitos civis. Tendo aprovado o divórcio no ano de 1907, largou na frente do Brasil, que só autorizou sua prática a partir de 1977; em 2007 foi o primeiro Estado latino-americano a conceder união civil entre pessoas do mesmo sexo, direito reconhecido pelos tribunais brasileiros somente a partir de 2011; da mesma maneira, em 2012, descriminalizou o aborto, marcando outro tento no placar de proteção as mulheres, posto que a partir de então, o país não registra mortes por esta causa, além ter aumentado significativamente, equivalendo a 30% entre os anos de 2013/14, o percentual daquelas que resolveram levar adiante a gravidez, demonstrando que não é a lei que incentiva determinada prática, enquanto por aqui, ou se paga por uma clandestinidade segura, ou se assume os riscos que a criminalização da pobreza produz. 

Na mesma esteira, pondo fim a sua guerra local, desde a legalização da maconha, a República Oriental do Uruguai, não registra mortes ligadas ao tráfico dessa droga, enquanto em “terra brasilis”, campeia a violência e vidas são ceifadas por uma política que mata inocentes e enriquece culpados. 

Como ilustração de nosso drama, no ano de 2015, o Brasil registrou mais de 59.000 mortes violentas, sendo desse total 54,1% de jovens entre 15 e 20 anos; tudo se agrava quando em insistência de equívocos nada fazemos para a diminuição desses números, é nosso “maracanaço” do século XXI, que derrota a nação mais que o gol do ponta-direita uruguaio Ghiggia, que silenciou todo um estádio ao fechar o placar da partida em 2 a 1 para a Celeste, em 1950. 

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