Assine o fluminense
Seus Direitos na Justiça

Guaraci Campos Vianna e Alcides da Fonseca Neto aprofundam o conhecimento sobre o Poder Judiciário

O Direito de ‘Ter’ e a Felicidade de ‘Ser’



 

 

Em uma das nossas conversas tivemos a oportunidade de comentar que a prevalência dos valores de se ter alguma coisa sobre o ser correto, honesto, e conformado com as suas possibilidades, com os seus valores, têm causado distúrbios pessoais, familiares e sociais, pela exclusão social dos que não têm em detrimento dos que são apaziguados pela sorte econômica financeira.

Diante da enorme repercussão que o tema trouxe, é preciso esclarecer melhor nossa posição. Não tem nada de errado em se ter bens e dinheiro, como não tem nada errado em não ter. O que se questiona é o preconceito que se exacerba no seio social com aquele que não tem. É preciso que se volte os olhos primeiro pelo que a pessoa é, seus valores, suas qualidades e até mesmo seus defeitos e principalmente que quem tenha melhores condições econômicas e financeiras, não trate aquele que não tem com desdém ou preconceito. Vamos ter um conceito e não um “pré-conceito”.

Não tem nada demais na busca de ter. Adam Smith, pai da economia moderna, um dos mais influentes teóricos do liberalismo econômico, afirma que a ganância é algo bom, e que alguém ao ficar mais rico beneficia a todos. É a conjugação egoísmo com o altruísmo.

O professor Yuval Noal Harari, da Universidade Hebraica de Jerusalém, doutor em História pela Universidade de Oxford, em seu best-seller “Sapiens: Uma breve história da humanidade” afirma que Smith negou a contradição entre a riqueza e a moralidade e escancarou os portões do céu para os ricos. Para o eminente professor britânico, entretanto ... “as pessoas ficam ricas não saqueando os vizinhos e sim aumentando o tamanho do bolo...”. Com outras palavras é preciso buscar a riqueza sem perder o norte dos bons valores. Para você ter é preciso também ser. Surgiu assim uma nova ética no “ter” ligada ao leal e ao justo, que não pode ser obtido suprimindo direitos, especulando, cometendo ilícitos, etc., sob pena de levar à catástrofe.

A humanidade já viveu eras cuja frugalidade era sua “palavra de ordem”, como nos lembra a ética austera dos puritanos e dos espartanos e, de certa forma, a de grande parte dos povos ocidentais (chineses sobretudo) da atualidade.

Hoje, bem ao contrário. O consumo elevado é visto como algo positivo. As pessoas são levadas a se matarem pouco a pouco pelo consumo exagerado. Compramos uma série de produtos de que não precisamos realmente, e só compramos ... “para não ficar de fora” ... em uma orgia de consumo desenfreada.

 E a felicidade? Pode-se discuti-la sob um ponto de vista material: a saúde e a riqueza serviriam de parâmetro para medir a felicidade humana. As pessoas mais ricas são mais saudáveis e devem ser mais felizes. Sob outro aspecto, que é o preferido pelos filósofos, religiosos, fatores sociais, éticos e espirituais tem tanta influência sobre a nossa felicidade quanto as condições materiais.

Mas há uma terceira via, uma outra vertente, defendida por biólogos, que é levar em consideração o mundo mental e emocional, que é governado por mecanismos bioquímicos definidos por milhões de anos de evolução.

Destarte, não são fatores externos, como salário, relações sociais “status”, ou direitos políticos que trazem a felicidade. Ao contrário, partindo de um mínimo de condições de sobrevivência, nosso bem-estar subjetivo é determinado por sinapses e substâncias bioquímicas, como serotonina, dopamina e oxitocina. As pessoas ficam felizes pelas sensações agradáveis no seu corpo.

Daniel Kahneman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia, coloca uma visão que sintetiza todas as outras. Para ele há um componente ético e cognitivo na felicidade, consistindo em enxergar a própria vida em sua totalidade como algo significativo e valioso. É dar sentido à vida.

Dessa forma, é preciso agir com consciência. Ter e ser não são antagônicos. Mas não tem propósito o endividamento elevado, Serasa, SPC, dívidas homéricas, para apenas dar vazão a um impulso, ou apenas para ser aceito no meio social, ou num grupo qualquer. Isso é auto opressão.

O caminho para a felicidade é conhecer a verdade sobre você mesmo. Entender quem ou o que você é realmente e acabar com a busca incessante por determinadas sensações que só aprisiona ao sofrimento.

O assunto está longe de esgotar o debate, mas o Direito e a Justiça não podem ignorar esse tema, até mesmo para rever os contratos que ocasionam o endividamento fútil diferentemente da aquisição necessária e indispensável.

O direito de ter todos têm, alguns alcançam, outros ainda buscam, mas ser feliz é possível independente disso.

Por Guaraci de Campos Vianna

 
Faça seu login ou cadastre-se para enviar seus comentários

Comentários

Scroll To Top