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Por outro lado

Ozéas Lopes Filho é doutor em Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF)

Fake news



Logo que a internet ganhou popularidade, quando se tornou acessível a boa parte da população do planeta, deixando de ser uma ferramenta exclusiva dos meios militares, acadêmicos e empresariais, ainda falávamos em estar ou não conectados, tempos nos quais o usuário “entrava” e “saia” do universo virtual, portanto, sua permanência era efêmera e descontínua, atendendo a momentos e necessidades específicas durante seus dias.

A partir do desenvolvimento de tecnologias diferenciadas, que possibilitaram acessos a rede por sinais de rádio, tipo Wi-Fi, seja a partir de seus telefones ou mesmo utilizando roteadores domésticos, não há mais que falarmos em estarmos ou não conectados.

Portanto, hoje vivemos permanentemente online, fazendo cada vez mais real a imagem sugerida por McLuhan, quando indicou “que as novas tecnologias eletrônicas tendem a reduzir todo o planeta à mesma situação de uma ‘Aldeia Global’, onde todos estariam, de certa forma, interligados.”

Poderosa ferramenta de nosso tempo, a internet já conta com mais de 4 bilhões de pessoas, representando mais de 50% da população mundial, que de alguma forma trocam as mais diversas espécies de informações, número que não para de crescer.

Pois bem, como de regra nada possui uma natureza eminentemente boa ou má,
cabendo ao ser humano a destinação de suas funções, veja-se por exemplo os casos da dinamite ou da energia nuclear, ambas com múltiplas utilidades, sejam progressista ou destrutivas, assim também ocorre com a internet e as redes de relacionamento que brotaram a partir de sua tecnologia de troca de arquivos.

Nas redes sociais somos vistos, expostos e “dissecados” em praça pública, admirados, julgados e conforme o “veredito”, “curtidos” ou “banidos” dos grupos de relacionamento, enfim, depois da internet e sua popularização, o conceito de intimidade ganhou contornos flexíveis, além do modo de inteiração com o “outro” ter se tornado mais exigente às novidades, assuntos interessantes ou mesmo inéditos.

Nesse desejo de reconhecimento, muitos consideram importante alimentar as redes com mais e mais informações na busca de popularidade ou mesmo para atender a obscuros propósitos pessoais, destarte, não raras vezes, nessa busca tem se optado por dar maior valor a quantidade de notícias que a qualidade e veracidade das mesmas.

Identificando essa ânsia participativa de muitos, grupos e pessoas, pelos mais variados motivos, seja de ordem ideológica, política ou mesmo para mera satisfação pessoal, tentam disseminar informações falsas no intuito de se aproveitar dessa forma viral de profusão informativa, assim, produzem ou transmitem conteúdo sem mínimas razões de verdade num único intuito, ter suas margens de popularidade aumentadas para atender seus interesses privados.

A notícia falsa ou Fake News, como é comumente chamada, são informações disfarçadas em linguagem pseudo-especialista, sem mínimas apurações de autenticidade, comprovação científica, jornalística ou de qualquer outra espécie, que atingem e afetam pessoas, empresas, instituições e até países, todos vítimas de mentiras e preconceitos por parte de quem propaga a inverdade.

A propósito, no final do mês passado, o próprio Facebook desencadeou uma operação a partir de informações verificadas pela empresa, removendo 196 páginas e 87 perfis brasileiros de sua rede de relacionamento, sob a alegação de serem propagadores de notícias falsa, a maioria de eminente conteúdo político.

Na forma legal, o Fake News é uma prática criminosa, seja ela eleitoral ou tipificada como crime contra a honra – calúnia, difamação e injúria –, caso disponha conteúdo contra alguém, quando lhe imputa falso crime ou atenta contra sua reputação (dignidade objetiva), ou atributos pessoais (dignidade subjetiva).

De toda sorte, a propalação de notícias embusteiras em nada contribui ao esclarecimento das pessoas, pelo contrário, impede que se consiga romper barreiras de ignorâncias, além de manter aprisionados os indivíduos nos preconceitos, nas intolerâncias e nos ódios, forjados pela mentira que alguns oportunistas pretendem fazer de verdade na escalada de suas ambições.

Assim, não seja um reprodutor de inverdades. Ao ler uma matéria “inédita”, “exclusiva” ou “bombástica”, desconfie e verifique a procedência da informação; busque outras fontes da mesma matéria; pesquise a reputação do veículo onde foi publicada inicialmente; leia a matéria até o final, não basta a manchete; preste atenção em datas e personagens e, na dúvida não compartilhe.

A internet como condição de possibilidade à uma nova era ainda está em construção e nossa maneira de interagir com ela pode representar os caminhos que ainda virão.

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