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Por outro lado

Ozéas Lopes Filho é doutor em Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF)

A globalização e os refugiados



Ainda que alguns autores concebam o conceito de “globalização” mais estritamente, a partir de uma leitura ideológica neoliberal, considerando que o termo tenha surgido nas universidades norte-americanas de Harvard, Columbia e Stanford, no entanto, em falar mais comum, dizemos que vivemos em um mundo “globalizado”.

Contudo, qualquer que sejam os critérios de compreensão desse fenômeno, que apagou as fronteiras ao capital, que circula o mundo completamente descontrolado, resta a necessidade de expansão do conceito à circulação de pessoas, diferentes em hábitos, contudo, carentes de acolhimento, como todos somos, dependentes de circunstâncias imprevisíveis.

Sobre pessoas nascidas em nações diferentes, são oportunas as considerações de Friedrick Barth, para quem as fronteiras entre os Estados são desenhadas não para separar as diferenças entre os povos mas, exatamente, porque são demarcadas as fronteiras que as diferenças emergem e as percebemos, ou seja, as encontramos porque precisamos justificar nossas fronteiras, nem que para isso tenhamos que construir modelos que afastem “o outro”, seja sob o argumento da proteção de nossas singularidades, ou em egocêntricas razões à saúde de nossa economia, ou ainda, em rasteiros nacionalismos.

Mundializamos nossas relações com a internet; compartilhamos o lazer simultaneamente; globalizamos o poder do capital, sem fronteiras ou restrições que exijam vistos, autorizações ou maiores exigências; internacionalizamos indignações seletivas em redes, contra atentados em distantes capitais, mesmo assim, repulsamos irmãos planetários sob o argumento de diferenças religiosas, culturais ou simplesmente porque não queremos repartir em solidariedade comida, trabalho e teto.

Segundo a Convenção sobre Refugiados, adotada em 1951 pela Organização das Nações Unidas (ONU), possuem direito de asilo todos aqueles que fogem de países em que a suas vidas ou suas liberdades possam estar ameaçadas por questões raciais, religiosas, de nacionalidades, por pertencerem a determinado grupo social ou por causa de suas convicções políticas, no entanto, o problema da imigração compulsória não se trata apenas de uma questão legal, de direito internacional, defender um direito cosmopolita vai além de limites normativos.

Cremos em razões morais as quais todos estamos obrigados, seja por motivos históricos de um processo de colonização, como também e principalmente, em razão de repartirmos um planeta cujas fronteiras foram desenhadas para atender aos interesses dessa divisão privada de poder.

É possível mudarmos esse quadro? Achamos que sim, porém, qualquer alteração deverá considerar as diferenças não como defeitos alheios, mas particularidades; que toda escassez reclamada possui caráter momentâneo e, com o decorrer do tempo sujeita a melhoras; e, que toda ação não se baste num propósito de satisfação pessoal, mas de reconhecimento do outro como um igual, necessitado de solidariedade.

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