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Por outro lado

Ozéas Lopes Filho é doutor em Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF)

Tudo para dar errado (ou certo)



No mesmo compasso de Jürgen Habermas, acreditamos que o tempo pode ser melhor medido por acontecimentos que marcam suas linhas sequenciais, ou seja, de maneira mais apropriada que por datas exatas. Assim, os números “redondos” dos anos mais se projetam como comemorativos que merecedores de destaque aos acontecimentos que anunciam ou sucedem. 

Melhor dito, nas palavras do próprio filósofo alemão, “anos como os de 1900 ou 2000 não têm significado diante de datas históricas como 1914, 1945 ou 1989. Os cortes do calendário encobrem sobretudo a continuidade das tendências de uma modernidade social que remonta no tempo e que também permanecerão intocadas pela passagem através do umbral pra o século XXI”.

Nesse compasso, nos aproximamos de 2019, ano que demanda por profundas alterações nos cenários internacional e nacional, seja por conta da necessidade do estabelecimento de uma paz mundial com indícios de duradoura, cada dia mais difícil diante das gravíssimas questões que acometem o planeta (fome, miséria, desemprego, migração etc.), ou internamente, a partir da posse do novo Presidente da República, que terá que administrar um problema de mais de 13 milhões de desempregados, numa economia em patamares deficitários, além da marcante divisão política e social que se encontra o país, notadamente, após o processo eleitoral findado em outubro passado, quando ficou patente que em três partes, bastante semelhantes, restaram os vencedores, os derrotados e aqueles que não se identificaram com nenhum dos contendores do segundo turno eleitoral. 

Nesses ambientes fracionados, mais complexo que torcer para “dar certo”, as questões comuns necessitam de formulações e ações inclusivas, daquelas que aproximem e envolvam a todos, de maneira que se tente sem restrição de custo o consenso entre os envolvidos. Ainda que num primeiro instante inimaginável ou impossível para a maioria, todavia, mais que nunca um discurso de sobrevivência comum deve ser construído maduramente, sob pena do mundo naufragar, do país não resistir e no final só restarem derrotados.

Realisticamente, o Ano Novo tem tudo para dar errado. No cenário internacional as práticas excludentes das nações mais ricas prenunciam mais divisões e afastamentos, portanto, devem ser abandonadas, distantes os seres humanos guerreiam e se destroem. No país, vencedores devem agir como tal e moderar o tom pós-campanha, se pretendem mínimos de respeito, reconhecimento e legitimidade às suas políticas. 

Utopicamente, precisamos voltar a falar, entender que o mundo e o país não possuem donos e que qualquer eventual hegemonia não permite desconhecer os diferentes. Se 2019 vai ser difícil, mais ainda se não andarmos para a mesma direção, onde simultaneamente cada um deve dar um passo de equilíbrio, sob pena de 2019 ser lembrado como o ano que no mundo nada deu certo.

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