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Por outro lado

Ozéas Lopes Filho é doutor em Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF)

Chega de avesso mais-querer

Existe uma expressão inglesa que diz: “não jogue fora o bebê junto com a água do banho” – don't throw the baby out with the bath water –, contextualizada, se refere a higiene familiar na Idade Média.

Reza o mito que naquela época os banhos eram tomados numa única bacia, seguindo uma hierarquia familiar patriarcal. O chefe da casa era o primeiro a se banhar na água limpa, em seguida, sem trocar a água, vinham os outros homens da casa, por ordem de idade e posteriormente as mulheres, seguindo o mesmo critério, por fim, as crianças, assim sendo, os bebês eram os últimos a tomar banho.

Independente de questões de saúde e higiene, pode-se imaginar a coloração dessa água de último banho, ou seja, de tão suja a expressão indicava que se poderia perder a criança dentro dela, podendo a mesma ser lançada fora quando a água fosse vazada.

Por outro lado, escorado no asseverar de Nelson Rodrigues, que de maneira lapidar cunhou e descreveu nosso “complexo de vira-lata”, como “a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima”, destarte, creio que estamos costeando a derrota plena e completa da nossa condição e identidade nacional.

Dai, em efêmera análises, insurjo-me contra o que estamos nos transformando: sujeitos sem autoestima; pessimistas contumazes; derrotados de véspera; mais grave, torcedores do “quanto pior melhor”, só para no final orgulhosamente comprovarmos o quanto estávamos certos em nossas convicções – se é que são nossas! –, fruto de informações refletidas e comparadas, ou que pegamos emprestadas em algum grande portal de oposição e repetimos buliçosos.

Nem Nelson Rodrigues poderia imaginar que superaríamos nosso complexo: agora torcemos para o inimigo e vibramos com o gol contra; nos deliciamos com a derrota nossa de cada dia e contamos para todo o mundo como somos indignos de confiança; queria entender que fenômeno é esse, que a cada queda na classificação de risco internacional, arbitrada por alguma agência vinculada ao capital especulativo, chegamos ao orgasmo coletivo no noticiário televisivo; que frisson é esse, que se desencadeia com a queda do valor das ações de uma estatal ou de alguma commodity; em que momento passamos a valorar tanto uma previsão de aumento de 0,5 na inflação anual e desvalorizar “a experiência de retirar 22 milhões de pessoas da pobreza. Ninguém mais repetiu esse milagre, só o Brasil” – Zygmunt Bauman.

Não resta dúvida que queremos e devemos combater toda forma de lesa-pátria, seja de qualquer fonte, partido ou época, mentecapto quem pensar o contrário, portanto, injustificável qualquer argumento que se ampare em justificativas nessa direção, por outro lado, ainda que tudo seja necessário mudar, não podemos esquecer que no final das contas nós passaremos e o país ficará para quem deixarmos por aqui, dizendo de outra forma, “não podemos jogar fora a água suja junto com a criança”, assim, chega de desejar a derrota por puro exercício de prazer, por puro avesso mais-querer.

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