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Mão Dupla

Paola de Andrade Porto é Mestre e Doutoranda em Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e, Presidente da Comissão de Acompanhamento e Estudos da Legislação de Trânsito da OAB-Niterói. Email para esta coluna: paolaporto@id.uff.br

Todo dia um 7 x 1 diferente

Um dos principais jornais da Alemanha, Frankfurter Allgemeine, publicou nesta terça-feira (13) uma reportagem sobre pretensões do governo para expandir suas ações em defesa ao meio ambiente. A Alemanha enviou uma carta assinada pela ministra do Meio Ambiente, Barbara Hendricks, também pelo ministro do Transporte, Christian Schmidt e o Chanceler Peter Altmaier, em resposta as constantes pressões da Comissão Europeia para diminuição de gases poluentes, a qual afirmava que o governo federal, juntamente com os estados e municípios está considerando o instituir o transporte gratuito para reduzir o número de veículos particulares.  

Ainda na Alemanha, outra medida ambiental, essa bem mais ousada, prevê a proibição de condução de veículos a diesel em várias cidades alemãs, onde o óxido de nitrogênio excedeu o limite imposto pela Comunidade Europeia, tal ação ainda não foi implantada e será julgada sua legalidade no Tribunal Administrativo Federal no dia 22 de fevereiro.  

Um dia antes do anúncio do governo alemão, por aqui, em terras brasileiras, mais especificamente no Estado do Rio de Janeiro, foi publicado o aumento das tarifas das linhas sociais que fazem o trajeto pelas barcas – Rio, Niterói, Ilha do Governador e Ilha de Paquetá - um reajuste de R$ 5,90 para R$ 6,10 e, a tarifa social que é subsidiada pelo Estado, através do Bilhete Único passará de R$ 5,00 para R$ 5,15. Já a linha seletiva que faz o trajeto Rio – Charitas sofreu o aumento de R$ 16,50 para R$ 16,90.  

Niterói tem uma população de pouco mais de 500 mil habitantes, com uma frota de 290 mil veículos, entretanto, o serviço de transporte aquaviário que faz o deslocamento entre cidade de Arariboia e a Capital Fluminense, local de concentração de oferta de renda e emprego, também atende à demanda de outros municípios vizinhos, como São Gonçalo, Maricá, Itaboraí etc., e sempre foi considerada como uma excelente opção de transporte coletivo como alternativa de melhora da mobilidade urbana, até porque possui capacidade de transportar a cada viagem cerca de 1.300 a 2.000 passageiros, dependendo do tamanho da embarcação, o que alivia a competição das já saturadas vias públicas urbanas com os automóveis, ônibus, caminhões e motocicletas.  

Em rápida pesquisa, com exemplos aleatórios de preços de tarifas e localidade, que diariamente se deslocam em direção a Capital do Estado e analisando somente aqueles que pagam a tarifa integral (sem Bilhete Único) temos os seguintes cenários:  

Sendo um morador de Niterói, trabalhando no Centro do Rio de Janeiro, indo de ônibus, deverá desembolsar R$ 6,05 (Linha 100D, Viação Mauá), por cada trajeto, o que representa gastar ao final do dia a quantia de R$ 12,10. Observem que esse trajeto de barcas, o niteroiense terá o custo diário de transporte R$ 12,20.  

Por sua vez, se for morador de São Gonçalo, saindo do bairro de Alcântara em direção ao Centro do Rio, ele poderá optar ir de ônibus até o centro de Niterói pagando R$ 4,10 (Linha 409M, Auto Viação ABC) e pegar as barcas até seu destino final, arcando com o custo diário de R$ 20,40. Ainda, pode optar então em pegar um coletivo sem baldeação, direto de Alcântara ao Castelo no Centro do Rio, onerando R$ 13,15 (linha 2545D, Viação Coesa) cada trecho, quando ao final do dia terá gasto R$ 26,30. 

Já um morador de Maricá, para se deslocar à Capital, pode ir de ônibus até o Centro de Niterói pagando R$ 8,25 (Linha 144R, Viação Amparo) e de lá embarcar no modal aquaviário, ficando com o ônus total de R$ 28,70 por dia, ou fazer um trajeto direto de Maricá ao Centro do Rio, com o custo de R$ 11,50 (Linha 146, Viação Amparo) finalizado o dia com a despesa de transporte de R$ 23,00.  

Satisfeita com os exemplos, não é preciso pesquisar mais tarifas ou localidades para se concluir o alto custo do transporte coletivo no orçamento do trabalhador e suas consequências nefastas para mobilidade urbana, que na maioria das vezes opta por outras modalidades de transportes mais módicas. É o Rio de Janeiro indo na contramão das políticas de mobilidade e ambientais do mundo, supreendentemente tornando o automóvel individual o modal mais barato para se descolocar nas cidades. 

A propósito, se esse trabalhador resolver fazer esse mesmo percurso com seu carro, através da Ponte Rio-Niterói, recolherá para a concessionária Ecoponte, e somente num dos trechos da via, a apenas a tarifa de R$ 4,10.  

Enquanto na Alemanha se discute a tarifa zero dos transportes públicos no intuito de diminuir o número dos veículos particulares nas vias, nossas políticas administrativas insistem no alto custo desses transportes, mais uma vez estamos perdendo de goleada. A mobilidade urbana e o meio ambiente num futuro próximo irão cobrar caro essa fatura. 

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