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Por outro lado

Ozéas Lopes Filho é doutor em Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF)

Feliz ano novo, “apesar da crise”!

Nadando contra o senso comum, tenho muita esperança no Ano Novo, não tanto pelas notícias dos jornais, que empregam a palavra “crise” como vírgula, é difícil encontrar alguma notinha que não pontue suas matérias com o terror econômico, mas acredito em 2016 por perceber que as maiores dificuldades não são pertinentes as nossas capacidades individuais e producentes, mas relacionadas ao Estado e na disputa por sua hegemonia política.

Sem negar que haja problemas de liquidez e caixa para muita gente no setor produtivo, principalmente, para quem depende de dinheiro público, todavia, mesmo assim esses reveses estão agudizados no Estado, mal pagador, descumpridor de contratos, pródigo, perdulário, corrompido, sem noções precisas do que seja a res pública. No entanto, observado os negócios como um todo e, nos afastando desse ente desorganizado e gastador, podemos ver um outro país, embora submerso em pessimismo, porém, que nos dá esperanças de um ano melhor.

Cotejando o noticiário da “crise” com a realidade, fico encasquetado com as reais dimensões do problema, principalmente para os que mais reclamam da situação “caótica”. Desperta atenção que pelo segundo ano consecutivo, o maior contingente de turistas em Miami tenha sido de brasileiros, totalizando 582.416 visitantes, 16.964 a mais que no ano de 2014, o que representa 3% do fluxo de hóspedes naquela cidade estadunidense.

Desagradando a muitos, inclusive amigos que podem ter a sensação de suas privacidades violadas, me perdoem, mas devo ser um privilegiado, correndo o risco de observações elitistas, perdão novamente, no entanto, minhas redes sociais na internet indicaram vários amigos na Europa e nos EUA para o Natal e réveillon, além de tantos outros que estiveram fora do país no ano passado.

Nessas contas de final de ano desprezo os que preferiram destinos domésticos por pura comodidade, no Rio de Janeiro em Angra passeando pelas ilhas, em Búzios pela Rua das Pedras, na Serra refazendo o caminho Imperial, alguns pelo Sul e outros pelo Nordeste, enfim, sei que o Facebook não deve ser parâmetro para uma realidade mais complexa, todavia, é de se pensar sobre as reais dimensões dessa crise, principalmente, para aqueles que mais se identificam com as dificuldades e as esbravejam nas avenidas, contudo, preservam certos hábitos não muito condicentes com os momentos de dificuldades propalados.

Por outro lado, em exemplo caseiro, na véspera da passagem, minha mãe voltou surpresa do mercado dizendo que "as prateleiras estão vazias, compraram tudo!", difícil de entender quando o que mais escuto é que há “crise” para todo lado, quando leio que os shoppings tiveram o pior dos últimos 15 anos, registrando movimento inferior ao ano passado em 1% – isso mesmo UM por cento –, em contra partida, em nota de rodapé, vejo no mesmo veículo que as vendas pela internet aumentaram 26,6%, ou seja, embora possa estar completamente errado, mas isso é reposicionamento de mercado, algo do tipo “destruição criativa” – Schumpeter –, embora a mídia alardeie como “crise”.

Em outras matérias, fora das manchetes, também em páginas internas dos noticiários, a Petrobras – mãe das crises –, todo mês bate recorde de produção de petróleo e gás, com garantia de prospecção e produção, embora o preços do barril de óleo no mercado internacional esteja em valores irrisórios, até o pré-sal anda dando frutos, falido nas manchetes, duplica e triplica a sua produção a cada mês; na Toyota, na Honda, na Mercedes e em outras marcas têm filas de espera para o carros novos; as marcas de varejo Le Lis Blanc e John John, e Magazine Luiza tiveram suas ações valorizadas na última semana do ano na ordem de 38% e 47%, respectivamente; o setor hoteleiro planeja investir R$ 12,8 bilhões nos próximos cinco anos, com 408 novos empreendimentos até 2020, um crescimento de 65%, são os fatos atropelando suas narrativa.

Enfim, quero entender essa crise, onde alguns grandes atacadistas – leia-se monopólio ou cartel – fecharam lojas da mesma rede que concorrem entre si sob o argumento da “crise”, entretanto, registram compensatórios aumento de vendas virtuais no ano de 2015.

A crise que vejo e a população sente é a da saúde, desativando postos e fechando hospitais; da educação, cortando verbas e trancando escolas sob argumentos de “remanejamento”; da segurança pública, onde há muito se investe pouco e mal; dos servidores, sem aumento, reposição e em atraso salarial; enfim, quando o Poder Público pode licitar, gastar e contratar é onde grassam mais dificuldades; destarte, a crise que vemos é a moral, do vale tudo político, que outorga ao vencedor como prêmio um naco desse mesmo espólio, arruinado com temerosas transações, má gestão e favorecimentos, por anos e anos, em consequência, um dia tinha que quebrar!

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