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Por outro lado

Ozéas Lopes Filho é doutor em Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF)

Internet, terra de bruxas

Nesta semana mais uma lenda foi desfeita na internet, a campanha do “Black Dot” ou “ponto preto”, pintado na palma da mão de uma mulher significando necessidade de ajuda em razão de agressão, entrou para a longa lista de falsas certezas da rede, ou seja, não passava de mais um fake. 

Se é mais um mito que se esboroa, entre os tantos que a internet produziu, por certo não será o último. Nessa seara, muitas vítimas já acordaram em banheiras de motéis, submersas em gelo, dando falta de seus rins; feijões assassinos contaminados mataram dezenas no interior de São Paulo; celulares explodiram durante sonos descuidados, enfim, o que não falta é criatividade para tantas invencionices neste espaço virtual de relacionamentos. 

Todavia, justiça seja feita, deve-se observar que esse misto de terror e criatividade não é coisa ou privilégio de nossos tempos, aliás, o ser humano é pródigo em engenhar lendas, surpreendentemente, quanto mais oportunidades tem de chegar próximo da razão. 

Por exemplo, a demonologia e seu substrato, a bruxaria, surgem no início dos tempos modernos, sendo autêntica contradição com a revolução científica em curso, isso em pleno contexto Renascentista, que, embora tenha sido um período fecundo à valorização e à redescoberta do homem perante o Universo, também traz a marca das superstições como registro. 

A propósito, a demonologia e a bruxaria avançam mais nesse momento de chegada a Idade Moderna que propriamente na Idade Média. É no Renascimento que a astrologia é mais destacada que a própria astronomia, que a física ou a ontologia aristotélica, em nítida evidência que há supervalorização as lendas e menos inspiração científica, ou seja, “foi uma época pouco dotada de espírito crítico e povoada das mais grosseiras superstições, alimentando todos os tipos de crenças na magia, na bruxaria, nos demônios e na astrologia”, conforme Hilton Japiassu.  

E, justamente nesse período, onde predominava a ideia de que “tudo era possível”, terreno fértil para a admissão da presença de bruxos, feiticeiros e demônios atormentadores, que suas manifestações se tornam incontestáveis; diante do caldeirão supersticioso dominante, num mundo ocupado por anjos caídos e mulheres malignas, príncipes e religiosos se ocupam em perseguir seus representantes. 

As “provas” eram fartas, fenômenos naturais, doenças, crises sociais, infertilidade feminina, impotência masculina e tudo mais, bem demonstravam que o mal estava presente. 

Numa sociedade marcadamente dominada pelo poder masculino, alicerçada numa ontologia crédula de que as mulheres eram mais vulneráveis à presença do tinhoso, este, solto e pronto à atormentar a tudo e a todos, com seus propósitos destruidores, obviamente, as solteiras, viúvas e idosas, frágeis entre as frágeis, se tornavam suas principais vítimas. Não à toa, é nesse ambiente que floresce a Santa Inquisição, com suas fogueiras purificadoras, e claro, convertendo patrimônios e recursos para a causa salvadora. 

Enfim, cotejando determinadas estórias que transitam pela rede mundial de computadores e, a julgar pelo número de informações produzidas e reproduzidas sem os mínimos critérios verificadores de fontes e autenticidades, podemos concluir que além de guardarmos muito de nossos antepassados no que pertine ao quesito inventivo, também nos comportamos de maneira bastante irresponsável. 

Sobre o tema – quando a farsa perde a graça –, reporto o caso da dona de casa amarrada e espancada por dezenas de pessoas até a morte no Guarujá/SP, em maio de 2014, após um boato que circulou numa rede social, dando conta que ela sequestrava crianças para práticas de magia negra. Após tudo apurado a triste conclusão, nada existia de verdade no fato, era só mais uma mentira de internet fabricando outra bruxa contemporânea.

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