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Por outro lado

Ozéas Lopes Filho é doutor em Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF)

Intolerante

Sou um usuário contumaz da internet, me encanta não só o lúdico, o criativo ou a tecnológica que permite alcançar o mundo em alguns poucos cliques no mouse, mas, e principalmente, sua condição e possibilidade de ser utilizada tal e qual contemporânea agora, ou ainda, como ambiente apropriado para ressurgir uma nova esfera pública moderna. 

Magnetizado com o debate, admiro a maioria dos temas que se apresentam nesta sociedade complexa, são tantas ideias, valores, informações e imagens, que qualquer tentativa blasé de alienação não consegue me impedir de envolvimento com tamanhas atividades e funções. 

Enfim, enquanto voraz usuário das redes, não deixo de acompanhar seu cotidiano, seja pela ótica cultural, esportiva, econômica ou política, tanto faz. Todavia, embora quase todos os temas me interessem, quando o assunto é política, confesso, este me atrai um pouco mais. 

Para quem acredita na “organização da esfera pública na era das mídias de massa” – aliás, título de minha tese –, não há como deixar de se seduzir ao ouvir as pessoas defendendo projetos, partidos, rumos e utopias para o planeta, porém, nem todos os argumentos em política me interessam, desprezo e execro qualquer premissa autoritária, que pretenda violar a liberdade e suas múltiplas formas de expressão. 

Assim, não me imiscuo em assuntos que menospreze qualquer habilidade pessoal, artística ou profissional; também, peço aos sectários que me esqueçam quando o tema caminha na direção do uso da força e das armas onde existe voto; muito menos, me chamem para assistir proselitismos tacanhos, que ignorem as diversas formas, práticas e manifestações individuais da vida; de igual sorte, dado que não acredito em preceituário de moldar gente, também, não aceito modelos inflexíveis e inexoráveis de qualquer espécie. São minhas regras e princípios para o diálogo político. 

Assumido falível e viciado – atire a pedra quem não é –, todavia, ainda restam alguns princípios sobreviventes de meus desarranjos e desajustes. Destarte, no extrato das lengalengas que me causam repulsa, a intolerância ocupa lugar de destaque e aversão, seja ela de qualquer espécie ou manifestação, perante sua revelação, em efeito reverso, quem se torna intransigente sou eu. 

É inadmissível, portanto, e deve ser severamente combatido, que alguém tente se valer das liberdades democráticas exatamente para atingi-la, ou seja, não dá para transigir com qualquer argumento que diga “é meu direito”, quando o que a pessoa pretende é a instrumentalização desse direito, exatamente para sequestrá-lo com o fim de sua destruição.  

A propósito, nos recorda a história, foi dessa maneira que a Alemanha nazista se formou, quando o partido hitlerista chegou ao poder valendo-se da leniência do modelo democrático, que aceitou sua existência e participação eleitoral conforme regras liberais, ainda que seus filiados não escondessem suas feições antidemocráticas.  

Tal complacência e respeito com o autoritarismo resultou na revogação da constituição alemã em 1933, através da “Lei de Autorização”, que permitiu Adolf Hitler usurpar o parlamento e as liberdades fundamentais em nome do regime, tudo feito dentro das regras do direito, cujo desfecho dessas providências amargamente a história registra. 

Para finalizar deixou uma asserção: em nome da democracia, é legítimo censurar quem pretenda eliminá-la através de sua objetivação, devemos aceitar democraticamente a bestialidade ou reagir caçando o caçador? É um desafio que surge sempre que deparamos com alguém querendo confisca-la, todavia, neste caso, de minha parte não tenho o menor receio de explicitar toda minha intolerância com os intolerantes.

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