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Por outro lado

Ozéas Lopes Filho é doutor em Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF)

Moderno ou descolado

Quem não quer ser “moderno” ou identificado como tal, afinal, a expressão transmite uma ideia de estar projetado à frente do tempo, ou pelo menos colocado numa perspectiva de atualidade.

Como senso comum, se apresentar como moderno equivale dizer que está ligado ao novo, ainda que não importe para muitos, qualitativamente, o que essa novidade represente, contanto que não seja o antigo, vencido e ultrapassado; por sua vez, sob o prisma psicológico, o ser humano tende a confundir e crer que o novo é irremediavelmente melhor, destarte, ser moderno é ser melhor e vice-versa.

Exemplos de novidades que se confundem com modernidade não faltam: as “pílulas da felicidade” (Prozac, Viagra, Sibutramina...); objetos dos sonhos (Mac, Platinum, Patek...); a extravagância dos gostos (Chanel, Vuitton, Perignon...), tudo e muito mais é representação do novo, porém, não necessariamente moderno. Mas então, o que é ser moderno afinal?

Moderno é aquilo que deriva da Modernidade e não da mera originalidade efervescente de ocasião, para alguns é algo que se vive já a partir do século XII, sendo no XVII incorporando definitivamente às pessoas como modo de vida e organização social europeia daqueles anos; para outros a Modernidade também está ligada a racionalidade econômica política e cultural, significando um aumento de eficácia desses fatores, em evidente conceito funcional, ou seja, a sociedade moderna é aquela que opera melhor que as antigas sociedades tradicionais, precedentes da Renascença.

Sem desprezar olhares diferentes, no entanto, a Modernidade está ligada a um estalão específico, qual seja, a autonomia do indivíduo. Uma sociedade moderna não é apenas aquela onde seus sistemas funcionam com eficiência tecno-racional, mas sim, quando seus indivíduos possuem maior campo de expressão e autonomia subjetiva.

Desse modo, ser moderno é acreditar que sob o ponto de vista econômico o indivíduo pode ter acesso ao trabalho, aos bens e serviços que necessite, sem que isso represente explorações, injustiças ou constrangimentos; ou, que uns se sobreponham aos outros em dominação, de modo que a autonomia de alguns não signifique a escravidão de outros semelhantes; ou ainda, onde o planeta não suporte a conta do consumo desenfreado e a acumulação desnecessária, as expensas do esgotamento de seus recursos.

Sob a ótica política, ser moderno representa o exercício de uma cidadania ativa, num estado democrático de direito, dedicando respeito aos direitos fundamentais do ser humano, a individualidade e a liberdade de escolha pessoais, nada mais nada menos que perseguir e progredir nos ideais embrionários datados de 1798.

Na mesma toada, ser culturalmente moderno é acreditar no livre uso da razão, crendo que o indivíduo não necessita de tutores que lhes diga o que pode ou não ser imaginado ou criado, com direito a informação, produção e acesso a todas as formas de manifestações artísticas e de conhecimento.

Ainda, ser moderno é também acreditar que “as barreiras imaginárias que separam os povos” devem ser rompidas, através da universalização econômica, política e cultural das relações, assim, atravessando os limites que inviabilizam uma sociedade cosmopolita, esta, capaz de ver no outro a si próprio, comungando os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, conceitos que valeram a reconfiguração das sociedades contemporâneas; destarte, universalizar valores humanos é um conceito que vai além de globalizar negócios, produção e redes de comunicação.

Por outro lado, “universalizar não significa abolir diferenças, e sim lidar com as diferenças de modo compatível com valores universalistas” (Rouanet), portanto, identificando cada qual seus valores, porém, fazendo com que esses componham um mosaico plural como devir de sociedade.

Ser moderno é acreditar que embora a inquisição não tenha morrido, esteja apenas adormecida, entretanto, que ela deva ser enfrentada todos os dias com o ímpeto dos revolucionários e a certeza que mesmo tardiamente, possa ser vencida, fora isso, sem mais delongas, o indivíduo não é moderno, quando muito, um sujeito “descolado”.

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Comentários

matheus miranda
Verdadeiramente e em concordancia com o texto! e acrescentando que o avanço da modernidade está alcançando niveis absurdos de escravidao tecnologica, onde até mesmo para uma boa coversa lado a lado estamos conectados todo o tempo seja em um celular ou algo parecido!!!
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