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Mão Dupla

Paola de Andrade Porto é Mestre e Doutoranda em Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e, Presidente da Comissão de Acompanhamento e Estudos da Legislação de Trânsito da OAB-Niterói. Email para esta coluna: paolaporto@id.uff.br

No meu tempo era melhor?

Muitas vezes temos a falsa impressão de que o passado tudo era melhor, que vivíamos em ambientes mais tranquilos, tínhamos mais recursos financeiro para sobreviver etc.. Por um lado, esse saudosismo é interessante, pois nos remete a lembranças agradáveis, até porque se chegamos até aqui, sobrevivemos ao passado, tudo parece mais fácil. Essa dicotomia vai esbarrar na incerteza do presente e imprevisibilidade do futuro, essa é a justificativa que nos causa a nítida impressão de que o agora está pior.

Se tratando de mobilidade urbana, não há o que se negar, atualmente o trânsito está extremamente carregado, piorou em demasia, a cada ano gastamos mais tempo nos deslocamentos. Em diversas oportunidades comentamos neste espaço as origens e consequências dos congestionamentos, seja pelo aumento do número de veículos particulares, pelo crescimento da população nas áreas urbanas, as opções políticas-econômicas de uma era ou, pela precariedade dos transportes coletivos.

Todavia, em que pese esse panorama negativo, tivemos consideráveis melhoras na mobilidade sob outras óticas. Como quesitos positivos, podemos citar o controle na segurança dos veículos, a qualidade das estradas, assim como a questão da intensificação na fiscalização de motoristas que não estejam aptos a dirigir.

No ponto segurança automobilística, ao longo dos anos, houve uma melhora na qualidade dos veículos que circulam no trânsito, tanto pelas mudanças das regras consumeristas que passaram a exigir que as fábricas desenvolvessem ou melhorassem os itens de segurança e os colocassem como obrigatórios, quanto pela legislação de trânsito que justamente regulamentam e obrigam as empresas automobilistas a se adequarem à segurança viária.

Não faz muito tempo, os vidros dos veículos eram temperados, significa dizer que quando quebravam se estilhaçavam, causando graves danos, atualmente os vidros são laminados, que ao se partirem, continuam “inteiros” reduzindo os riscos. “Air Bag”, freios ABS, cinto de segurança e tantos outros foram incluídos não simplesmente como itens, mas como meios de proteção de vida no trânsito. Para a memória dos mais antigos, recordemos que o espelho retrovisor do lado direito do automóvel não era item de fábrica, e sim um opcional!

Apesar de ser senso comum que ecoa todo início de ano – reclamar da obrigatoriedade de vistoriar os veículos pelo órgão de trânsito - sabemos que essa medida também contribuiu para a melhora na qualidade dos veículos. Temos a plena noção o quanto é perigoso um veículo trafegar a noite com as lanternas apagadas ou, qualquer caso, com pneus carecas e demais itens defeituosos., essa obrigação de manter o veículos em mínimas condições de trafegar mudou toda uma concepção do modo de se locomover de uma sociedade.

Sou de uma época que pouquíssimas pessoas dirigiam com cinto de segurança, crianças viajavam no banco da frente ou na mala do automóvel. Lembro-me de uma viagem de férias à região dos lagos, em que eu e meus irmãos, todos pequenos, atravessamos a Ponte Rio-Niterói na mala de uma “Caravan” com a porta aberta, uma irresponsabilidade comum à época que atualmente é inconcebível. Tive sorte, mas quantas pessoas perderam suas vidas com esses atos abusivos no trânsito?

Da mesma forma, era extremamente normal ir as festas, casamentos, boates, consumir bebidas alcoólicas e depois dirigir. A operação lei seca é um divisor de águas em matéria de fiscalização. Por mais que hajam transtornos no trânsito, estes não chegam nem perto dos benefícios que a operação lei seca conseguiu atingir na sociedade, não somente na diminuição das mortes e acidentes no trânsito em razão do consumo de álcool, mas numa mudança de mentalidade na forma de agir e se locomover.

Nesse diapasão, extraímos da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), uma matéria com o seguinte título: “Efeito Uber’ deixa valets sem serviço e esvazia estacionamentos em São Paulo”, que apesar do enfoque diverso, em seu conteúdo o texto traz os motivos pelo qual os motoristas estão optando por transportes alternativos: “O preço do valet acaba sendo quase o preço de ir e voltar de Uber. E, além disso, tem aquela coisa de poder beber sem a preocupação de dirigir”, afirma o empresário Fabio Saez Salomão.”

A tecnologia muda, a sociedade se adapta. As necessidades aumentam, a sociedade também se adequa. Os hábitos e concepções também estão sujeitos as mudanças, que muitas vezes são para o bem.   

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