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Por outro lado

Ozéas Lopes Filho é doutor em Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF)

O preço do mito

O personagem Capitão Nascimento, “osso duro de roer”, desenhado com contornos de herói tupiniquim, comandante de uma “tropa de elite”, vem servindo de inspiração para muitos naquilo que representa a resistência contra o crime organizado, expresso inicialmente nos favelados e miseráveis traficantes – Tropa I –, ou nos organizados milicianos, fardados e engravatados palacianos – Tropa II –; herói às avessas, aplaudido pelo uso de “técnicas” recrimináveis sob o ponto de vista da legalidade e cidadania, entretanto, encontrou sua legitimidade no “interesse maior da sociedade”, velha fórmula usada para justificar todos os abusos cometidos pelo personagem.

Embalado em empolgante trilha sonora e no prestigio popular conquistado após as duas edições de suas estórias romantizadas, onde os personagens foram apresentados como verdadeiros neo-espartanos pertencentes ao Batalhão de Operações Policiais Especiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro, o BOPE, este passou a ser um ideal policial para grande parte da sociedade, símbolo e fetiche, detentor de ímpar alternativa ao discurso do caos instaurado no sistema de segurança.

Homens viris; cunhados nos mais duros treinamentos; batizados com sangue e pólvora do combate; fardados em ilusória neutralidade política, tal como a cor de seus uniformes; e, ornados com a insígnia da faca encravada na caveira, os “homens de preto” que têm como missão, “entrar pela favela e deixar corpos no chão”, habitam algum ideal coletivo de desforra contra o mal.

Mas, entre o filme e os fatos há muito mais distância do que se pode perceber ou se permite deixar ver, a realidade nem sempre coincide com as figuras míticas forjadas nas telas, telinhas e telões da indústria televisiva e cinematográfica, assim sendo, não poderia ser diferente no caso da série que consagrou o grupamento.

A propósito, não é novidade a utilização de simbolismos ou personagens épicos que concentre toda força dominadora da natureza ou redentora dos combalidos; de Apolo, guia do sol na sua trajetória diária, ao Capitão América, herói da Marvel patriótica, sempre há o mito, todavia, o que normalmente os contadores de suas estórias deixam de mostrar é o “princípio da necessidade fatal, que traz a desgraça aos heróis míticos e que se desdobra a partir da sentença oracular como consequência lógica formal” – Theodor Adorno –, ou seja, todo mito tem um preço a pagar.

Pagando o preço, na semana passada os jornais noticiaram o envolvimento de cinco policias do BOPE num esquema de corrupção, conforme a grande mídia, a missão dos criminosos infiltrados na corporação era de ligar para bandidos de nove comunidades na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, passando informações privilegiadas aos traficantes quanto a operações do batalhão.

Caminhando para o fim desta breve exposição, a questão não trata de desmoralizar ou denegrir a imagem da corporação de forma simplista e simplória, tampouco generalizar condutas ou apagar méritos que possam haver na sua concepção ou no caráter de seus agentes, o que está em jogo é a necessária desmitificação de heróis imaginários, produzidos a serviço do poder estabelecido, que passíveis de acertos e erros como todas as pessoas não podem deter poderes ilimitados, liberados inclusive para escolhas capitais.

O BOPE não tem culpa pela prática de corrupção de alguns de seus membros, registre-se, descoberta com apoio do próprio batalhão, mas tem responsabilidade por inúmeros desvios cometidos “em nome da lei”. O envolvimento de alguns de seus integrantes com criminosos apenas demonstra que a simples esperança mitológica na formação dos “homens de preto”, não justifica licenciosidades para suas práticas, além do que, nos alertar sobre as concessões que fazemos por conta de infundadas fantasias, que no final das contas não é outra coisa senão a dominação concedida.

Com refrão sonoro e rimado, o devaneio cinematográfico tem sua trilha, “pega um pega geral, também vai pegar você”, porém, prestigiando-se tal ilusão de “justiça”, acaba-se por permitir outros comportamentos – assente-se, entre os menos graves a corrupção –, todavia, que em dado momento retornam à própria sociedade, sempre de maneira potencializada.

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