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Por outro lado

Ozéas Lopes Filho é doutor em Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF)

Para que lado gira a roda?

Quem não tem um amigo que volta e meia reclama de relações objetivantes, aquelas do tipo querer levar vantagem a qualquer preço, não importando o dano que isso possa causar? Falo sobre amigos, mas a indicação serve para todos nós, afinal, quem nunca reclamou de ser mero objeto numa relação, instrumento para alguém alcançar um patamar mais alto, nem que para isso o degrau seja o nosso pescoço.  

Entretanto, acredito que haja condições e possibilidades para a formação de relações de confiança fora deste prisma selvagem, porém, para que seja factível esta guinada devemos incluir outra questão ao nosso imbróglio: será que todos querem abrir mão de suas áreas de conforto e ingressar numa outra forma de relacionamento? 

Quem nunca cometeu um pecadilho que atire a primeira pedra, todavia, mentir, matar, roubar, forjar... imaginem se todos tivessem como práticas comuns, reiteradas, tais comportamentos! Olhando por uma perspectiva autorreferencial negativa, ou seja, girando sobre o próprio eixo e em progressão no mesmo sentido, essas condutas generalizadas e incorporadas ao modus vivendi, certamente levariam a aniquilação das relações em toda face da terra; quem sabe não sejam esses os nossos piores inimigos(?), relações estratégico-instrumentais, que pretendem não a semeadura do pomar, mas a colheita das laranjas do vizinho. 

O pequeno furto na loja de conveniência; o comentário maledicente sobre o colega de trabalho; a “mentira branca”, aparentemente sem consequências; o saco de biscoito aberto e não pago no supermercado; cinco minutinhos estacionado em fila dupla et coetera, causam danos as relações sociais, mesmo assim, na maioria das vezes não ponderados quando agimos de tal forma, sequer temos consciência que ressentimentos, desconfianças e magoas se acumulam e, em círculo autorreferencial negativo, produzem mais estratégias de defesa, mais burocracia, mais mecanismos de segurança, mais polícia, mais Estado, menos liberdade. 

Por outro lado, como hipótese, se todos agíssemos de maneira que nossas ações fossem medidas para os demais, considerando serem virtuosas, entraríamos numa perspectiva autorreferencial positiva; a roda que gira para trás, também pode girar para frente, só depende para que lado se dá o impulso inicial. Nesse caso, a confiança é restaurada, a liberdade é preservada e a aniquilação das relações está fora de questão, portanto, menos estratégias, burocracia, segurança, polícia, Estado... 

A propósito destas observações, Immanuel Kant (1724/1804), enumerou três pequenas propostas de regras à convivência entre os humanos, os seus chamados “imperativos categóricos”, em termos normativos nada tão rígido como uma lei, que descumprida gera uma pena, porém, inflexível quanto aos princípios que representa: “1) age de tal maneira que sua ação sirva de modelo aos demais; 2) age na tua pessoa ou na de qualquer outra, de forma a jamais tratar a humanidade simplesmente como meio, mas sempre como um fim; 3) age como legislador universal.” 

Pois é, parece que Kant, pensador da Modernidade, anda meio fora de moda na suposta “pós-modernidade”, ou quem sabe suas lições foram lidas com lentes preconceituosas ou estrategicamente postas de lado; o fato é que fora de uma perspectiva de confiança nas relações – comerciais, afetivas, profissionais, internacionais etc. –, não há muito o que fazer, senão se defender cada vez mais e evitar a aproximação do outro, vivendo num mundo de objetivações, egoísmos, inseguranças, isolamentos e falta de liberdade.

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