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Dom José Francisco

Dom José Francisco Rezende Dias oferece uma reflexão sobre a evolução da sociedade e como a fé contribui para essas mudanças de maneira positiva

O ponto do trapezista

Gosto sempre de pensar no ponto que o trapezista visualiza para andar na corda-bamba sem cair. O ponto visualizado não impede que o trapezista caia. Mas sem visualizar aquele ponto, na certa, ele vai cair. 

A vida é uma corda-bamba num trapézio. Estamos nela, andamos nela, caímos dela, voltamos a ela, não passamos sem ela. É provável até que todas as nossas lembranças sejam épicas e, portanto, encobridoras. É provável, por exemplo, que nossa infância não tenha sido linda como pensamos, nem tudo o que fizemos tenha sido com a melhor das intenções. Mas é assim que pensamos para nos manter na corda-bamba. Porque o que precisamos, em última análise, é não cair do trapézio. Nem sempre existe rede de proteção. Nem sempre saímos ilesos.

Já ouvi que o desespero dá foco. Mas não seria mais inteligente criar um foco antes de precisar do desespero ou, quem sabe, para não chegar a ele?

Já ouvi que a confiança é como o pequeno hindu conduzindo um elefante com uma varinha minúscula à qual o elefante obedece; e que, a qualquer momento, o homem pode ser esmagado pela fera. Mas precisamos correr esse risco? Se a vida é um elefante que nos ameaça esmagar, não seria mais inteligente dispor de outra estratégia que não seja a minúscula varinha com pretensões mágicas?

As grandes perguntas são: O que mantém você no trapézio? O que não o fez cair? E, se caiu, o que o reergueu com vontade de continuar? O que livra você de todos os pesos da vida e, apesar disso, não o deixa desacreditar que ela seja boa?

Durante as últimas semanas, vim conversando com você sobre a maturidade humana. Nas próximas, quero conversar sobre a maturidade cristã. Uma coisa leva a outra. 

Conversar sobre maturidade cristã significa, entre outras coisas, conversar sobre o equilíbrio da vida, como num trapézio, e sobre os pesos da vida, como o do elefante. Se muitos homens e mulheres conseguiram, ao longo desses milênios, não permitir que a vida os derrube, os humilhe, os esmague, sem dúvida, entre os fatores dessa vitória não podemos descartar a maturidade da fé. 

Entre os cristãos, a maturidade da fé se chama santidade. 

Sim, eu sei que você, talvez, já tenha imaginado algum altar com alguma imagem-de-santo em alguma igreja. Não é disso que estou falando. Estou falando é do processo que levou aquelas pessoas, entre tantas outras, a alcançar um ponto de equilíbrio e de leveza, o ponto a partir do qual a vida vale a pena. 

É muito importante saber que a vida precisa e pede para ser mais. E que a santidade é uma das formas que a vida encontrou de pedir para ser mais, e de conseguir ser mais. Afinal de contas, se a gente não é cachorro, comida não pode ser prêmio. Tem de haver algo mais.

Tem que haver mais, nem que seja para que a corda-bamba nos leve a um lugar seguro. Nem que seja para que a gente não caia. Nem que seja para que o ponto do trapezista seja mais que um simples ponto imaginário, e se torne real.

É disso que quero conversar com você nas próximas semanas.

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