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Por outro lado

Ozéas Lopes Filho é doutor em Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF)

Reflexivos ou repetidores

Com o crescimento das modernas mídias, destacando-se a internet e suas redes sociais, a circulação de informações vem seguindo no mesmo compasso expansionista; atingidos por todos os lados, cada vez sabemos mais de tudo, entretanto, menos de cada coisa, assim, o fato é que se por um lado vivemos um momento de explosão informacional, por outro, também comungamos de uma generalização tão grande, que nosso saber se esgota antes que possamos verificar criticamente o que cremos saber.

Quanto a difusão dessas informações, realçamos, em tempos de afinidades em rede, vivemos o momento da busca por “seguidores”, “amigos” ou expressões equivalentes, conforme o nome que se indique, dependendo de cada programa organizador de seus membros, no entanto, parece comportamento bastante comum que os envolvidos nessas relações curvem-se às necessidades de serem agradáveis e simpáticos, evitando o dissenso que alguns temas mais controvertidos possam causar, da mesma maneira, que na ânsia de ser popular –visto, comentado e compartilhado –, acabem por propagar aos integrantes de suas tribos notícias carentes de mínimas verificações, quanto a origem e confiabilidade.

Por outro lado, ao se aderir de maneira acrítica a qualquer coisa divulgada, se reproduz a prática do funcionamento constante do senso comum, em outras palavras, a banalização dos acontecimentos é a naturalização do social, da repetição cotidiana como se inalterada, a qual se adere para que as coisas permaneçam numa coerência constante do tipo “assim que é”, destarte, legitima-se uma forma de ser que obedece a lógica do próprio sistema, onde as pessoas agem como de hábito por pura falta de reflexão ou para nele ingressar. Nesta perspectiva, se tudo é natural, igualmente são as relações sociais; naturalizadas pertencem a uma lógica prescrita em regras que se repetem como consequência de desdobramentos esperados, como “dever ser”.

Se, “assim que é”, não há que se empreender forças à alteração da realidade, mas agir conforme se deve, para a continuidade do processo e reprodução do mundo da vida, afinal, o que importa é participar dessa homogeneidade, legitimando para se legitimar.

Mas como enfrentar essa escassez de conhecimentos causada pela abundância de mensagens, em quem acreditar para saber se o que divulgamos está vinculado com algum fato, se o pacto é com a mera circulação, ou se é resultado de uma narrativa comprometida ou avessa ao status quo?

Será que podemos acreditar em tudo que lemos: que existe uma revolução – ou golpe – em marcha, organizada por militares – ou cubanos – já entrincheirados; que tramita no Congresso Nacional uma proposta de lei que pretende a mudança do texto bíblico, retirando possíveis versículos homofóbicos; que foi descoberta a cura do câncer, porém, os laboratórios não permitem essa conquista; que as cartilhas das escolas públicas deste ano serão ilustradas com posições do Kama Sutra; que a violência desmedida do Estado é justificável, preventivamente, contra vândalos infiltrados nas manifestações de rua?

Há quem deposite confiança em agências noticiosas, muitas delas tradicionais, outras bastante contemporâneas – sequer localizável fisicamente –, da mesma maneira em seus propósitos envoltos na aura de “compromisso com a verdade” e necessária “isenção”, no entanto, embora em aparente concorrência, diversificando-se em centena e milhares de canais de TVs, rádios, jornais e portais na Internet, o que se verifica sob um olhar mais cuidadoso é uma concentração cada vez maior do poder midiático nas mãos de cada vez menos pessoas ou grupos pelo mudo. No caso brasileiro, “...a concentração histórica da mídia no Brasil, onde cinco empresas, pertencem a seis famílias, [que] controlam 70% de todos os meios de comunicação” – Siberpunk – ASSANGE –.

Afinal, no que acreditar e evitar alimentar o ciberespaço com tantas fantasias? Parece que só nossas capacidades reflexivas, estimuladas por muitas e extensas investigações podem nos dar a confiança necessária para evitarmos ser meros objetos, repetidores de algum modelo ou ideia comprada, todavia, por preço desconhecido, fora deste caminho, insistir na ignorância é caso de conveniência ou pura má-fé.

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