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Contextos Urbanos

Sandro Araújo é responsável pelo projeto social Geração Careta e fala sobre segurança pública e o crescimento da violência em todas as esferas da sociedade

A renúncia esperada

Visceral. Talvez um tanto quanto poético. Assim foi meu post no meu blog pessoal na internet na noite de 09 de Agosto. Um site com mais de 700 mil visitas, que considero uma garrafa que jogo ao mar com bilhetes, na esperança que alguém leia. Eis que muitos leram o post. E as especulações começaram.

“O vereador vai renunciar”, diziam nas redes sociais e em conversas de bares da cidade. Recebi inúmeras mensagens por todas as vias, arguindo. Até que uma amiga querida disse:”Já que vai renunciar, acho que você deveria se matar em seguida!”. Senti-me emparedado pela onda de especulações e retirei o post do ar. Mas já era tarde. A imprensa havia se apoderado da informação e alguns veículos noticiaram que Sandro Araujo deu a entender que renunciaria ao mandato em sua volta ao plenário.

Estranho perceber como pessoas desconhecidas passam a julgar você e a tratá-lo como se fosse alguém próximo. Mesmo sem ter ideia do que acontece. O que levaria uma pessoa que atingiu vários objetivos difíceis na vida a querer se desfazer deles? Difícil entender, sem sombra de dúvidas. Mas nem sempre nossos espíritos são da forma que nossa forma física aparenta. Nas profundezas de montanhas de músculos e intelectualidades construídas, podem residir almas atormentadas por uma doença traiçoeira e silenciosa chamada depressão. Sim. Para muitos, apenas uma coisa de pessoas “mimadas”. Mas, seguramente, uma doença sem piedade.

Foi uma jornada difícil até aqui. Vinte e um anos de Polícia Federal, numa estrutura de segurança pública sem sentido e arcaica, onde gestores vaidosos perseguem sem cerimônia, quem ousa questioná-los. São capazes de agir de forma tão irresponsável, que causam traumas irreversíveis em seus servidores. Comigo não foi diferente. Aliado a isso, minha insistência quase quixotesca em acreditar na Educação como única mola propulsora da revolução social pela qual precisamos passar. Não, meus caros. Para a imensa maioria dos gestores públicos, não há interesse nessa mudança de rumos.

Por fim, uma entrada abrupta no mundo político. A impressão que tive foi que passei por uma porta e a partir disso comecei a ser olhado com desconfiança por milhares. O sistema é lento e parece ter sido construído para dar errado. E não culpo os colegas. Muitos eu até admiro. Mas já me confessaram frustrações parecidas com as minhas. “Queria mudar muita coisa, mas esse sistema não deixa.”

Eis que chegou a fatídica terça-feira, na qual fiz meu quase fatídico pronunciamento. Eu renunciei sim. Renunciei a essa forma tosca e sem sentido de fazer política. E continuarei sendo visceral. Sincero. E sempre respeitando as minhas ideias, que quase me levaram a deixar para trás a confiança em mim depositada por milhares. Recusar-se a ser mais do mesmo é simplesmente duro, doloroso e faz você pensar em desistir da própria vida.

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