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Por outro lado

Ozéas Lopes Filho é doutor em Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF)

Riscos e autonomia

Semanalmente renovamos nosso compromisso com a coluna, “por outro lado”, não deixamos de enfrentar alguns tabus que nos colocam em posições menos confortáveis, afinal, ser vidraça em terra que chove granizo é sempre mais complicado, todavia, se alguma coisa vale a pena na vida, esta é o risco que corremos. 

A propósito, conforme Anthony Giddens, a palavra “risco” é invenção da Modernidade, que se estabelece somente a partir dos séculos XVI e XVII, quando o homem passou a explorar o mundo na busca de novos horizontes, confirmando a tese já então admitida, que nosso planeta não era plano e findável nos cantos extremos. 

Prossegue o sociólogo inglês, atribuindo à palavra origem portuguesa ou espanhola, própria dos países que se valiam da navegação como meio, na descoberta desse mundo novo que se desenhava a cada viagem; o “risco” estaria ligado ao perigo, ao desconhecido, a algo advindo de uma vontade divina, portanto, fora do controle humano. 

Há também quem sustente, que “risco” deriva do italiano risicare, por sua vez derivado do baixo latim risicu, riscu, que significa "ousar". Neste sentido, o “risco” é uma opção e não um destino. 

Todavia, uma coisa parece certa e comum, a palavra é tão moderna quanto o telescópio, a bússola, a circunavegação ou o ônibus espacial, portanto, é fruto dessa Era que sucede a medievalidade, é o resultado emocional do enfrentamento do desconhecido. 

Sob esse enfoque, na antiguidade ou Idade Média não se corria risco, não havia justificação para tal, nesses períodos da história o que imperava era o destino, portanto, ao se empreender alguma jornada, o que se fazia era cumprir uma ordem cósmica, universal e inalterável, determinada por um poder superior, que atribuía a cada um seu lugar na terra e sua caminhada, tudo dependia da “fortuna” – sina. 

Ao homem pré-moderno não cabia escolha, recebia uma “missão” para a vida e a cumpria, não por acaso, os gregos vão dizer que fazer justiça era dar a cada um o que lhe pertencia por direito, assim, o que era devido ao ser, não passava de atribuir-lhe seu destino; escravo ou senhor, homem ou mulher, guerreiro ou pastor, pedinte ou soberano, cada um, devidamente “encaixado”, num mundo previamente esquadrinhado por um Grande Arquiteto do Universo, seguia seus desígnios e direitos advindos do Criador. 

É a Modernidade, que surge da razão, que questiona esse determinismo ontológico-metafísico; é a razão humana, conquistadora do mundo, com suas teorias e comprovações, fundadas nos princípios que a ação racional é capaz de alterar os seus fenômenos, quem vai consagrar o ponderável; não havendo mais a certeza de um Universo desenhado e acabado, ou que destino o homem tinha dever de seguir, portanto, é na dúvida que o risco passa a existir, na possibilidade do erro de avaliação em relação a um acontecimento futuro, o risco se torna presente. Viver na Modernidade, passou a ser equivalente a viver sob o risco de se estar errado. 

Embora seja tentador abdicarmos dos perigos da vida – parece tão bom não sermos compelidos a tomar decisões que nos coloquem em risco ou precisamos pensar por qual o caminho seguir –, no entanto, a apatia Moderna é verdadeira cilada. “É tão cômodo ser menor” – Kant –, deixando que a sorte ou algum livro faça as vezes do nosso entendimento, porém, de que vale a preguiça e a covardia se com ela o mais longe que chegamos é nas mãos de algum dono que nos alimente, enfim, a coleira que conduz pela mão de um guia, é a mesma que subtrai a autonomia.

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