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Por outro lado

Ozéas Lopes Filho é doutor em Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF)

Sem pauta para começar

A melhor maneira de perceber que está faltando alguma coisa é quando vamos procurar por ela e não encontramos no lugar que tínhamos deixado, hoje comigo foi assim, queria falar de como gosto do verão, mesmo com todos os desconfortos que o calor trás, porém, o verão sempre chegou com alegria e trazendo a energia da renovação de hábitos, costumes e rompendo barreiras.

Foi no verão que a Leila Diniz mostrou sua barriga grávida de biquíni na praia, para quem quisesse ver e falar, a propósito, o próprio biquíni é coisa de verão; foi em 1987 que o Solano Star despejou na costa brasileira vinte e duas toneladas de maconha enlatada, criando o inesquecível “Verão da Lata”; no verão acontecem as estreias de cinema e teatro, surgem novos talentos e, não por acaso, é quando as pessoas preferem tirar suas férias; no verão até guerrilheiro desbunda em tanga de crochê; enfim, é no verão que as coisas mais inventivas e agradáveis acontecem.

Mas por onde anda nosso verão, suas novidades e criações, por onde andam nossas alegrias? Tirando o pessoal habitué das quadras, alguém sabe cantarolar um refrão de samba ou conhece algum enredo, mesmo estando há menos de um mês do carnaval? Em pleno ano olímpico, o que mais se comenta são obras de cimento e aço, não se conhecem os atletas, suas modalidades e esperanças. Sem novidades, do mesmo que se tem é a falação da crise política-institucional, que ranheta nos ouvidos em horário nobre televisivo e em maçantes sites patrocinados.

Não é possível que o nosso inventário de verão permaneça o mesmo da campanha de 2014, deve haver vida inteligente pós-eleitoral dentro de todos nós, no entanto, ao que se denota, nossas pautas sociais desapareceram em verdadeiros buracos negros, afastadas do comento e do diálogo pelos mais os mais prepotentes veículos midiáticos.

As necessidades não econômicas ou partidárias, estão ocultas às discussões, todavia, muitas delas embora polêmicas, são as que mais nos comovem e nos tocam no dia a dia. Parece que no país nada acontece que não tenha sido projetado ou retirado da Capital Federal, entretanto, bem sabemos os limites criativos que grassam por aquelas terras.

Alianças, partidos, economia, corrupção, de trás para frente e da frente para o final da fila, num ciclo interminável de repetições com nenhuma originalidade, cheio de alegorias jurídicas e pitadas policiais, é nisso que se resumiu o país?

Afinal, que fim levou toda aquela discussão sobre descriminalização do uso de drogas, por onde anda a questão da legalização do aborto, quantas linhas e tempo foram dedicados ao meio ambiente – mesmo com a tragédia de Mariana/MG –, o que há de novo nesse verão que interesse as minorias e aos genuínos interesses da maioria, no que diz respeito a vida e como ela pode ser mais feliz?

Por onde anda o verão e sua agenda libertária, foi engolida por algum estatuto retrogrado-fundamentalista e proibida por algum redator mais comedido?

Por outro lado, precisamos voltar a conversar, nos encontrando nas esquinas para o chopp de final de tarde, junto com o por do sol, para nos conhecermos melhor, afinal, ninguém é tão individualmente suficiente que não necessite de um outro na vida para se construir como gente; precisamos falar de sinceridade observando o que os olhares nos respondem; é fundamental levantar bandeiras e derrubar mitos, assim como, não podemos ceder a mesmice orwelliana, dominadora, apática e fria, como um inverno na Oceânia, ainda dá tempo de construir uma pauta coletiva para este verão; precisamos voltar a sorrir, nos reinventar todos os dias, guardar nossos olhares pessimistas e discutir nossas essências, angustias e expectativas, endurecendo quando necessário, porém, “sem perder a ternura jamais”.   

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