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Por outro lado

Ozéas Lopes Filho é doutor em Sociologia e Direito pela Universidade Federal Fluminense (UFF)

Simples necessidade

Já que a vida não basta, então inventamos a arte (Gullar), assim como navegamos, porque precisamos, embora, nem sempre precisemos da vida tanto assim (Pessoa). Então, por que escrevemos se a vida já é suficiente, para nos bastar em necessidades e preencher o tempo que nos é destinado, por que o homem na sua história escreve, por necessidade ou prazer? 

Nem sempre o homem valeu-se da escrita como tecnologia capaz de transmitir sua cultura por gerações; ainda que se encontrem registros através de pinturas rupestres, estas não tinham a uniformidade que a escrita formalizada possui de registrar acontecimentos para conhecimentos futuros com certa fidelidade, além do que os desenhos pré-históricos, até onde foram descobertos, pouco refletem além de determinados flagrantes, estáticos, inflexíveis, carentes de maior exercício hermenêutico, entretanto, há que se defendê-los como uma pré-escrita, embora se deva entender da “progressão do picto-gráfico [escrever a figura]; para o ideográfico [escrever a ideia]; e então para o logo-gráfico [escrever a palavra]” (Lévy). 

 Dessa forma, nas sociedades remotas imperava a cultura transmitida pela oralidade primária, todavia, essa tecnologia era por demais apoucada para garantir a reprodução do conhecimento devido à falta de um ponto fixo de apoio, precária como registro, sua reprodução estava ligada a contos, narrativas, danças, gestos ensaiados e reproduções imitadas, para que não fossem perdidas as histórias. Eis uma boa dica para entender a própria mitologia, contada em tramas, baseadas em lendas e tradições, que se repetiam para não se perder com o tempo. 

Assim, sua fragilidade como modo de averbação impulsionou o homem na busca por novos caminhos, ainda que a princípio não voltassem suas atenções para tal necessidade ou fossem essas suas pretensões, no entanto, após a descoberta da escrita o mundo nunca mais foi o mesmo, igualmente como os sonhos humanos, que tomaram formas e puderam ser assentados e, em pretensão divina, passaram a ser transmitidos para todos os tempos.  

Não que na sociedade contemporânea a oralidade tenha perdido importância, muito pelo contrário, a maior parte dos nossos conhecimentos ainda são adquiridos e transmitidos pela via oral como forma de narrativa. Observamos e imitamos desde nossos primeiros anos de vida, todavia, nessa oralidade secundária há pontos fixos de referência, onde são depositados registros, cada vez em maior número e complexidade, fatos que a memória humana não teria condições de armazenar e retransmitir durante uma vida, tão pouco refletir em mínimas proporções. 

Par e passo com a técnica, o estilo de expressão se altera durante esse trajeto; da via oral à poesia, depois à prosa, posteriormente à binariedade, tudo é líquido e, em movimento criativo indeterminado, se espalha e flui para o futuro de maneira irreversível, enquanto durar a caminhada humana, navegando e não se bastando em ideias silenciosas. 

 
Porém, mais que prática ou utilidade, escrevemos também por prazer ou para deixarmos nossas marcas, a permanência da ação; não a mera narração de nossa existência, mas a narrativa histórica que representa nosso pouso terreno, as glórias de sentir o mundo e interpretá-lo, para finalmente descrevê-lo, ainda que como protagonistas possamos não estar mais presentes quando e se formos lidos.

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