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Dom José Francisco

Dom José Francisco Rezende Dias oferece uma reflexão sobre a evolução da sociedade e como a fé contribui para essas mudanças de maneira positiva

Um milagre chamado Pequeno Príncipe

É bem provável que o Pequeno Príncipe tenha nascido numa cama de hospital, em Nova York, onde Saint-Exupéry se restabelecia de um acidente aéreo. Um amigo levou-lhe uma caixa de aquarelas. E, na solidão da internação, deu-se forma à maravilhosa parábola do menino-viajante apaixonado por sua rosa. 

O desenraizamento moderno, o processo de consumir sem consumar, o fosso entre a técnica e a humanidade produziram desertos humanos. Daí era preciso que um deserto escancarasse a desertificação interna. É isso que o Pequeno Príncipe faz: no meio do deserto, ele cria um poço para ser encontrado. “A verdadeira viagem de descoberta não consiste em buscar novas paisagens, mas em adquirir um novo olhar” (Marcel Proust). 

Cézanne também via isso nas suas maçãs. Ele pintava sempre os mesmos objetos, por eles mesmos e apenas por sua ressonância espiritual. “O que eu procuro traduzir enxerta-se na própria raiz do ser, na fonte inapreensível das sensações” – ele dizia. A técnica usada de sobreposição de cores exigia esperar que a primeira tinta secasse antes de introduzir a seguinte. Era um processo lento, rigoroso, contemplativo. O tempo da espera. As maçãs de Cézanne existiam apenas para serem contempladas. O que levou Simone Weil a dizer que só contemplaremos uma maçã quando não tivermos a intenção de comê-la. 

Mas isso exige o tempo da espera. 

Era assim que Federico Fellini se comportava. Ele tinha o hábito de chegar sempre bem antes da hora aprazada, e ficar caminhando pra-lá-e-pra-cá. E quando alguém lhe perguntava por que fazia isso, ele respondia que era pelo prazer de esperar. 

Nossa cultura não sabe mais o que é isso; ela mitificou tolamente a eficácia. Cancelou o valor da espera como antiquada, obsoleta, irritante. No experimentalismo instantâneo dos afetos, a espera tornou-se um peso morto.

Mas não será esse desejo de instantaneidade, justamente, uma defesa dissimulada, nada além do medo de que nesse mundo apressado não haja ninguém que nos espere? Tudo ficou arriscado e precário. Não é à toa que algumas pessoas adquiriram o hábito contumaz de sempre chegarem atrasadas em todo lugar: é para ter alguém que as espere. Caso contrário, quem as esperaria?

A solidão morre de medo da espera.

Os homens hipermodernos, polivalentes, aparelhados de tecnologia e multifuncionais estão se tornando cada vez mais dependentes, insatisfeitos, distantes e solitários. Há muito com que se comunicar e quase nada a ser comunicado. Quem ainda espera do outro lado do celular?

Quem não esperar, pacientemente, pelas sementes que lançar na terra jamais provará da alegria de vê-las florir.

Numa cama de hospital de Nova York, entre lençóis e solidão, nasceu um lindo conto. Nasceria de outra forma? Decerto. Mas nasceu daquela forma, num momento em que a solidão não inutilizou a espera, e produziu um milagre chamado Pequeno Príncipe.

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