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Mão na Massa

O chef Romeu Valadares apresenta as novidades do mundo gastronômico e dicas sobre pratos saborosos e cheios de detalhes curiosos

Quem tem boca vai a Roma

Quem tem boca vai a Roma

 

Foto: Colaboração Romeu Valadares

Nossa percepção de lugares turísticos é, na maior parte dos casos, deturpada. Nos acostumamos com a trapaça, vemos o turista que vem ao nosso país sofrer com ela e sofremos nós mesmos ao viajar pelo Brasil. Visitei Roma algumas vezes, mas dessa vez tinha a família completa, éramos 14, crianças incluídas, para comemorar os 80 do vovô. Posto isso, fica entendido que estaria imediatamente descartada a possibilidade de reserva naquele tal restaurante, bem-falado, sobre o qual se lê e se sonha visitar. Poderia ser uma armadilha, arredio aos restaurantes grandes, nos quais a vista para a história talvez fosse justificar a comida ruim. Refém das circunstâncias, fiz a melhor das descobertas: na Itália, o ingrediente existe num patamar superior, beira o sublime e para completar há o amor apaixonado pela comida! Com essa realidade almocei e jantei com 2.000 anos de história do outro lado da rua, comi e bebi bem. As diversas massas que passeavam pela mesa, sempre comprida, testava com a chancela de tio cozinheiro, estavam sempre perfeitas no ponto, uma aula para as crianças sobre o que viria a ser o tal “al dente”. Na Piazza della Rotonda, fica o Parthenon Romano, construído no ano 126, cercado de restaurantes corretos, mas nessa peregrinação para mostrar a cidade aos jovens e dos diversos, honestos restaurantes que visitamos, ficará marcada a visita ao Coliseu, sempre um grande impacto, que o Ridley Scott ainda fez o favor de ampliar, com seu genial “Gladiador”. É claro que a fome varou a trupe como lança jogada da arena e a decisão, já acalentada por outros riscos bem-sucedidos, foi pela primeira casa com capacidade para abraçar nosso número: o jovem, fundado em 1956, “Pasqualino al Colosseo” (Via dei SS. Quattro, 66 00184 Roma). Entre na pequena dispensa por uma porta de vidro e escolha que tipo de defumado ou embutido que será fatiado à transparência. As massas, todas no ponto de cozimento perfeito, carregavam molhos saborosos que atestavam o frescor dos ingredientes, o pão deixou a desejar, mas o azeite mostrava, com ardor, sua juventude e aroma, dos melhores já provados num restaurante. A massa com bottarga, aquela ova de tainha salgada, seca e ralada sobre a massa, era ótima, mas o prato ao lado com uma massa fresca, feita na casa e molho de alcachofras, roubou a cena, não tinha apelo de cor, mas uma garfada selava para sempre o gosto na memória. Numa Roma turística não percam o serviço do Doni, atenciosíssimo e profissional, me ajudou a selar um almoço delicioso com a melhor grappa da casa. No fim da rua tinha um coliseu, tinha um coliseu no fim da rua.

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