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Mais que mães, elas são parceiras

Para passar mais tempo ao lado dos filhos, elas andam de patins, fazem aulas de sapateado e até pilates com os pequenos

Viviane Silveira e Miguel: ela vai de patins e ele de skate, mas sempre juntos

André Redlich

Ao longo dos séculos, a população feminina tem se adaptado às mudanças sociais e vem sendo obrigada a identificar, desde muito cedo, suas verdadeiras emoções e interesses para contornar as adversidades da vida moderna. Por isso, além de assumir o papel da figura materna, as mulheres precisam ajustar seus horários com o propósito de desempenhar múltiplas funções. Entretanto, administrar as responsabilidades diárias com o exercício de ser mãe não é uma tarefa fácil, mas algumas tiram de letra este desafio. Apesar da rotina agitada, elas fazem questão de conciliar seus horários com o dos os filhos, com um único objetivo: aproveitar cada minuto livre ao lado deles. Isso é o que se pode definir como a arte de ser mãe.
O nascimento de um filho é, sem dúvida, um momento de grandes mudanças, no qual a mulher sente a necessidade de avaliar suas obrigações e inverter a ordem das prioridades. A principal dificuldade desse período é conciliar o desejo de crescer profissionalmente com a vontade de acompanhar cada fase importante da vida do filho, como o primeiro dia de aula, o primeiro dentinho a cair ou o primeiro 10 no boletim. 
Para contornar essa realidade, muitas mulheres tomam para si a responsabilidade de ser mãe e driblam os obstáculos que dificultam o relacionamento com os filhos. Não é à toa que algumas delas que desempenham funções profissionais de segunda a sexta-feira deixam de lado a seriedade nos fins de semana e se divertem em parques de diversão, playgrounds, pistas de skates... 

A empresária Viviane Silveira, 36 anos, é uma delas. Quando está longe do trabalho vive uma espécie do que podemos chamar de “segunda infância” ao lado do filho Miguel Silveira Vieira, 5 anos. Ela conta que após a maternidade aprendeu a gostar de atividades radicais em função dos gostos do primogênito.

“Me arrisco a andar de skate, patins e participo até de corridas, porque sei que são exercícios sadios que agradam ao Miguel. Quando tenho tempo livre não faço corpo mole, vamos a vários locais como o skateparque ou o pátio do Teatro Popular para aproveitar o dia. Acredito que esses pequenos momentos são fundamentais para o meu amadurecimento como mãe e para a formação de caráter do meu filho, que me tem como espelho e exemplo”, afirma a empresária.

De acordo com a psicanalista Anna Mehoudar, fundadora do Grupo de Apoio à Maternidade e Paternidade (Gamp), embora o cenário das empresas nacionais alimentem a ideia de que o funcionário deve “vestir a camisa” como prova de competência, cabe à mulher tomar a postura de enxergar a dinâmica do seu dia a dia e avaliar o equilíbrio dos seus papéis, sendo honesta consigo mesma. Para a especialista, é possível dedicar-se ao trabalho e aos filhos, sem excesso de exigências e desgastes, já que as brincadeiras infantis beneficiam crianças e adultos.

“As atividades conjuntas alimentam as relações afetivas e cooperam para que o indivíduo tenha noção de si mesmo. Contudo, não é preciso inventar um parque de diversões a cada dia ou presentear a criança com frequência. Os filhos sentem a necessidade de ter a presença da mãe em um ambiente de amor e respeito. Por isso, criar uma rotina de brincadeiras saudáveis com a criança pode ser uma oportunidade de exercer a parceria e recuperar o sentido lúdico da vida, que muitas vezes se perde devido ao excesso de trabalho”, esclarece a psicanalista.

O gosto pela dança foi o que aumentou ainda mais a cumplicidade entre a empresária Lysiane Silveira, 41 anos, e a filha, Mel Silveira Barreto, 12. Elas são apaixonadas por sapateado e sempre frequentaram um estúdio de dança em Icaraí, porém, quando surgiu a oportunidade de integrarem a mesma turma, a mãe não pensou duas vezes e tratou logo de mudar o horário para acompanhar a filha. Lysiane confessa que no início achou que a atitude poderia causar constrangimento para Mel, mas para sua surpresa, a chance de realizar uma atividade prazerosa ao lado da filha contribuiu ainda mais para estreitar os laços e a afinidade entre elas.

“Durante as aulas, assumimos o papel de amigas de turma e o professor nos trata como alunas comuns, sem estabelecer qualquer tipo de relação. Isso é ótimo, porque aprendemos e erramos juntas. Essa é a parte do dia que esqueço as preocupações e me distraio. Preservar esse momento é uma forma de estar próxima da minha filha, mostrando que posso ser muito mais que uma pessoa responsável pela educação e o sustento dela. Sou a amiga e companheira que é adulta, mas também pode assistir novela de adolescente, ver filmes e ouvir música junto nas horas vagas”, assegura Lysiane.

No caso das mulheres que são mães de primeira viagem e têm filhos pequenos, o principal desafio é retomar a rotina e encontrar uma atividade em que o bebê possa estar presente. Na maioria das vezes, esse fato torna-se um tormento, porque muitas mulheres não se sentem seguras em deixar o bebê com uma babá, ou não têm parentes próximos que possam ficar com a criança por algumas horas. Outro obstáculo que elas enfrentam é o medo da reclusão devido ao período pós-parto e o desejo de ter contato com o mundo exterior.

Para a fisioterapeuta Fernanda Barbosa, 33 anos, o pilates foi a salvação. Desde o início da gravidez da pequena Helena, agora com 1 ano, ela pensava em como faria para conciliar a maternidade e a dedicação aos exercícios físicos, já que sua família mora em São Paulo, e o marido tem uma carga horária de trabalho muito intensa. Diante desta realidade, a fisioterapeuta se uniu  à amiga Priscila Matos, 28 anos, que está grávida de quatro meses, e decidiu abrir um estúdio de pilates para mães e bebês.

“Eu queria adaptar meus horários em prol da Helena, sem ter que levá-la a locais com excesso de barulho, por exemplo. Então, comecei a me exercitar com o auxílio do sling. Isto é, bastava posicionar a pequena de frente em vertical,  tipo canguru, para começar os exercícios. Aos poucos, fui percebendo que alguns movimentos são ótimos para as articulações, músculos e coluna. Neste contexto, a Helena é meu aparato de peso, o que é ótimo para nós duas”, conta a fisioterapeuta.

Já a analista de sistema Fernanda Ruiz, 34 anos, que também pratica pilates com a filha Isabela, de 4 meses, lista outras vantagens. “A partir do momento em que a mãe sai de casa com seu bebê para desenvolver qualquer tipo de exercício, ela reconhece que é independente e capaz de retomar sua rotina diária”, argumenta. E Fernanda completa a relação de benefícios que a iniciativa proporciona: “Durante as aulas, quando me olho no espelho segurando minha filha, resgato a autoestima. É normal que depois da gestação a mulher se depare com diversos conflitos em relação a ela mesma. A criança deve ser nossa prioridade, porém, a mãe não pode se anular nunca”. 

Com isso, Fernanda deixa uma dica para as mães: “O ideal é organizar sua vida de modo que ambos possam viver em harmonia, mesmo que os problemas existam. Acredito que a maternidade é uma dádiva, e a mulher pode cumprir sua função como mãe, profissional, esposa e ainda assim se sentir uma verdadeira rainha com sua princesa nos braços, já que é assim que me sinto”.

Segundo o especialista em administração do tempo Christian Barbosa, para viver de forma equilibrada, a mulher precisa compreender que o mais importante em sua vida não são os filhos ou o marido e, sim, ela mesma. Ele ressalta que o efeito a longo prazo das múltiplas funções é a infelicidade, já que a pessoa que direciona as atenções para as urgências do trabalho, casamento, casa e filhos despreza os próprios interesses.   

“A mulher que não tem tempo para si mesma, não possui disponibilidade para mais nada. Esse é um conceito simples e difícil de ser aplicado na prática, uma vez que a demanda de planejamento exige que o ser humano tenha uma visão centrada. Quando a profissional está tranquila em sua vida pessoal, consequentemente ela fica mais calma e esse fator resulta no aumento da produtividade. Dessa forma, é possível concluir que a figura feminina pode trabalhar, cuidar dos filhos e ainda encontrar tempo para o lazer. Contudo, ela precisa elaborar estratégias criativas para conciliar todas as funções, priorizando a satisfação particular”, orienta o especialista.

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