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Crianças na arte

Passando uma temporada no Brasil, a artista plástica e curadora Buana Lima fala sobre o portal que criou para os pequenos divulgarem suas obras

Buana, acompanhada de seu filho Hugo Sérgio, hoje com 9 anos. Ao lado, obras de outras crianças e jovens cadastrados

Foto: Lucas Benevides

É possível observar nos traços e no pensamento de vários artistas que contribuíram para a identidade dos movimentos contemporâneos uma vontade de acessar o potencial criativo característico do imaginário infantil. Picasso, por exemplo, no auge de sua maturidade artística declarou: “Levamos muito tempo para nos tornarmos jovens. Quando vejo pinturas de crianças, dou-me conta de que só agora posso iniciar meu trabalho de juventude. Quando tinha a idade delas, era capaz de desenhar como Rafael. Mas levei anos para aprender a desenhar como uma criança”.

E é com o objetivo de abrir os olhos da sociedade para este tesouro que inspirou a obra de Picasso que a jornalista, artista plástica e curadora de arte Buana Lima, carioca de 46 anos, aprimorou a ideia dada por seu filho, Hugo Sérgio. Com apenas 8 anos e já envolvido em diversas formas de manifestação artística, o pequeno deu a ideia de divulgar seus trabalhos em um site.

“Na Argentina, sou sócia do portal Estimarte, que orienta investidores e artistas sobre o mercado da arte e, no ano passado, meu filho, que também pinta, começou a pedir para que eu colocasse as ‘obrinhas’ dele no site. Eu falei que não dava, porque era um site voltado para artistas adultos. Foi aí que ele sugeriu: ‘Por que você não cria um Estimarte Kids?’. No mesmo dia comecei a pesquisar, vi que não tinha nada parecido e criei o Universo Art Kids, que completa 1 ano em julho”, conta Buana.

A princípio, o portal tinha o propósito de reunir obras de pequenos artistas na faixa etária de 3 a 18 anos. Com o tempo, a demanda de jovens na faixa de 20, 21 anos começou a aumentar, o que fez com que ela “esticasse” a idade limite para 21. Buana explica que o que tornou o projeto mais especial foi ter sido uma ideia de criança para crianças, e que sua função no portal é mais do que simplesmente divulgar. Hoje, são 36 cadastrados.

“Quero ajudar a dar continuidade ao trabalho da criança e do jovem. Via uma espécie de escassez da figura infantil no mercado de arte. Uma exposição aqui, um concurso ali. Ou até os próprios ateliês animavam de fazer uma exposição de um aluno, e depois não prosseguiram. Notei uma espécie de inconstância”, comenta.

Segundo Buana, uma pessoa nasce artista, mas tem muitos pais que não conseguem ver isso no filho. Outra constatação em suas pesquisas foi que muitos ateliês, inclusive na Argentina, dizem que os pais costumam colocar as crianças em cursos de arte só para saírem de casa e ocuparem o tempo e a mente.

“Às vezes, você tem um grande talento que pode se tornar um artista plástico, um designer, enfim, uma pessoa que vai viver de arte. Me baseando nisso, fiz a primeira exposição do portal em Buenos Aires, e lotou”, avalia.

Na exposição inaugural participaram crianças do Haiti, Chile, Angola, Colômbia, incluindo outros países que também participam do portal, mas não puderam estar presentes na exposição. Nesses casos, ela manda fazer gravuras a partir de fotos das obras mandadas por e-mail pelos pais.

Portal tem como propósito de reunir obras de pequenos artistas

Foto: Divulgação

O feedback do público foi tão satisfatório que a motivou a entrar em uma iniciativa ousada para um projeto de apenas um ano: “Vamos expor os trabalhos das crianças por embaixadas do Brasil em diversos países, com o tema ‘Alegria brasileira’. A criança, adolescente ou ateliê que queira encaixar o trabalho de algum aluno terá que pintar algo que remeta ao tema. Nós iremos estrear a série com uma exposição na embaixada do Brasil em Buenos Aires no dia 6 de abril, depois vamos participar da inauguração do Centro Cultural da embaixada do Chile com essa mesma exposição, depois partiremos para as embaixadas da Angola e do Uruguai. Para o próximo ano ainda estamos sondando para quais países iremos”.

Em janeiro deste ano, Buana veio passar uma temporada no Brasil para fazer mais contatos, pois ela confessa que, apesar de já terem pessoas até do Amazonas envolvidas no projeto – além disso, em setembro ela fará uma exposição do Universo Art Kids lá – por enquanto, os brasileiros ainda são minoria no portal. Em sua maioria, os integrantes são argentinos e chilenos.

O portal tem foco na pintura, mas contempla todo tipo de manifestação artística. O processo de ingresso é feito da seguinte forma: a criança se cadastra no portal com a devida autorização dos pais, manda fotos de 10 obras, ou vídeo, em caso de arte em movimento. A equipe seleciona as obras e expõe no portal. Em caso de interesse de algum investidor, eles passam o e-mail dos pais para negociação. Para quem não é membro e quer participar da série de exposições nas embaixadas, o procedimento é entrar em contato diretamente com o portal para fazer a inscrição, e os que não puderem levar as obras para a exposição, devem avisar com antecedência para a preparação das gravuras.

“Devemos começar da raiz. O Universo Art Kids existe para a criança não precisar se deixar levar por ninguém. Para ela saber que sempre vai ter um lugar que poderá expor, e terá seu trabalho valorizado. Eu tenho certeza que isso ajudará a construir um ser humano seguro, porque mesmo que ele não opte por um dia ser um artista plástico, vai ter em mente que é capaz de ser dono do seu próprio destino”, filosofa.

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