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Entre a cruz e os caiapós do Sertão

Suelen Julio lança pela Eduff livro sobre Damiana da Cunha

Fruto da dissertação de mestrado da historiadora e professora Suelen Julio, livro resgata a trajetória da mulher e indígena que impediu a aniquilação dos índios caiapós

Foto: Divulgação

Numa época em que o destino da sociedade era regido por uma autarquia imperialista, a emersão de figuras que lutassem pela preservação das raízes étnicas e culturais brasileiras foi fundamental para que, apesar da evidente atual degradação, hoje, esses povos ainda pudessem denunciar a violação de seus direitos e discutir a importância de sua identidade perante a aristocracia dominante. Foi com o objetivo de divulgar a importância de uma dessas figuras que a Editora da Universidade Federal Fluminense (Eduff) está lançando o livro “Damiana da Cunha: uma índia entre a ‘sombra da cruz’ e os caiapós do sertão”, fruto da dissertação de mestrado da historiadora e professora Suelen Julio. O livro resgata a trajetória da mulher e indígena, que, segundo a própria Suelen, foi a responsável por impedir a aniquilação dos índios caiapós que habitavam a região de Goiás no século XIX.

“A Damiana era uma ponte entre a sociedade colonial e os caiapós, fazendo o que era possível naquele momento. Ela tinha sido criada no aldeamento, ao mesmo tempo que não perdeu o vínculo com os caiapós que não faziam parte da sociedade colonial. Ela buscava atraí-los para a sociedade colonial. Mesmo não estando isento de conflitos, o aldeamento também pertencia a ela, pois era onde ela tinha sido criada. Era seu espaço de poder”, explica Suelen.

Os aldeamentos eram locais que funcionavam como uma espécie de escola, onde os índios se instalavam, submetidos às normas impostas pelos colonos, e aprendiam o estilo de vida colonizador. Damiana foi uma privilegiada se comparada à situação comum dos caiapós. Tinha ligação com autoridades de ambos os lados: era filha de cacique e afilhada do governador, portanto, era familiarizada com o sistema de códigos da sociedade colonial. Mas, mesmo assim, não se aproveitou disso. Se manteve ativa, defendendo e atendendo aos interesses indígenas.

“O que a historiografia tem buscado hoje é não apenas ver como indígenas aqueles que estão fora da sociedade colonial, mas também aqueles que estão dentro. Considerando como eles se veem como indígenas; como são vistos como indígenas; como eles lutam pela sua sobrevivência; ou até como existem diferenças dentro do próprio grupo. Uma coisa era ser a Damiana. Outra coisa era ser um indígena que eles chamavam de ‘comum’, pois não possuía nenhum tipo de parentesco com autoridades. Muitos desses ‘comuns’ entravam no aldeamento e viam ali um estilo de vida que não os interessava ou que não era suportável, principalmente pela carga de trabalho – da qual a Damiana estava isenta, por exemplo”, comenta. 

Para Suelen, conhecer a história de Damiana é uma ponte muito interessante para aproximar várias questões, pois é mais do que uma biografia. Ela aponta que, através da Damiana, é possível refletir sobre questionamentos como: “O que era ser uma mulher indígena naquela sociedade colonial?”; “Qual é a ação possível de mulheres indígenas naquela região?”; “Quais eram as leis, costumes e coisas que pesavam sobre a vida dessas mulheres?”; e “De que forma as pessoas indígenas se moveram naquela sociedade?”.

Sua aproximação com a indígena começou ainda no período de graduação, quando fazia iniciação científica orientada pela historiadora Elisa Garcia, cuja linha de pesquisa é focada na História Indígena. Suelen, por sua vez, estava muito envolvida com História das Mulheres, o que a motivou a procurar um tema que acoplasse as duas coisas. Observando seu interesse, Elisa lhe indicou um pequeno artigo dedicado a Damiana, escrito pela historiadora norte-americana Mary Karasch. 

“Fui atrás e comecei a encontrar diversas coisas. No início, eu só tinha como fontes crônicas de moradores de Goiás, da época, e eu pensei: ‘Será que ela existiu mesmo? Será que não é coisa dos cronistas?’. Mas fui encontrando outros documentos, até que estive em Goiás, no Arquivo Histórico Estadual, e lá encontrei documentos administrativos, de governadores falando sobre a Damiana, pedindo para encontrar com ela, querendo discutir sobre o trabalho dela de atração dos caiapós. Então, foi dessa forma que eu cheguei ao tema”, lembra.

No decorrer de seu mestrado em História Moderna, por se tratar de uma personagem que nasceu no fim do século XVIII e atuou no início do século XIX, a pesquisa foi toda através de arquivos e fontes históricas, além de fazer uma reconstituição do contexto da capitania de Goiás, que foi onde Damiana viveu. 

“Era um momento em que cada vez mais aquelas populações estavam sofrendo ataques da sociedade colonial sobre suas terras, e estava cada vez mais difícil de viverem no sertão, pois era uma região em que a sociedade colonial e, posteriormente, a sociedade brasileira se expandiram. Através do caso da Damiana, trabalhei principalmente aquelas populações indígenas que acabam sendo integradas a essa sociedade colonial. Inclusive, nesse artigo da Mary Karasch, ela já dizia que uma das coisas que possibilitou a sobrevivência dos caiapós enquanto grupo foi justamente esses momentos que eles passaram nos aldeamentos, onde aprenderam tanto códigos da sociedade colonial como também manejar armas de fogo, o que os ajudou em conflitos contra os colonos”, pondera. 

 

 

 

 

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