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Ney revisitado

Marcos Sacramento e Soraya Ravenle interpretam canções de Ney Matogrosso em espetáculo que estreia dia 22

Espetáculo terá inserções de voz e imagens de Ney durante a apresentação. O intérprete cedeu fotos inéditas para a peça

Fotos: Leo Aversa / Divulgação

Figura conhecida de Niterói, a produtora teatral Cinthya Graber passou por uma cirurgia no início do ano e, após 60 dias sem sair de casa, no momento em que se sentiu bem, o primeiro lugar para onde se deslocou foi a casa de Ney Matogrosso. Cinthya tinha tomado uma decisão e precisava consultar o cantor, compositor e amigo – desde 1998, quando trabalharam juntos no musical “Somos Irmãs” – para ganhar um novo propósito para sua vida.

“Passei por um momento muito difícil e precisava sentir um prazer profundo. Esse projeto me concedeu esse prazer, me devolveu alegria. Não há nada que eu goste tanto quanto meu trabalho: produzir teatro e, antes de qualquer coisa, precisava saber se o Ney gostaria da ideia. Saí da casa dele com a bênção para fazer algo. E falei: ‘É aqui que vou voltar à vida, vou me reentrar’. Quando saí de lá, me senti uma fênix”, comemora Cinthya. 

Isso tudo aconteceu no fim de março e, de lá pra cá, “Puro Ney”, espetáculo multimídia baseado na trajetória musical de Ney Matogrosso, foi montado em tempo recorde. A estreia será no Teatro dos Quatro, dia 22. No palco, os niteroienses Soraya Ravenle e Marcos Sacramento, junto de uma banda, vão interpretar 24 canções do inimitável, corajoso e transgressor artista brasileiro. A direção-geral, roteiro, arranjos e direção musical são assinados por Luís Filipe de Lima.

O primeiro espetáculo multimídia que Luís Filipe dirigiu, ao lado de Katia B, foi “Coletivo Samba Noir”, que esteve em cartaz no Rio em 2014. De acordo com o diretor, mais do que um luxuoso pano de fundo, as projeções de “Puro Ney” são fundamentais para o espetáculo.

“Gosto de trabalhar com projeções de vídeo no palco, que oferecem sempre múltiplas possibilidades criativas. Os irmãos Rico e Renato Vilarouca, que assinam cenário e videografia de ‘Puro Ney’, fizeram um trabalho bastante eloquente e sensível. A única dificuldade de se trabalhar com vídeos em cena é encontrar uma iluminação equilibrada e precisa. Mas estamos muito bem servidos com a presença do iluminador Paulo César Medeiros, um craque que tem larga experiência nesse tipo de espetáculo”, ressalta Luís, também amigo de Cinthya, com quem trabalha pela primeira vez apesar da amizade de mais de 30 anos. 

O espetáculo é dividido em cinco blocos. O primeiro trata da identidade artística de Ney, marcada pela transgressão. O segundo resume o conceito de latinidade, tão presente em sua trajetória. O terceiro bloco reúne canções que convidam à reflexão, ora num viés existencial, ora marcadas pela crítica social. O quarto faz um pequeno apanhado de canções de Carmen Miranda gravadas tanto por Ney quanto por Soraya Ravenle e Marcos Sacramento. O último bloco, o mais explosivo de todos, fala de amor e sexo.
“Por acaso, a primeira canção que aprendi a tocar no violão, aos sete anos, foi ‘O Vira’, sucesso de Ney recém-lançado na época. Mais uma razão afetiva para eu me lançar nesse trabalho com paixão. Ney é uma das figuras mais importantes da história de nossa música”, celebra Sacramento. 

Num jogo cênico bastante dinâmico, as falas estão concentradas apenas na voz de Ney, que gravou imagens especialmente para o espetáculo e que estão projetadas no videocenário. Soraya e Sacramento, além de cantar, têm um trabalho de corpo muito expressivo, conduzido por Lavínia Bizzotto, diretora de movimento.

“Criei os arranjos musicais inspirado pelo espírito transgressor de Ney. Assim, apesar de ter citado aqui e ali seus arranjos originais, há muitas surpresas. De qualquer maneira, são arranjos teatrais e sempre muito vibrantes, com uma atmosfera eletrônica que dialoga especialmente bem com o videocenário”, pontua Luís Filipe. 

Soraya Ravenle e Marcos Sacramento são amigos de longa data, e essa é a terceira vez que trabalham juntos. Já atuaram em dupla no show “Breque Moderno”, em 2006, e no musical “É com esse que eu vou”, em 2010. Para ambos, é imprescindível que haja estudo para que consigam imprimir no musical suas características particulares como cantores. 

“Temos uma contracena muito interessante e intensa graças à amizade que nutrimos. Cantar um repertório como esse do Ney é mexer furiosamente com a memória afetiva de várias gerações, e isso é muito forte e poderoso, ao mesmo tempo que também é grande o desafio de entrar no ‘mundo Ney’, ser atravessado por ele e trazer à tona uma assinatura pessoal. Ele realmente criou uma linguagem própria: corporal, estética, vocal”, analisa Soraya. 

O desafio é encarado de coração aberto por Marcos também, que promete estudar sempre, mesmo depois da estreia.

“Considero o Ney um intérprete/autor, pois dá a cada obra sua versão quase definitiva. Tanto que nunca cogitei gravar nenhuma música do repertório dele. O negócio bacana é descobrir outras nuances e “descolar” das interpretações que se transformaram em clássicos. Em cena, seremos eu e Soraya”, afirma Sacramento. 

Segundo Cinthya, toda a produção está sendo feita sem nenhum patrocínio. 

“No trabalho, o que me falta em dinheiro, me sobra em tesão. Todos os profissionais convidados aceitaram fazer pela paixão pelo Ney”, admite a produtora.

O Teatro dos Quatro – Shopping da Gávea fica na Rua Marquês de São Vicente, nº 52, Gávea, Rio de Janeiro. Temporada: de 22 de agosto a 30 de novembro, terças, quartas e quintas-feiras, às 20h30. Censura: 12 anos. Preço: R$ 70 (inteira). Telefone: 2239-1095.

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