Assine o fluminense

Os 100 mais

Abraccine lança lista com os melhores filmes brasileiros da história, que vai virar livro

Dirigido pelo cineasta e escritor Mário Peixoto, “Limite”, de 1931, é um marco em termos de inovação de linguagem e narrativa. De tão raro, o filme teve sua própria existência questionada por algumas décadas

Foto: Divulgação

Listas sobre os melhores de todos os tempos sempre geram polêmicas, tanto pela posição dos ranqueados, quanto, principalmente, pela ausência de nomes que, para o público em geral, seriam inquestionáveis. Quando levamos esse tipo de eleição para o cinema, as divergências costumam ser ainda maiores, dada a imensa produção cinematográfica no mundo inteiro todos os anos. No Brasil não é diferente, mas a Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) aceitou o desafio proposto pela editora Letramento, de Belo Horizonte, e organizou uma lista extensa, apresentando os 100 melhores filmes produzidos no cinema brasileiro até hoje. Entre os selecionados, estão tanto clássicos produzidos entre os anos 60 e 80 – como “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (2º lugar), de Gláuber Rocha; “Vidas Secas” (3º), de Nelson Pereira dos Santos; e “Cabra Marcado para Morrer” (4º), de Eduardo Coutinho – quanto sucessos dos anos 1990 e 2000, como “Central do Brasil”, de Walter Salles (11º) e “Cidade de Deus” (8º), de Fernando Meirelles.

O vencedor, curiosamente, é um filme que, de tão raro, chegou a ter a sua própria existência questionada por algumas décadas, além do fato de ser o único longa dirigido pelo cineasta e escritor Mário Peixoto: “Limite”. A produção, rodada em 1931, se passa dentro de um barco perdido no oceano com três náufragos - um homem e duas mulheres. Sem ter o que fazer e com pouquíssimas esperanças de salvação, cada um deles passa a contar para os demais a história de suas vidas, relembrando os acontecimentos que os levaram até ali.

A ambientação no meio do nada e a narrativa dos personagens, em tom de “como chegamos aqui” (reproduzida somente em imagens, por se tratar de um filme mudo), seriam reproduzidas no cinema em diversas produções nacionais e internacionais durante as décadas seguintes, mas a proposta era considerada extremamente ousada para o cinema dos anos 30. Na opinião do jornalista, crítico de cinema e presidente da Abraccine, Paulo Henrique da Silva, a presença de “Limite” no topo da lista simboliza a correção de uma injustiça histórica. “‘Limite’ é um filme a ser constantemente descoberto, podemos dizer assim. Ele não teve muitas exibições ao longo da história e, quando outras mídias tornaram possível a sua circulação, o filme ganhou o carimbo de datado, por ser preto e branco e mudo.  Uma injustiça com um trabalho que ainda permanece inovador. Ele parece dialogar com a nossa existência, com aspectos inatos do ser humano”, avalia Paulo.

Doutora em cinema pela USP, professora da Universidade Federal de Pelotas e editora das revistas Teorema e Orson, Ivonete Pinto ressalta que a reflexão crítica que “Limite” promove é um de seus grandes méritos, especialmente levando-se em consideração a época em que foi rodado. Ela frisa que o caráter atemporal da produção o faz encantar gerações distintas de críticos e cinéfilos, ainda que “Limite” tenha sido uma aventura solitária na curtíssima trajetória de Mário Peixoto no cinema. “Exibo sempre o filme para meus alunos de História do Cinema Brasileiro, que ficam baqueados com a contemporaneidade dele. Há pouco, na Mostra de Cinema de São Paulo, Geraldine Chaplin declarou que era um dos melhores filmes que viu na vida. Pode, sim, haver exagero, supervalorização, mas não podemos negar ao menos um mérito ao filme: ele é absolutamente inovador. Peixoto não sabia fazer cinema, fez poesia através de imagens. Sua importância está em indicar que os espectadores podem receber sugestões de compreensão de um enredo. Está em não subestimar a inteligência do espectador. Se tivéssemos sido educados com filmes como “Limite”, e não com narrativas hollywoodianas autoexplicativas, seríamos muito mais exigentes sobre o que ver”, exclama.

A lista, que também se tornará um livro publicado pela editora Letramento, foi organizada com a proposta de valorizar a produção cinematográfica nacional. O ranking foi formado após todos os críticos associados da Abraccine enviarem, em ordem de preferência, uma lista com 25 filmes brasileiros. Ao todo, 379 produções foram lembradas, e o caráter plural do ranking, sem qualquer delimitação para a escolha da produções, é um ponto de destaque da eleição na opinião de Paulo Henrique. “O diferencial do ranking é que será a primeira vez que se reunirá, em um livro, os melhores filmes independentemente de gênero ou duração. Não importava se era curta, média ou longa, documentário ou ficção. Só queríamos os melhores”, comenta o presidente da Abraccine.

Esse caráter democrático é, de fato, observado na lista, que reúne filmes produzidos em todas as décadas a partir dos anos 30, incluindo um filme de 2015, ainda em cartaz em algumas salas de cinema do Brasil, “Que Horas Ela Volta” (71º do ranking). Entre os 10 primeiros, porém, sete produções são dos anos 60, período em que o movimento do Cinema Novo produziu vários dos maiores clássicos nacionais e revolucionou a produção cinematográfica brasileira. No entanto, Paulo reforça que não houve qualquer orientação para que filmes antigos fossem os mais votados. Para ele, as posições de destaque do Cinema Novo são reflexo da própria relevância das produções. “Não há nenhuma regra que estipula que uma lista de melhores tem que contar só com filmes antigos ou produzidos antes de determinada data. De toda forma, não podemos negar o papel que o Cinema Novo teve na cinematografia nacional, ultrapassando as nossas fronteiras e ganhando admiradores confessos entre realizadores de vários países, que enxergaram uma obra original e que ajudou a compreender o Brasil em toda a sua complexidade”, enfatiza.

Outra característica observável na lista é a presença constante de três dos maiores cineastas brasileiros da história. Glauber Rocha aparece com cinco produções entre as 100 eleitas, Nelson Pereira dos Santos com quatro, enquanto Eduardo Coutinho, maior documentarista brasileiro, com três produções entre as 25 primeiras da lista. Para Humberto Silva, colunista da Revista de Cinema e professor da Fundação Armando Alvarez Penteado (FAAP), a presença dos três é reflexo direto da importância que os três tiveram para o cinema nacional e internacional e uma prova de que, não importa quantas listas sejam elaboradas sobre os melhores filmes nacionais da história, eles sempre estarão presentes. “Glauber Rocha é o mais inventivo e criativo cineasta do cinema brasileiro. Sua obra é fonte de intensos debates e discussões e ele, mais que qualquer outro, projetou o cinema brasileiro em âmbito internacional. Em Glauber, principalmente, vemos uma obra que mergulha em profundidade nas grandes questões nacionais e nas questões de afirmação de uma cinematografia na periferia do capitalismo.

Nelson Pereira dos Santos é o outro grande expoente da renovação cinematográfica nos anos de 1960, que passou à história como Cinema Novo. “Menos prolixo e ousado que Glauber, Nelson Pereira dos Santos, no entanto, tem uma trajetória mais constante, mais sólida, com uma filmografia que se deixa influenciar inicialmente pelo neorrealismo italiano, passa pelo Cinema Novo e envereda por temas, digamos, mais intimistas”, analisa. 

Sobre Eduardo Coutinho, é, segundo Humberto, nosso maior documentarista. “Ele deu uma dignidade e força expressiva ao documentário que não tem paralelo em nosso cinema. Na história do cinema, em âmbito geral, é inegável que o documentário não tem a mesma fortuna crítica que o filme de ficção. Mas o caso de Coutinho é outro. Seu cinema documental atinge uma dimensão humana que o coloca, nesse quesito, entre os grandes realizadores da sétima arte em todo o mundo”, disserta.

Fernando Meirelles fez história com “Cidade de Deus”

Foto: Divulgação

Confirma os Primeiros 30 filmes da lista

1. Limite (1931), de Mario Peixoto

2. Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), de Glauber Rocha

3. Vidas Secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos

4. Cabra Marcado para Morrer (1984), de Eduardo Coutinho

5. Terra em Transe (1967), de Glauber Rocha

6. O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogério Sganzerla

7. São Paulo S/A (1965), de Luís Sérgio Person

8. Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles

9. O Pagador de Promessas (1962), de Anselmo Duarte

10. Macunaíma (1969), de Joaquim Pedro de Andradew

11. Central do Brasil (1998), de Walter Salles

12. Pixote, a Lei do Mais Fraco (1981), de Hector Babenco

13. Ilha das Flores (1989), de Jorge Furtado

14. Eles Não Usam Black-Tie (1981), de Leon Hirszman

15. O Som ao Redor (2012), de Kleber Mendonça Filho

16. Lavoura Arcaica (2001), de Luiz Fernando Carvalho

17. Jogo de Cena (2007), de Eduardo Coutinho

18. Bye Bye, Brasil (1979), de Carlos Diegues

19. Assalto ao Trem Pagador (1962), de Roberto Farias

20. São Bernardo (1974), de Leon Hirszman

21. Iracema, uma Transa Amazônica (1975), de Jorge Bodansky e Orlando Senna

22. Noite Vazia (1964), de Walter Hugo Khouri

23. Os Fuzis (1964), de Ruy Guerra

24. Ganga Bruta (1933), de Humberto Mauro

25. Bang Bang (1971), de Andrea Tonacci

26. A Hora e a Vez de Augusto Matraga (1968), de Roberto Santos

27. Rio, 40 Graus (1955), de Nelson Pereira dos Santos

28. Edifício Master (2002), de Eduardo Coutinho

29. Memórias do Cárcere (1984), de Nelson Pereira dos Santos

30. Tropa de Elite (2007), de José Padilha

A relação completa está disponível no endereço www.abraccine.org

Faça seu login ou cadastre-se para enviar seus comentários

Comentários

Veja também

Scroll To Top