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Reconhecimento pelos traços

O quadrinista niteroiense Dênis Mello é o talento gráfico por trás da HQ ‘Beladona’, vencedora em agosto do Troféu HQ na categoria Melhor Webcomic

Com traço marcante, Dênis Mello acabou se aventurando no universo dos quadrinhos de terror

André Redlich

Samantha é uma menina de 7 anos atormentada por terríveis pesadelos, muito além de sua compreensão. Os problemas psicológicos que ela enfrenta não são encarados com a devida preocupação pelos pais, que acreditam que as consultas com uma psicóloga – que sabe muito mais sobre estes pesadelos do que demonstra –  em algum momento resolverão os conflitos internos da menina. Os anos se passam e Samantha, já adolescente, se encontra neste mundo de pesadelos com um jovem chamado Eduardo, que exerce controle completo sobre o que acontece ao seu redor e a ensina a fazer o mesmo. 

A partir daí, as peças desse quebra-cabeças de terror e suspense começam a se encaixar, à medida que Samanhtha se torna cada vez mais poderosa e assume o alter-ego de Beladona – mesmo nome da planta que prefere as sombras à luz solar e que também dá nome a história criada pela escritora sul-mato-grossense Ana Recalde e ilustrada pelo niteroiense Denis Mello, estudante da Escola de Belas Artes da UFRJ. Após ser indicada em 2013 e 2014 ao Troféu HQ Mix – maior prêmio das artes gráficas do Brasil – de Melhor Webcomic (história em quadrinhos on-line), “Beladona” finalmente conquistou a premiação em agosto deste ano, cinco meses após a conclusão da trama.

A parceria de sucesso teve início na Rio Comicon 2011. Ana e Dênis já se conheciam havia alguns anos, de eventos de HQs, mas a escritora, após ver o quadrinista fazendo algumas ilustrações, o convidou para desenvolver com ela uma história em quadrinhos on-line para a então recém-criada plataforma petisco.org, que surgia com a proposta de reunir tramas independentes para a internet. O convite, no entanto, foi respondido com um desafio proposto por Dênis.
“Eu falei que se ela trouxesse uma ideia interessante até o fim do evento, eu topava. 

Algumas horas depois, ela voltou à minha mesa com toda a história formada na cabeça dela, foi impressionante! Eu curti muito, tinha bastante vontade de trabalhar com terror, mas nunca tive uma boa ideia, então embarquei tranquilo. Em menos de dois meses, as páginas começaram a ser publicadas”, explica.

A partir daí, Denis desenhou, por pouco mais de 3 anos, uma página por semana para Beladona. O quadrinista, que acompanhava na infância histórias do Homem-Aranha, Batman e Superman, conta que teve como principal desafio desenvolver ilustrações que fossem informativas o suficiente para a compreensão da trama e que guardassem, ao mesmo tempo, um tom de mistério para a semana seguinte.

“Considerando a perspectiva de quem acompanhou uma página por semana ao longo desses anos, cada fim de página deixava um gancho para a página seguinte, e é muito difícil fazer isso o tempo todo para manter o interesse do leitor, mas a Ana conseguiu. Aqui no Brasil, por uma série de fatores, é difícil encontrar uma série tão longa, e longevidade cria e cativa público. Eu cumpri minha parte botando no papel essas ambientações”, detalha.

Samantha, protagonista da HQ, é atormentada por terríveis pesadelos

Divulgação

A conquista do Troféu HQ Mix foi, na avaliação de Dênis, um reconhecimento importante para o trabalho, especialmente pelo fato de a votação ser decidida por profissionais da área, que levam em consideração tanto a qualidade da trama, quanto das ilustrações.

“Sempre tivemos concorrência forte, então foi normal não termos vencido antes, até porque nossa divulgação não era muito boa. Para aparecer na internet é vital ter uma preocupação real com isso, coisa que nós não tínhamos”, frisa o quadrinista, que atribui o maior alcance de Beladona ao projeto de financiamento coletivo iniciado na Catarse. Os colaboradores receberam, ao final da publicação, um livro com 184 páginas impressas de Beladona e prêmios adicionais, como cards, pôsteres e até um pesadelo ilustrado, feito a partir de relatos dos colaboradores. “A campanha do Catarse acabou levando a HQ ao conhecimento de muito mais gente. A qualidade final do livro impressionou, com certeza. Então, mesmo que o livro não tenha sido indicado ao HQ Mix, ele nos ajudou a ganhar relevância para chegar mais forte esse ano na nossa ‘categoria de origem’”, avalia o niteroiense, que torce para que a conquista do prêmio abra portas para novos projetos tanto dele quanto de Ana Recalde.

Entre as vantagens de se produzir uma história independente, Dênis destaca pontos positivos tanto no aspecto criativo, quanto no comercial. Do ponto de vista criativo, por se tratar de um projeto em que os responsáveis pela criação são “os próprios chefes”, a autocrítica é fundamental na opinião do quadrinista.

“Eu sou meu maior crítico e atualmente estou decidido a não correr com projetos, pois tenho que dar o meu melhor com cuidado e carinho, pois a obra é o que fica. Além disso, no caso específico de quadrinhos para web, você tem um alcance muito grande dependendo do tempo e das estratégias de divulgação”, ressalta.

Do ponto de vista comercial, a principal vantagem consiste no fato de o percentual de lucro a partir do preço de capa ser maior do que em uma publicação que conta com uma estrutura de ampla distribuição por meio de editoras. 

“Claro, você tem que pagar a gráfica, o que já custa uma boa grana, mas o restante é seu. As livrarias ficam normalmente com 50% do valor de venda do livro. Aí, juntando a gráfica, a distribuição e a própria editora, que nem fica com muito, o preço final do livro acaba sendo alto e o artista, que foi quem se debruçou no projeto por tanto tempo e investiu seu trabalho e criatividade, fica com no máximo 10% do valor de venda. Isso é uma covardia, mas é o mercado que nós temos”, critica.

Dênis também tem histórias em que é o responsável tanto pela arte quanto argumento das tramas. Os temas tratados são os mais diversos, como a situação vivida pelos palestinos em zona de conflito, em “Palestina: As Pedras no Caminho”, mulheres que sofrem com violência doméstica, em “Pela Segunda Vez”, e alcoolismo, em “The Drunker: Festa de Agosto”. O jovem artista tem a convicção de que as múltiplas experimentações temáticas são a melhor parte do trabalho e lembra que sua entrada no universo do terror se deu dessa forma.

“Eu queria fazer, mas não esperava curtir tanto assim. Também curto ficção científica, será o gênero dos meus próximos trabalhos autorais, mas pretendo impregnar isso com terror, pois entendi que faz parte de mim por uma série de elementos. ‘Beladona’ foi uma obra que marcou meu trabalho e me deu um norte, pois foi ali que comecei a ver para onde o meu traço deveria ir”, relata o quadrinista, que inaugura este mês seu curso de desenho e HQs no Centro de Niterói, próximo à Prefeitura. 

Ele também revela que, apesar da conclusão de “Beladona”, tanto pela falta de tempo quanto por questões financeiras, as histórias de Samantha no mundo dos pesadelos podem ressurgir na web em algum momento.

“Eu e a Ana queremos muito continuar as histórias dentro desse universo, ela inclusive considera o que fizemos até agora como uma origem, e tem uma boa ideia de para onde essas histórias devem seguir. Se pintar uma boa proposta que ajude na produção da história, certamente nós vamos retomar”, promete.

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