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Ritual da empatia e da caridade

Antropólogo estuda cerimônia de monges no Laos e lança o livro ‘Tak Baht – O budismo teravada em procissão’ (Eduff)

Pedro Fandiño passou quatro meses sozinho no Laos para sua pesquisa de campo, onde percebeu o encontro dos diferentes atores da sociedade laosiana durante a procissão, perseguindo variados interesses

Foto: Divulgação

Países orientais são bastante conhecidos por terem culturas muito diferentes da nossa, com tradições milenares que são mantidas vivas até os dias de hoje. O antropólogo Pedro Fandiño (32) viajou até a cidade de Luang Prabang, no Laos, para estudar a tradicional cerimônia conhecida como Tak Baht, realizada por monges budistas da corrente teravada, a mais antiga da religião. Toda a análise desta imersão cultural, junto a histórias e fotografias, pode ser conferida no livro recém-lançado “Tak Baht – O budismo teravada em procissão”, publicado pela Editora da Universidade Federal Fluminense (Eduff).

“Vindo da Nova Zelândia, onde morava, estive no Laos pela primeira vez em 2010, anos antes de regressar para escrever minha dissertação de mestrado, em 2012. Foi nessa primeira viagem que conheci a procissão por oferendas, que viria a se tornar o eixo central do livro. Naquele primeiro momento, a cerimônia me marcou pela beleza e mobilização: bem ao nascer do sol, toda a população ajoelhada sobre as calçadas, aguardando uma procissão de monges e noviços que dependeriam das oferendas a serem recebidas”, conta o autor.

Ao voltar para o Brasil, Pedro pensou em realizar uma pesquisa para o mestrado em Antropologia, no Laos, por ser um país com uma história triste, peculiar e pouco conhecida por aqui.

“Da cerimônia até aquele momento, eu só levada fortes e bonitas impressões. Somente mais tarde, já realizando minha pesquisa de campo, pude perceber que durante a procissão diferentes atores da sociedade laosiana, perseguindo variados interesses, se encontravam. A partir dela, se podia observar relações sociais que ilustravam bastante bem os contextos étnico, religioso e econômico que estavam a formar o Laos contemporâneo. A cerimônia trazia em cena representantes dos principais elementos de um país que passava por transformações”, avaliou.

Além de contar com discussões acadêmicas talvez um pouco mais densas, o autor acredita que o livro irá interessar a leitores dispostos a se aventurar por um mundo e por práticas sociais distantes. Além da cerimônia, há capítulos que descrevem a história do Laos e de seus grupos étnicos: desde os primeiros reinados, passando pelas atrocidades da Guerra do Vietnã, pela instalação de um rigoroso regime comunista, até a recente abertura comercial. Também são abordadas as origens do budismo e o significado do “fazer mérito” para a primeira corrente dessa religião. 

“Aos poucos, fui percebendo como a cerimônia era entendida e os significados distintos atribuídos pelos diferentes grupos que participavam dela: os monges precisavam das oferendas recebidas para sobreviver, pois respeitam mandamentos que não os permitem lidar com dinheiro. Os provedores ali estavam, ao menos a princípio, para “fazer mérito”, ação importante dentro da tradição budista teravada. Membros de outros grupos étnicos, não budistas, que eram normalmente muito pobres, buscavam lucrar vendendo oferendas para turistas ou pedindo sobras em dias de fartura. Havia ainda a perspectiva dos turistas, e assim por diante. A partir do encontro entre esses diferentes atores, pude observar como durante o amanhecer também se encontravam os diferentes contextos, que ajudam a explicar o Laos e as transformações pelas quais o país tem passado”, explica o antropólogo.  

Toda a análise desta imersão cultural, junto a histórias e fotografias, pode ser conferida no livro recém-lançado “Tak Baht – O budismo teravada em procissão”, publicado pela Editora da Universidade Federal Fluminense (Eduff)

Foto: Divulgação

O trabalho etnográfico no Laos durou quatro meses, nos quais Pedro ficou completamente sozinho. Durante este período, além de observar o ritual, o autor buscava compreender as diferentes perspectivas dos participantes. Segundo ele, todos os dias ao nascer do sol, observava a procissão, passava todas as tardes nos pátios dos templos onde monges e noviços residiam, e também meditava com eles todos os dias ao pôr do Sol, antes de discutirem ensinamentos com os abades dos templos, até se prepararem para dormir. 

“As roupagens exóticas de um país tão distante do nosso, em tantos sentidos, logo deram lugar a pessoas receptivas, acolhedoras, que, embora levem a vida em um ritmo ainda muito diferente do nosso, também dividem conosco muitas das mesmas preocupações e anseios”, comenta Fandiño.  
Filho de mãe brasileira e pai colombiano, Pedro já havia conhecido outros lugares do mundo, mas foi nesta viagem ao Laos que fortaleceu esta vontade de estudar outras culturas mais a fundo.

“Penso que o encontro com outra cultura, para além da perspectiva acadêmica, pode nos ajudar a compreender que nossas práticas, preconceitos e valores não são necessariamente corretos, muito menos únicos. Esse encontro faz com que relativizemos a própria vida e os diferentes sentidos atribuídos a ela. Mas talvez mais que isso: aproxima-nos do outro, de suas dores e aspirações; fortalece nossa capacidade de empatia, talvez a mais bela característica do homem”, finaliza. 

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