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Ser estrangeiro

Em duas únicas apresentações no Teatro da UFF, dias 27 e 28, o espetáculo ‘Awkwa’ aborda o pertencimento e questiona as fronteiras através de uma mistura de teatro, música e dança

A peça ainda possui trechos em sueco, francês, inglês

Foto: Divulgação

Se sentir estrangeiro em algum lugar – continente, país, estado, cidade, e até mesmo na própria família, por que não? – é mais comum do que se imagina, já que a maioria de nós, brasileiros, é filho da missigenação. O sociólogo jamaicano Stuart Hall já disse em seus estudos culturais que o sujeito está se tornando fragmentado, composto não de uma única, mas de várias identidades. Inspirada pelo que sentia na pele como migrante, a atriz circense e professora Marta Chaves, carioca moradora da Suécia há 16 anos, e fora do Brasil há 21, convidou o amigo ator, músico e compositor Dado Amaral, que mora em Paris, para criar e atuar ao seu lado na peça “Awkwa” – uma verdadeira colcha de retalhos vide as várias cenas costuradas com poesia, dança, performance, música e interpretação – para falar sobre ser estrangeiro.

O espetáculo, que estará em cartaz no Teatro da UFF dias 27 e 28 (terça e quarta), às 20h, não tem personagens claros, histórias delimitadas, não é linear, nem cronológico, tampouco com um roteiro definido. O nome vem de uma sugestão de Dado de um termo em inglês para o trabalho: awkwards. Uma flexão, no plural – que não existe – do adjetivo awkward, que quer dizer estranho, complicado, difícil, desajeitado, inadequado.

“Como migrante, percebo que muitos estrangeiros têm a sensação de ser um ‘peixe fora d’água’ em qualquer lugar. É uma sensação que nos persegue. Até quando eu volto ao Brasil também, porque me vejo estrangeira no meu próprio País. Eu mudei muito desde que saí daqui e foi essa angústia que vivo continuamente que me fez querer fazer esse espetáculo”, explica Marta, que se mudou para a Alemanha quando fazia parte do Cirque du Soleil e lá ficou por cinco anos.

A peça ainda possui trechos em sueco, francês, inglês e, em uma das cenas, a frase “Eu sou (um nome de alguém)” ganha versões em várias línguas, como japonês, alemão, sueco, italiano,  espanhol, português, árabe. Para Dado, essa costura das cenas é quase uma mixagem e se tivesse que escolher um gênero para a peça diria “híbrido” ou “indefinido”.

“Não vejo como drama porque drama pressupõe personagens, identificação. No fundo, os personagens somos nós: eu e a Martinha. A gente assume os desdobramentos possíveis dos nossos próprios personagens de imigrantes. Estaria mais para comédia. Tem bons momentos engraçados, gostaria até que tivesse mais humor, vamos fazer isso ainda. Talvez seja um pouco Teatro do Absurdo também... Não estamos inventando a roda, nem posso ser pretensioso assim, mas realmente não me lembro de ter visto algo parecido com o que fizemos”, brinca, Dado.

Durante a criação, eles decidiram entrevistar pessoas que vivem há muito tempo no exterior. Marta começou com os amigos da Escola Nacional de Circo, que cursou ainda no Rio, aproveitando que a maioria havia ido embora por conta de ofertas de emprego. Enquanto Dado foi ouvir os imigrantes que chegavam na França fugindo de seus países de origem. A partir dos depoimentos, Dado criou canções que tratam da condição do estrangeiro e Marta desenvolveu uma coreografia aérea para cada canção.

“Cerca de 300 mil anos atrás, o ser humano era nômade, não se fixava em um só lugar. A peça faz refletir sobre o fato de que somos todos estrangeiros e ninguém é estrangeiro. Essa categoria é inventada, assim como as fronteiras e os países. Acredito nas culturas, nas línguas, mas as fronteiras são arbitrárias. O Havaí e o Alasca são dos EUA, por exemplo. São convenções nas quais a gente acredita demais e fica julgando, como aconteceu com o refugiado sírio que foi agredido em Copacabana. A proposição de reflexão da peça é por aí. A gente quer provocar uma reflexão sobre o que é o estrangeiro, o patriota, a pátria, a fronteira, o limite”, destaca Dado, que, como o dado de seis lados, possui várias facetas. Na peça, ele interpreta, toca violão, recita poesia... Na vida, é diretor da La Centrale ao lado da esposa Viviana Méndez Moya – na escola, realizam residências artísticas em Paris – e cineasta. É dele dois documentários em curta-metragem sobre o Profeta Gentileza que se tornaram referência.

A artista circense tem uma companhia na Suécia chamada Teatro Baú, que mistura circo, teatro, dança e música. Na Europa, Marta também dá aula de circo numa escola de cultura duas vezes por semana, o que explica a falta de disponibilidade para fazer uma temporada grande de “Awkwa” no Brasil. Marta e Dado são amigos do Rio há muitos anos. Na época, ele tinha uma banda chamada Boatos e ela um grupo chamado Atrupelados. Os dois projetos se apresentaram várias vezes no palco do Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto, no Humaitá, e, por isso, a estreia nacional de “Awkwa” foi lá, dia 17 de fevereiro.

“Os três dias no Sérgio Porto foram essenciais, como se a gente tivesse ensaiando ao vivo. Estou há 21 anos sem me apresentar no Rio e voltar ao palco, no Brasil, é muito significativo. Qualquer artista vai levando a bagagem de toda vida com ele e, para mim, é uma emoção muito grande reencontrar algumas pessoas por aqui. Embora venha todos os anos visitar, estar no palco gera uma satisfação diferente”, comenta Marta.

Contrabaixista da Orquestra Sinfônica Brasileira, o músico Alexandre Brasil tocará a trilha incidental que compôs para a peça, além de acompanhar Dado nas canções ao vivo. Esposa de Dado, Viviana Méndez Moya, artista plástica chilena radicada em Paris, foi convidada para a direção de arte do espetáculo. No fim de 2016, o projeto foi contemplado pelo edital sueco Frispel para o desenvolvimento do trabalho. Um ensaio geral para convidados, em julho de 2017, no Point Ephémère (Paris), selou o novo rumo de “Awkwa”. Após oficinas intensivas com o coreógrafo chileno Jose Vidal e a diretora carioca Adriana Schneider Alcure, a peça deu uma grande virada.

O Teatro da UFF fica na Rua Miguel de Frias, 9, Icaraí, Niterói. Telefone: 3674-7515. Dias 27 (terça) e 28 (quarta) de fevereiro, às 20h. Preço: R$ 40 (inteira). Classificação etária: livre.

 

 

 

 

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