Assine o fluminense

Tesouros da arte sacra no Rio

Museu Arquidiocesano, no subsolo da Catedral Metropolitana, abriga preciosidades que não se restringem somente à fé

Com mais de 6 mil itens catalogados, Museu de Arte Sacra impressiona e preserva a história da Igreja Católica no Brasil

Foto: Lucas Benevides

A arte sacra se caracteriza por utilizar técnicas de pintura e escultura não só para retratar figuras que remetem ao universo religioso. Vai além de uma mera representação. As obras de arte sacra se destinam a servir à liturgia, ao culto religioso. Isso faz com que sejam consideradas pelos fiéis como sagradas, pois servem como veículo de comunicação com o divino.

Este segmento artístico abrange várias religiões, mas no caso do Rio de Janeiro uma se destaca: a arte sacra da Igreja Católica. Enquanto cidade histórica, que foi capital do Brasil de 1763 a 1960 e que bebeu direto da fonte da cultura européia trazida de Portugal, o Rio é palco de belas igrejas de suma importância histórica e, consequentemente, uma cidade-arquivo da arte sacra brasileira.

Localizado no subsolo da Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro, o Museu Arquidiocesano de Arte Sacra do Rio de Janeiro (MAAS), que pertence à Arquidiocese do Rio, preserva a história da Igreja Católica no Brasil, tendo começado a coletar peças para seu acervo a partir de 1950, época em que alguns templos religiosos foram demolidos e seus pertences distribuídos. 

O acervo original foi ampliado através de doações de famílias, conventos e instituições religiosas, inclusive de igrejas muito afastadas que, por segurança, cediam suas valiosas peças para serem preservadas. O Museu possui atualmente mais de 6 mil itens catalogados, especialmente dos séculos XVII e XVIII, e abrange obras desde o período colonial até os dias de hoje.

Logo na entrada, o visitante é impactado com uma bela imagem do século XIX de um anjo tocheiro austríaco em madeira policromada, ladeado por duas cabeças aladas de anjos, do século XVIII, esculpidas pelo Mestre Valentim e que pertenciam à Igreja de São Pedro dos Clérigos, demolida em 1843, para a abertura da Avenida Presidente Vargas.

No interior são realizadas exposições temporárias e permanentes. Entre as raridades expostas, destacam-se as rosas de ouro que foram presenteadas à Princesa Isabel pelo Papa Leão XIII, na data da assinatura da Lei Áurea; um trono de D. Pedro II; uma imagem de Nossa Senhora do Ó, datada aproximadamente de 1585; e o anel original que o já beatificado Santo João Paulo João II doou à Comunidade do Vidigal. Por segurança, o adorno fica protegido no Museu e uma réplica em prata está na comunidade. Além destas raridades, a “Coleção João Paulo II” expõe um conjunto de mais de 70 peças referentes às duas visitas do Papa ao Rio de Janeiro, em 1980 e 1997.

“É muito gratificante ver que todas as exposições que desenvolvemos no museu são sucesso. Dentre várias obras que ilustram a história do Rio de Janeiro, destaco duas atribuídas a Leandro Joaquim, óleo sobre tela, século XVIII, representando o incêndio do Recolhimento do Parto e reconstituição do mesmo. Há ainda um relevante número de retratos de sacerdotes e também exemplares de pintura cusquenha, arte religiosa de cunho catequista, da região de Cuzco, típica do século XVII”, explica Marli Martins, uma das museólogas que trabalha no local.

História & arte- Dom Orani Tempesta, arcebispo do Rio de Janeiro, diz que é possível conhecer  a história da igreja através da arte.

“Uma coisa que muitas pessoas deixam passar despercebida, mas que o nosso museu tem essa preocupação, é a importância de falar da fé através da cultura e falar da cultura também ajudar a fé. Esse diálogo sempre foi fundamental. As exposições permanentes e temporárias são importantes porque, através delas, a igreja vai contando a sua história com o público.  A arte sacra, além de por si mesma falar da fé, ela também mostra quantos artistas trabalham para representá-la.”, afirma Dom Orani. 

Devoto da santa, Berthaldo Soares teve a iniciativa de construir o templo

Foto: Lucas Benevides

Um Santuário de N.Sr.ª de Fátima 

Outro ponto no Rio que chama atenção pela arte sagrada é o Santuário de Nossa Senhora de Fátima do Rio de Janeiro, na Avenida Alfredo Baltazar da Silveira, no Recreio dos Bandeirantes, e que abriga uma reprodução fiel da imagem da santa  contemplada por milhões de pessoas na Capela das Aparições, em Fátima, Portugal.

O santuário reúne, em todo  dia 13 de maio, desde 2011 - ano de sua inauguração - fiéis e devotos da santa em comemoração ao aniversário das aparições de Nossa Senhora de Fátima, há 102 anos. A ideia de construir o santuário e a réplica  foi do advogado Berthaldo Soares, devoto da santa e que carrega uma história de fé  em Nossa Senhora de Fátima.

“Quando tinha 14, 15 anos, fiquei doente. Tive uma depressão profunda e síndrome do pânico.  Meu caso era muito grave, fiquei dois anos dentro do quarto. Meus pais rezavam e pediam à Nossa Senhora de Fátima que me ajudasse. Na época, conheci uma freira, que começou a sonhar comigo e a rezar por mim. Ela me ligou e pediu para que eu fosse em uma igreja, em Copacabana, para falar com o Frei Inocêncio, um padre que fazia orações de cura e libertação. Ele orou por mim, eu melhorei e passei a trabalhar com ele diariamente”, relata o advogado.

Em 1987, Berthaldo teve a inspiração de rezar um terço em uma praça, em um evento que reuniria apenas sua mãe e alguns amigos. No entanto, no dia, já passava de 3000 pessoas rezando à Nossa Senhora de Fátima. Ele decidiu prosseguir nas orações e, depois de 10 anos, o evento foi considerado como a maior procissão humana do mundo, percorrendo 280 km da cidade do Rio.

Vinte anos depois, o advogado foi à Fátima, em Portugal, agradecer à santa. Na Capela das Aparições, ouviu uma voz - que atribui à Nossa Senhora - que dizia: “Quero que construa uma capela dessa, em minha honra, no Rio de Janeiro”.

“Cheguei no Brasil, conversei com o bispo, mas ainda faltavam as autorizações de Fátima. Nesses 102 anos, Fátima nunca permitiu a construção de outra Capela das Aparições no mundo. Levou um ano inteiro de discussões. Por fim, foi autorizado”, lembra.

A construção também durou um ano. “A réplica é milimetricamente igual à original. Nós fizemos uma segunda construção da mesma planta”, comenta.

Para Berthaldo, essa foi uma iniciativa importante também para o turismo religioso, porque o Brasil reúne muitos devotos de Nossa Senhora de Fátima. Segundo ele, é forma de receita para o Rio.

“Imagine que a Capela de Fátima pode, nos próximos 12 meses, trazer um milhão de fiéis à Barra da Tijuca. É um incremento absurdo na economia local”, aponta Berthaldo. 

Faça seu login ou cadastre-se para enviar seus comentários

Comentários

Scroll To Top