Assine o fluminense

Um olhar com empatia

Gunga Guerra se debruça na infância das crianças refugiadas na exposição ‘Refúgio’, em cartaz no Sesc Niterói até dezembro

O artista, através de sua própria experiência pessoal de ter que deixar sua terra natal por causa da guerra, nos traz cenas lúdicas e ao mesmo tempo dolorosas dessas infâncias difíceis

Foto: Divulgação

A partir desta sexta (12) até o fim do ano, o artista visual Gunga Guerra ocupará a Galeria do Sesc Niterói com a exposição “Refúgio”. Fazem parte da mostra quadros, objetos e uma animação tendo como tema central a criança, especialmente as refugiadas. O artista, através de sua própria experiência pessoal de ter que deixar sua terra natal por causa da guerra, nos traz cenas lúdicas e ao mesmo tempo dolorosas dessas infâncias difíceis.

Gunga Guerra é português, nascido em Moçambique e radicado no Rio de Janeiro. Bacharel em Comunicação Social e MBA em Radiodifusão e Novas Mídias Digitais (UFF). Participou de vários festivais nacionais e internacionais de vídeo e animação. Utiliza vários meios de expressão artística, como pintura, vídeo e escultura. Suas obras têm como foco principal de pesquisa os conflitos humanos e suas consequências. Suas composições têm toques do fantástico e do surreal e revelam um universo poético num contexto de desconformidade e de certa desilusão.

“Há algum tempo, li uma entrevista da artista portuguesa Paula Rego – que admiro muito – em que ela dizia que um de seus professores, ainda no início da carreira, havia pedido para que ela pintasse o que conhecia. Essa frase foi muito importante para o seu trabalho. Com isso, também comecei a entender melhor porque certos temas e buscas são recorrentes no meu trabalho. A questão dos refugiados é parte da minha história, da minha vivência. Junto com minha família, deixei o país onde nasci, ainda criança, por conta de uma guerra. E, a partir desse fato, fica mais fácil também entender por que nas obras que fazem parte da exposição as figuras centrais são as crianças ou a infância. Estou falando da minha infância, das minhas dificuldades e fantasias com relação a esse período. Agora, como adulto, trago críticas e questionamentos junto com essas fantasias e incomodações de cada obra”, revela.

A exposição segue em cartaz até o dia 29 de dezembro

Foto: Divulgação

Na visão poética do artista, em uma de suas obras, crianças atravessam o Mar Mediterrâneo de balde. Em um mundo de ponta-cabeça, elas saltam para o céu, dão de cara com adultos desumanizados e com o seu olhar indagador nos perguntam: “Qual é o nosso lugar nesse mundo?”.

No entanto, acreditando na transformação e na força renovadora e inocente das próprias crianças, o artista as convida, através de duas oficinas, a participarem da exposição, desse diálogo de imagens e mensagens. É quando essas crianças são indagadas como receberiam e acolheriam essas outras crianças que tiveram, por algum motivo, que deixar as suas casas, a sua terra, o seu mundo conhecido.

“A proposta das oficinas é realmente de tentar trazer um pouco de empatia e solidariedade entre as crianças que participam dela. Uma maneira lúdica de introduzir esse assunto. Falo da minha vivência como imigrante e lanço a questão do acolhimento. Tento valorizar as obras que as crianças produzem, colocando-as como parte fundamental dentro dessa exposição, e estimulando-as a convidarem seus pais e familiares para conhecerem o resultado. Tento colocá-las como agentes”, explica Gunga.
As obras das crianças farão parte integrante na exposição em um espaço com desenhos e textos “mensagens” solidários, assinados por esses pequenos artistas da comunidade, representantes do mundo futuro.

A exposição segue em cartaz até o dia 29 de dezembro, integrando vários eventos programados pelo Sesc Niterói para essa data. As visitações podem ser feitas de terça a sábado, das 8h às 17h.

“No ano passado, o Brasil recebeu 33.866 pedidos de refúgio de imigrantes, segundo o Comitê Nacional para os Refugiados (Conare). É o triplo do ano anterior. A maioria dos pedidos é de venezuelanos, que estão numa situação terrível no seu país, mas, quando vêm para cá, vivem em situação de grande vulnerabilidade. A ONU calcula haver no mundo mais de 22 milhões de refugiados e pelo menos metade deles são de crianças. A arte é fundamental para mostrar e abordar essa questão de várias formas, mas acho que uma abordagem mais lúdica, com uma certa poesia, faz com que as pessoas se aproximem mais do assunto”, conclui Guerra. 

A Galeria do Sesc Niterói fica na Rua Padre Anchieta, 56, no Centro de Niterói. Sexta-feira até 29 de dezembro, de terça a sábado, das 8h às 17h. Entrada franca. Telefone: 2719-9119

Faça seu login ou cadastre-se para enviar seus comentários

Comentários

Veja também

Scroll To Top