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Uma gigante do samba

‘Clementina, cadê você?’ abre a temporada dedicada às mulheres do Teatro Municipal de Niterói

Ana Carbatti interpreta com rigor Clementina de Jesus em abordagem sensível e não caricata

Foto: Pedro Murad/Divulgação

Por Marina Lobo

Abrindo a temporada de um mês inteiro dedicado às mulheres, o Teatro Municipal de Niterói recebe neste sábado (05) e no domingo o musical “Clementina, cadê você?”, que conta a vida de Clementina de Jesus. A peça é uma homenagem à altura da cantora, neta de escravos, que só alcançou a fama aos 63 anos e se tornou uma das vozes mais importantes do samba.

A montagem transita entre as várias fases de Clementina, desde a infância em Valença, interior do Rio, passando por inúmeras rodas e escolas de samba até o descobrimento tardio do talento pelo produtor Hermínio Bello de Carvalho. Ao todo, o espetáculo apresenta 25 músicas acompanhadas por pandeiro, cavaquinho, violão, tantã, flauta e tambor. O elenco é composto por seis atores/músicos, dos quais cinco se revezam nos papéis. Desta forma, todos cantam, interpretam, tocam e dançam.

Na pele de uma mulher 30 anos mais velha, Ana Carbatti aceitou o desafio e não se arrepende. “Eu sempre durmo tranquila (e muito feliz!), depois de uma performance do musical, porque descobri uma maneira de contar sua história, realmente, através de mim. Nunca tentei imitá-la. Bem, até porque isso seria uma grande estupidez, já que Clementina é inimitável, única, e por isso tem um papel tão especial na história da música brasileira”, defende.

Tendo sido atriz a vida inteira, Ana Carbatti tem uma relação de proximidade e respeito com a música. Fez anos de aulas de canto e confessa ter talento para a função. “Fiz alguns poucos musicais aqui no Rio, mas nunca com muitos solos. E é isso que provoca a surpresa dos espectadores dessa peça, quando descobrem que eu, na verdade, canto direitinho”, diverte-se.

O trabalho da construção da personagem foi feito junto à diretora, Duda Maia, que participou de todo o processo, buscando a essência dela por intermédio da música. “Foi um processo de aguçar nossa curiosidade sobre a Clementina, que, por um lado, era grandiosa, com uma potência vocal absurda e, por outro, era de uma simplicidade singular, dona de poucas posses e muito carinho. Foi uma pessoa muito querida por todos”, comenta.

A escolha do elenco foi minuciosa e Duda explorou as possibilidades do grupo, suas peculiaridades, precisando de atores/cantores que tocassem os instrumentos básicos do samba. “Assim que fechamos um elenco que mesclasse bons corpos, com as aptidões musicais necessárias e que formassem um grupo que despertasse interesse, começamos um trabalho em cima de um treinamento físico, criando uma intimidade necessária à cena e investigando as relações, descobrindo um gestual, deixando o corpo se aproximar do universo do samba”, explica a diretora.

Apostando na simplicidade, o musical foi contemplado com o Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz em 2012, considerado um dos 10 melhores espetáculos de 2013 por Daniel Schenker, pesquisador e crítico teatral, indicado ao Prêmio Questão de Crítica nas categorias Melhor Atriz (Ana Carbatti) e Melhor Iluminação (Renato Machado), sendo sucesso absoluto de crítica e público. “Vivo, contemporâneo, nada folclórico. Quem estiver interessado numa peça-museu, saudosista, que glorifica o passado mais que viver o presente de Clementina, por favor fique em casa”, analisa o autor Pedro Murad, que se baseou na essência da artista para fugir do óbvio e surpreender o público. “O espetáculo foge a qualquer provincianismo, poderia ser levado até à Sibéria que seria um sucesso”, completa o autor, que revela que a parte mais difícil do processo foi encontrar o material para a pesquisa. “O texto da peça é uma dramaturgia de reminiscências, onde muitas falas da própria Clementina foram utilizadas, compondo um mosaico, quase um desabafo todo tecido de lembranças, algumas inventadas, outras não. O aspecto ancestral e arcaico da cantora, quase uma personagem entre o primeiro Rio de Janeiro e o Rio industrial dos anos 50, pediu uma escrita bastante alinhada”, diz.

A escolha do elenco foi minuciosa e explorou as possibilidades do grupo, suas peculiaridades, exigindo que atores/cantores tocassem os instrumentos do samba

Foto: Pedro Murad/Divulgação

O espetáculo conta com um elenco formado por Ana Carbatti, Bruno Barreto ou Pedro Miranda, Bruno Quixotte, Sergio Kauffmann, Vidal Assis e Wendell Bendelack, que estão animados para se apresentar em Niterói. “Essa é primeira oportunidade que eu tenho de me apresentar na cidade por qual tenho enorme simpatia, minha expectativa é que a gente possa realmente alegrar e emocionar a todos com a nossa estória”, finaliza Ana Carbatti.

O Teatro Municipal de Niterói fica na Rua Quinze de Novembro, 35 - Centro. Nos dias 05 e 06 de março às 17h e 20h. Preço: R$ 60,00 (Inteira). Censura: 12 anos. Telefone: (21)2620-1624.

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