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Vítima da transfobia

Luis Lobianco encarna personagens no monólogo ‘Gisberta’ para contar uma trágica e emocionante história real

Lobianco tem uma relação íntima com Niterói: morou em Santa Rosa dos 11 até os 18 anos, quando se mudou para o Rio de Janeiro para fazer faculdade de Artes Cênicas

Fotos: Elisa Mendes / Divulgação

“Quanto mais conservador se torna o País, mais a minha necessidade artística vai falar de humanidade”, pondera o ator Luis Lobianco sobre o momento de censura pelo qual o Brasil passa, se referindo ao espetáculo “Gisberta”, que estreia temporada hoje e vai até dia 29, às sextas, sábados e domingos, às 20h, no Teatro da UFF. A peça conta a história da brasileira vítima da transfobia em São Paulo, que buscou refúgio na Europa, mas teve morte trágica em 2006, na cidade do Porto, se tornando ícone na luta pela erradicação dos crimes LGBT em Portugal. 

“Chegamos ao ponto de ter que explicar o óbvio: alertar que LGBTs estão morrendo e somos o País que mais assassina essa comunidade no mundo. São estatísticas que deixam a causa urgente. Acabei reconhecendo ao longo dos anos que apontar preconceito e intolerância é uma das características do meu trabalho. Mesmo quando não sou tão literal e mesmo quando é humor. ‘Gisberta’ trata de uma tragédia real do desamor e isso me mobilizou completamente”, afirma Luis, idealizador da peça. 

No drama musical, o público vai se surpreender com todas as facetas do ator durante o monólogo, para o qual construiu um mosaico de personagens, vozes, música e poesia que contam a trajetória de Gisberta. Para decorar o longo e emocionante texto, Lobianco conta que se trancou em um quarto por 40 dias. 

“Não gostaria que a peça fosse sobre a virtude de um ator incorporar alguém que existiu. Em respeito à sua dor, eu observo Gisberta com muitos olhos. Acho que ela surge muito mais vibrante assim. O figurino é da Gilda Midani, que criou bases para mil formas com a luz e os movimentos. São malhas que dançam junto comigo. O trabalho de decorar texto é o momento mais mecânico do processo. Tenho facilidade para memorizar, mas é muito chato. Eu parecia um estudante para concurso de poucas vagas. Mas é importante superar isso e estar com as mãos livres nos ensaios”, avalia. 

Os meninos que mataram Gisberta em Portugal eram vítimas do abandono familiar e do Estado. De acordo com as pesquisas de Lobianco para a peça, na instituição religiosa em que eram internos, ao invés de receberem abrigo e proteção, foram vítimas de agressão física e pedofilia. 

“Na infância, a gente reproduz o padrão do que nos é ensinado, o que forma nosso caráter. Forças fundamentalistas com grande representatividade na política negam essas práticas corrosivas e cada vez mais querem impor seus dogmas na formação escolar. Mas precisamos falar é das diferenças e do respeito a elas. A arte tem tentado dar conta de todos os debates que não acontecem em casa e nos colégios, mas chega uma hora que fica impossível. Nesse momento absolutamente reacionário, os líderes dessas forças obscuras tentam difamar artistas e embaçar movimentos artísticos aproveitando a predisposição da população a um pensamento conservador. Censurar a arte a partir disso sempre foi o sintoma de ambientes sociais em retrocesso absoluto, está na História. Enquanto isso, horrores e pedofilia acontecem nas instituições religiosas e dentro dos lares”, sentencia Luis.

Conhecido por fazer papéis de humor, principalmente pelos vídeos do canal Porta dos Fundos, no YouTube, é bom lembrar que antes disso, em 23 anos de carreira, Luis Lobianco fez de tudo no teatro: drama, musical, poesia... E justamente por isso coloca todos esses elementos para contar a história de Gisberta. “O público gosta de ser surpreendido! Também estou dizendo a quem chega que não visto os rótulos do mercado. Na peça, uso o humor para criar empatia com o público e a responsabilidade de contar a sua tragédia. O mais difícil é sempre estar pleno fisicamente. Para estar em cena com algo tão forte, o corpo precisa ter muita energia e saber como usá-la. Preciso saber como gritar para ter voz em todas as sessões e as gravações da semana. Preciso ter ciência de como cair no chão para a coluna aguentar a temporada inteira. Além da respiração no lugar para garantir fôlego para todo texto e as músicas”, pontua Luis, que acaba de filmar “Carlinhos e Carlão”, de Pedro Amorim, onde interpreta o primeiro protagonista da carreira no cinema. 

Em “Gisberta”, a direção de produção é de Claudia Marques, o texto de Rafael Souza-Ribeiro e a direção do espetáculo é assinada por Renato Carrera, que, ao receber a ligação de Luis contando a ideia da peça, se interessou pelo projeto imediatamente.

“Parei tudo que estava fazendo para me dedicar ao trabalho. Luis é um grande artista, que desde sempre admirei. Não existe ator de uma coisa só, existe apenas o ator que empresta sua alma para aquilo que ele quer falar e Luis sempre fez isto de forma brilhante. Nunca tive dúvida que ele arrasaria e tocaria o coração das pessoas. Toda a equipe sabia que tínhamos um diamante nas mãos. E foi assim que trabalhamos: lapidando e dando o máximo de nossa arte para fazermos um grande espetáculo. Disciplina e suor são nossos lemas e, é claro, muito afeto e gargalhadas. Sem isto a vida não vale de nada. O mundo precisa sorrir para deixar o pensamento e o questionamento se apresentarem de forma leve e aí sim modificar este estado lastimável e doente com o qual estamos tendo que lidar”, argumenta o diretor.

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