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A vida por outra perspectiva

'A Criada', 'O Apartamento' e 'Depois da Tempestade' provam o vigor do cinema asiático contemporâneo

“O Apartamento”, do diretor iraniano Asghar Farhadi, fala de uma cultura que encobre inúmeras verdades sociais

Foto: Divulgação

Os filmes orientais sempre causam curiosidade no mundo, mas alguns têm chamado mais a atenção dos cinéfilos. O coreano “A Criada”, o iraniano “O Apartamento” e os japoneses “Depois da Tempestade”, “Creepy” e “Nossa irmã mais nova”, por exemplo, estão fazendo sucesso e são dramas que trouxeram a realidade e os costumes de seus países, diferente do que é visto no Ocidente, e, por isso, causam impacto e despertam a reflexão do espectador.

O professor titular do curso de Cinema da UFF João Luiz Vieira atenta para o fato de que “O Apartamento”, “A Criada” e “Depois da Tempestade” já chegaram ao Brasil tendo sido premiados nos principais festivais internacionais como Berlim, Cannes e Veneza. E que, cada um à sua maneira, lida com questões da sociedade contemporânea e com tensões no interior de suas respectivas sociedades (Irã, Japão e Coreia).

“Curiosamente, os três filmes lidam com questões que ultrapassam fronteiras nacionais, como a dos limites confusos hoje entre o que é público e o que é privado. Podemos considerar esse tema como transnacional. O iraniano ‘O Apartamento’, nesse aspecto, é mais contundente, pois sua história fala de algo, um suposto assédio e estupro de uma jovem esposa surpreendida em sua casa por um estranho, onde nada fica muito claro, espelhando um país que também encobre verdades, não esclarece nada, tudo fica numa espécie de limbo da verdade. E seu diretor, Asghar Farhadi, de forma corajosa, nunca olha seus personagens do alto, de um ponto de vista superior e arrogante”, argumenta Vieira, que entende que o sucesso dos filmes é sempre descontínuo e tem a ver com questões de distribuição e exibição internacionais. O sucesso, segundo o professor, é, portanto, relativo, ainda mais se comparado a outros filmes, como os do japonês Akira Kurosawa, que chegavam com regularidade ao Rio de Janeiro e eram exibidos para grandes plateias. 

“Falar de sucesso hoje é outra coisa: sucesso no circuito de festivais internacionais e sucesso para um público cada vez mais reduzido de salas tradicionais de cinema. Mas, claro, há toda uma outra vida hoje fora das salas de cinema, em diversas outras janelas e plataformas de exibição e, aí sim, poderemos falar do impacto do cinema asiático, especialmente depois de ter o reconhecimento explícito de diretores como Tarantino que, em seus filmes, costuma cultuar um estilo asiático de cinema, absorver certas marcas desse cinema, como, por exemplo, o gosto pela violência gráfica, como aparece em filmes do Park Chan-wook anteriores à ‘A Criada’”, ressalta.

O filme que mais prendeu a atenção de Vieira foi o japonês “Depois da Tempestade”, de Hirokazu Koreeda, que conta o drama e o cotidiano de uma família que, com a proximidade do 23° tufão do ano, relembra momentos importantes da vida e discute seus problemas.

“Me encanta a maneira dele construir um cinema baseado na simplicidade, com personagens comuns, desglamorizados, situações banais do cotidiano em narrativas que encenam dramas familiares contidos e onde vale mais ficar atento e prestar atenção na observação de detalhes. Como fazer e servir uma refeição, regar as plantas, ouvir música. Nesse olhar atento às coisas mínimas, esse diretor vem falando em diversos de seus filmes sobre o sentido da vida, da morte, da memória e da existência”, elogia. 

O coreano “A Criada”, de Park Chan-wook, impressiona pela estética e pelo roteiro amarrado e cheio de reviravoltas

Foto: Divulgação

Dos três filmes, dois chamaram a atenção da diretora de produção de cinema e vídeo Lena Mendes. “A Criada” é um deles, que conta a história, em 1930, de uma mulher que é contratada para trabalhar para uma herdeira nipônica, mas que planeja roubar sua fortuna e traficá-la para o sanatório. O drama impressionou pela qualidade técnica das cenas e pelo conteúdo.

“É um filme deslumbrante esteticamente. A cor, os enquadramentos e os movimentos de câmera possibilitam a construção de cenas que transbordam beleza plástica. Além disso, há muito erotismo. As variadas narrativas enganam o espectador, que não imagina o que pode acontecer e, por isso, não desgruda os olhos da tela. É uma mistura de thriller, erotismo e plasticidade”, analisa Lena.

O outro filme asiático pelo qual se encantou foi “O Apartamento”, indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, que traz a história de dois atores casados que encenam a montagem da peça “A Morte de um Caixeiro Viajante”, de Arthur Miller. Depois de serem surpreendidos com o alerta de que todos os moradores do prédio em que vivem devem deixar o local imediatamente, por risco de desabamento, eles acabam indo morar em um apartamento emprestado, provisoriamente. Lá, Rana é surpreendida com a entrada de um estranho no banheiro quando está tomando banho, e isso desencadeia uma série de desentendimentos.

“O que mais me tocou no filme foi o sofrimento da mulher, que o diretor não levou muito em consideração. O papel masculino teve mais relevância na trama através da necessidade de vingança do marido. Talvez isso tenha acontecido por conta da sociedade machista que predomina no Irã. A narrativa é bem construída, colocando em paralelo a vida do casal e a encenação da peça de Miller”, pontua. 

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