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Fora da Caixa

Marcelo Maia Vinagre Mocarzel é doutorando em Comunicação (PUC-Rio) e Mestre em Educação (UFF). Diretor do Instituto Maia Vinagre e professor da UFF e do UNILASALLE-RJ. Membro do Conselho Estadual de Educação do Rio de Janeiro. Contato para esta coluna marcelomocarzel@gmail.com

Deixem eles chorarem

Chorar faz bem. Se estamos com vontade de colocar para fora determinados sentimentos, a pior receita é tentar contê-los. Isso só impede que você viva-os no momento certo e os empurra para acúmulos futuros. Curiosamente, não é isso que ensinamos às crianças. Frases como “engole esse choro” ou “para de chorar agora” são recorrentes nos discursos de pais e responsáveis. A necessidade de controle que a sociedade criou faz com que um choro de criança seja algo condenável, fora do comum, um mal a ser combatido com rigidez e voz de comando.

O choro é a mais sincera forma de comunicação da criança. Quando ela chora, expõe ao mundo coisas que ainda não podem ser ditas, sentimentos que ainda são abstratos demais para serem expressados de outra maneira. Em nossa cultura, chorar é algo ruim, negativo, uma espécie de descontrole. Espera-se que todos, inclusive as crianças pequenas, sejam equilibrados, educados, atinentes às normas e regras sociais. Mas o excesso de cobrança pode ser prejudicial para o desenvolvimento infantil.

É inegável que choro de criança incomoda, ainda mais quando vem acompanhado de birra e desobediência. Mas deixar com que que os pequenos chorem é essencial para que possam, por si só, perceber a hora de parar. Esse controle deve vir de dentro para fora, a partir da própria leitura da criança do ambiente em que está. Minha dica é literal: se seu filho ou sua filha começar a chorar, abaixe-se, olhe nos olhos e diga: “Chore, pode chorar”. Pode parecer uma dica um tanto contraditória, mas acredito ser de extrema valia; assim a criança se sentirá segura o suficiente para tomar, autonomamente, a decisão de parar. 

Existem diversos tipos de choro. Há relatos, inclusive com comprovações científicas, que algumas mães são capazes de distinguir tipos de choro de recém-nascidos; se é fome, sono ou troca de fralda. Porém, quando a criança começa a verbalizar seus desejos, o choro pode vir acompanhado de outros desejos e necessidades, que não os mais básicos. Ele pode servir para chamar atenção para algum fato, desafiar a autoridade ou mesmo constranger. Seja qual for o intuito, os pais devem entender que ele é legítimo. 

Uma criança que não chora, que não expõe seus sentimentos, deve ser olhada com muito mais preocupação do que aquela que o faz com recorrência. Afinal, o que se espera, em termos comportamentais, de uma criança? Como ela, que ainda não elabora abstrações, vai demonstrar ciúmes, raiva, indignação, medo? Use o choro a seu favor. Faça com que a criança naturalmente entenda que chorar é mais difícil, mais cansativo, mais demorado do que falar. Não se pode “engolir” sentimentos ruins, pois eles continuarão dentro de nós.

A melhor receita e colocar para fora.

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