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Medicina: avanço é para poucos

Menos da metade da população mundial tem acesso aos serviços essenciais de saúde, revela a OMS

Pacientes sendo atendidos em macas espalhadas pelos corredores dos hospitais ilustram a dificuldade ao acesso à saúde por mais da metade da população mundial, que sofre com serviços precários

Foto: Divulgação/Antonio Cruz/ Agência Brasil

Com o passar dos anos, o mundo viveu – e vive – profundas transformações tecnológicas que permitem o avanço da medicina. No entanto, o acesso da população a essas tecnologias não vêm crescendo na mesma proporção. O Banco Mundial e a Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam dados alarmantes: menos da metade da população mundial tem acesso aos serviços essenciais de saúde. Com o intuito de aumentar a conscientização sobre esse grave problema, a OMS adotou como tema para o Dia Mundial da Saúde deste ano, comemorado no próximo dia 7, o lema “Saúde universal: para todos, em todos os lugares”.

A partir desta edição até sábado, o Grupo Fluminense traz o projeto especial “Semana da Saúde”, com uma série de reportagens publicadas diariamente em O FLUMINENSE e no site. Médicos e especialistas debaterão sobre os mais graves problemas de saúde que atingem a população e os desafios da medicina no enfrentamento dessas doenças.

Alcançar o mais alto nível no atendimento à saúde ainda é uma meta a ser batida em todo o mundo. Oferecer serviços de qualidade vai além de resolver a crise na saúde e de garantir o direito de todo cidadão. É também pensar no crescimento econômico do país, segundo a OMS.

“O fato de todos os serviços e produtos, incluindo medicamentos e vacinas, serem fornecidos gratuitamente é uma base sólida não só para uma saúde melhor, mas também para o desenvolvimento. Pode tirar as pessoas da pobreza, removendo uma de suas causas; criar empregos para trabalhadores de saúde e cuidados e impulsionar o crescimento econômico inclusivo, assegurando que as pessoas sejam saudáveis e capazes de trabalhar”, disse o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, salientando que o Sistema Único de Saúde (SUS) tem uma base forte para resolver os problemas que o Brasil ainda enfrenta.

De acordo com a entidade e o Banco Mundial, os gastos com a saúde podem, sim, levar alguém à pobreza. Cerca de 800 milhões de pessoas em todo o mundo gastam, pelo menos, 10% de seus orçamentos domésticos em despesas médicas, seja para si próprio ou para algum familiar. Desse total, 100 milhões consideram essas despesas muito elevadas, sendo o suficiente para levá-las à extrema pobreza.

“É completamente inaceitável o fato de que metade do mundo ainda não tenha cobertura para os serviços de saúde mais essenciais. E é desnecessário. Existe uma solução: a cobertura universal de saúde permite que todos obtenham os serviços de saúde dos quais precisam, quando e onde precisam, sem ter que enfrentar dificuldades  financeiras”, apontou Tedros.

Estimativa do Ministério da Saúde aponta que 150 milhões de pessoas acessam serviços de saúde exclusivamente pelo SUS

Foto: Evelen Gouvêa

Saúde no Brasil caminha a passos lentos

De acordo com o Ministério da Saúde, em 2012 foram realizados 3,68 bilhões de procedimentos ambulatoriais pela rede no SUS no Brasil. Em 2016, esse número cresceu apenas 8%, subindo para 3,98 bilhões. Entre janeiro e julho de 2017, foram registrados 2,4 bilhões de atendimentos ambulatoriais, se mantendo na média.

Já o número de consultas atingiu 1,31 bilhões em 2012 e subiu para 1,39 bilhões em 2016, o que representa um aumento de 3,8%. Os números não refletem a quantidade de pessoas atendidas, já que o mesmo paciente pode se consultar e passar por outros procedimentos diversas vezes.

Uma estimativa do Ministério da Saúde aponta que cerca de 150 milhões de pessoas acessam os serviços de saúde exclusivamente pelo SUS, ou seja, 72% da população brasileira. A rede oferece consultas na atenção básica, acesso a medicamentos, tratamentos de doenças como a Aids e vacinas.

“O Brasil foi o primeiro país com mais de 100 milhões de habitantes a colocar na sua Constituição esse desafio de garantir saúde para todos, com as ações de promoção, prevenção, diagnóstico, tratamento e reabilitação”, disse o Ministério da Saúde, através de nota, acrescentando que o SUS tem o maior sistema público de transplante de órgãos e tecidos do mundo.

Para o presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj), Nelson Nahon, o SUS democratizou o acesso à saúde, mas falta financiamento e planejamento.

“Não são realizados concursos públicos e não existe plano de carreira para os médicos, com salário digno e educação continuada. Falta ainda um controle rigoroso dos gastos. As denúncias recentes na política mostram que a corrupção também corrói o SUS. É preciso investir em saúde, saneamento básico e campanhas educativas. Com isso, conseguiríamos resolver 80% a 90% dos problemas de saúde”, aponta Nahon.

Traçando um panorama da saúde no Estado do Rio de Janeiro, foram registrados 283 milhões de atendimentos e 675,6 mil internações em 2016. No ano passado, considerando o período de janeiro a julho, foram 160 milhões de atendimentos ambulatoriais e 395,3 mil internações.

Para o presidente do Cremerj, os números refletem a necessidade que o Rio de Janeiro tem de melhorar o atendimento à população fluminense.

“A saúde no Rio de Janeiro vive sua pior crise. A situação é de calamidade pública. É claro que temos grandes conquistas, mas o acesso à saúde é péssimo. A Estratégia de Saúde da Família não tem médico. Nas UPAs, não há medicamento. Ou seja, existe atendimento, mas o acesso é precário, e o exemplo mais claro disso é na oncologia. A porta de entrada no sistema do paciente com câncer acaba sendo a emergência. A população está desassistida”, avalia Nelson Nahon. 

Atendimento solidário

O presidente do Cremerj, Nelson Nahon, aponta, ainda, que a crise econômica do Rio de Janeiro, que resulta em um dos maiores índices de desemprego, obriga a população a migrar dos planos de saúde para a rede pública, gerando uma sobrecarga. Segundo dados da Agência Nacional da Saúde Suplementar (ANS), entre março de 2016 e janeiro de 2018, houve uma queda de 5,7 milhões de beneficiários para 5,4 milhões no Estado do Rio. O orçamento apertando é uma das causas.

Para driblar a dificuldade no atendimento a quem precisa, instituições levam sua atenção para atendimentos médicos solidários, como é o caso da Pestalozzi, voltada para pessoas com deficiência. O local mantém, ainda, uma oficina de órtese e prótese capacitada em fornecer, gratuitamente, cadeiras de rodas, andadores e próteses para moradores de 55 municípios do Estado do Rio.

No ano passado, foram 150 mil atendimentos, sendo mais de 85% através do SUS, já que é certificado pelo Ministério da Saúde como Centro Especializado em Reabilitação.

De acordo com o vice-presidente da Pestalozzi, Pietro Accetta, o que dificulta o trabalho é a remuneração do SUS. 

“É de fundamental importância para o trabalho o equilíbrio financeiro, visto que a tabela do SUS para remuneração dos procedimentos está congelada há mais de 11 anos. A Pestalozzi, por exemplo, vem fazendo a reabilitação de bebês vítimas da microcefalia sem receber nada mais por tais procedimentos”, aponta Pietro. 

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