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Sinais de amor

Entenda a importância da Libras para a comunicação dos deficientes auditivos

Foi através do acompanhamento psicológico da Apada que Patrícia Vieira encontrou força e sabedoria para lidar com a surdez do filho Deivison, de 9 anos, hoje um fato superado

Foto: Lucas Benevides

Existe um sinal que estabelece um vínculo de amor imediato, que transforma a solidão de um universo mudo em comunicação e expressão corporal. Além de tudo isso, a Língua Brasileira de Sinais (Libras) ainda tem um papel fundamental para os surdos e os deficientes auditivos: o de fortalecer a identidade de cada. Em 26 de setembro, foi o Dia Nacional dos Surdos e deve-se dar o devido valor a essa linguagem imprescindível à população. 

A voluntária da Associação de Pais e Amigos dos Deficientes Físicos (Apada) Patrícia Vieira, de 40 anos, encontrou no espaço um sopro de esperança após descobrir que seu filho, Deivison da Silva, hoje com 9, tinha ficado completamente surdo aos 2, após contrair meningite bacteriana aos sete meses. 

“Estava casada há menos de dois anos. Era nosso primeiro filho e, quando descobrimos a surdez dele, a gente ficou sem reação. Logo em seguida, descobri a Apada, onde o Deivison passou a estudar na creche desde então, tendo todo o acompanhamento necessário”, relata Patrícia. 

Foi através do acompanhamento psicológico da Apada que Patrícia encontrou força e sabedoria para lidar com a surdez do filho, hoje um fato superado.

“Também temos a Polyana, nossa filha de 4 anos. Ela já fala em Libras com o irmão e faz questão de ser intérprete dele”, conta. 

Terminando o curso de Pedagogia, Marion Vasconcelos, 29, também teve meningite no primeiro ano de vida e ficou surda. Por volta dos 14, sua família lhe ofereceu a chance de fazer a cirurgia e colocar um implante que poderia fazê-la voltar a ouvir, mas ela decidiu, ainda jovem, que não faria.
“Sou feliz sendo surda. Ainda adolescente, descobri minha identidade surda e a aceitei. Eu já tinha a linguagem dos sinais e não me fazia falta não ouvir. Desejo que um dia todos saibam Libras para que os surdos consigam se comunicar onde forem: médico, dentista, supermercado, farmácia, lojas, etc. Não entendo porque todos são alfabetizados pela língua portuguesa e pelo inglês e não por Libras”, critica.

Terminando o curso de Pedagogia, Marion Vasconcelos, 29, teve meningite no primeiro ano de vida e ficou surda. Ao seu lado, a professora Gabriela Teixeira, 31, que acredita ser necessária a Libras, pelo menos, entre o surdo e sua família

Foto: Lucas Benevides

A Libras foi oficializada como língua apenas em 24 de abril de 2002 (Decreto Lei nº. 10.436). No último censo do IBGE (2010), Niterói possuía 908 deficientes auditivos, o Estado do Rio de Janeiro, 771.995, e o Brasil, 9.717.326. Em 29 de maio de 2015, foi inaugurada a Central de Libras de Niterói, que funciona nas instalações da Coordenadoria Municipal de Acessibilidade, no 6º andar do prédio da prefeitura. No local, duas intérpretes da Língua Brasileira de Sinais se revezam no atendimento ao público, das 9h às 18h. Residentes de Niterói que têm deficiência auditiva podem agendar atendimento e serem acompanhados por intérpretes em hospitais, instituições públicas e demais serviços. Foram cerca de 250 atendimentos nesses dois anos. 

“Nós trabalhamos para que Niterói seja uma cidade cada vez mais inclusiva. A lei que estabelece normas de acessibilidade aos candidatos surdos nos concursos públicos realizados pelo Município de Niterói, sancionada por mim, e a Central de Libras são exemplos disso”, observa o prefeito Rodrigo Neves.

De acordo com a otorrinolaringologista Raquel Monteiro, a causa da surdez pode ser genética (hereditária) ou não genética (ambiental). As não genéticas podem ser inúmeras, como as causas congênitas, ou seja, quando o bebê nasce surdo – devido à doença que a mãe teve durante a gravidez; prematuridade; meningite bacteriana, rubéola, caxumba; uso de medicamentos tóxicos; doenças neurodegenerativas; traumatismo craniano, entre outros.

“A surdez é a mais comum das deficiências sensoriais. Uma em cada mil crianças são afetadas por surdez grave ao nascer ou até o término do período pré-lingual, e uma em cada mil se torna surda antes de alcançar a idade adulta, segundo o tratado de otorrinolaringologia. É de extrema importância o diagnóstico precoce para que seja estabelecido o tratamento, ideal nos primeiros três meses de vida”, ressalta Raquel, explicando que o deficiente auditivo necessita de escola com professora que ensine Libras, exames de avaliação auditiva, tratamento multidisciplinar (médico otorrinolaringologista, fonoaudiólogos, psicólogos – serviços oferecidos na Apada), além de, muitas vezes, necessitar do uso de aparelho auditivo ou até mesmo ser submetido à cirurgia para implante coclear.

A professora Gabriela Teixeira, 31, casada há 9 e mãe de um casal, encontrou dificuldades de comunicação com a mãe, que, até hoje, não sabe Libras. Durante a gravidez, ela teve rubéola e, quando Gabriela estava com seis meses, foi descoberta a su­rdez.

“A família de um surdo deveria por obrigação saber se comunicar por Libras. Às vezes, recebo um aluno que os pais chegam falando que ele é nervoso ou irritado, mas isso é justificado pelo falo de ninguém na casa saber se comunicar com a criança”, afirma Gabriela, que ainda fala sobre a importância de um bom professor na vida de alguém: “Minha mãe achava que eu não era capaz. Graças ao incentivo de uma professora que tive na Apada, percebi que poderia, sim, ser professora”. 

Segundo a psicóloga Karla Rodrigues Dias, é imprescindível a comunicação para que a criança surda possa se desenvolver. 

“Quando você não se comunica oralmente, a tendência é extravasar através do corpo. A pessoa fica muito agitada, nervosa, agressiva. A criança, principalmente, extravasa através de corpo, algumas acabam mordendo os coleguinhas. A questão da não aceitação da Libras pelos pais, em geral, é porque a pessoa idealiza um filho ‘perfeito’ e tem que lidar com esse ‘erro’ – porque ela acha que cometeu um erro. Precisa haver uma série de transformações internas para ela aceitar esse filho. Às vezes, até com terapia, pode levar anos”, salienta Karla. 

A Apada funciona em São Domingos, em um casarão sedido pelo Governo do Estado do Rio desde 1981, embora tenha sido criada em 1969 por Miriam Rangel Rodrigues, 80, presidente do espaço. Tudo começou quando ela descobriu que sua caçula de dois anos estava surda após contrair meningite.

“Foi um alento para mim fundar a Apada. Foi até egoísmo, porque, na verdade, eu estava tentando procurar ajuda para mim mesma. Não imaginei que faríamos 47 anos e que ajudaríamos tantas pessoas”, admite. 

O local atua em duas frentes: educação e saúde. Através do convênio Criança na Creche da prefeitura, eles possuem a Creche Comunitária Bilíngue Prof° Geraldo Cavalcante de Albuquerque – inclusiva, e atende 75 crianças com deficiência ou não. A Apada também oferece aulas de Libras, que custam cerca de R$ 65 por mês. Na área da saúde, o espaço realiza atendimento clínico e terapêutico, além de exames específicos, pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e também particular.

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